Por Marcelo Osakabe — De São Paulo
07/07/2022 05h01 Atualizado há 4 horas
A invasão da Ucrânia pela Rússia e a perspectiva de que o mundo possa entrar em recessão afligem consumidores em todo o mundo. Mas o brasileiro parece estar mais preocupado que a média. É o que diz um levantamento do Boston Consulting Group (BCG) sobre a insegurança econômica das pessoas em 11 países.
Segundo a pesquisa, os brasileiros foram os que se mostraram mais preocupados com a possibilidade de uma recessão global – 82% dos respondentes, bem acima da média da amostra, de 73%.
Entre os emergentes que fizeram parte do estudo, o país também foi que demonstrou maior receio com a inflação e com as próprias finanças pessoais. 84% dos brasileiros disseram estar preocupados ou muito preocupados com a inflação, e 69%, com uma potencial recessão doméstica.
Para o diretor executivo e sócio do BCG no Brasil, Fernando Lunardini, a inflação mais alta por aqui é um dos problemas que influenciaram o resultado da pesquisa. “A inflação está no topo das preocupações do mundo inteiro. Mas em lugares como a Europa, estamos falando de uma inflação de 8%, ao passo que os preços de alguns produtos sobem 14% ou mais aqui no Brasil”, diz. “Além disso, existem outras questões, como a eleição, que elevam o ambiente de incertezas. O brasileiro tem toda a razão em estar mais inseguro.”
Em sua avaliação, existe ainda um outro problema, mais de fundo: o fato de que, após uma sequência de anos de crise econômica, enquanto a maior parte do mundo seguia crescendo, a confiança do consumidor local já está muito fragilizada. “O que mais aflige esse indivíduo não é não consumir determinado produto, mas a consciência de que já teve essa possibilidade e perdeu”, diz. “Esse tipo de situação gera insegurança maior e demora para ser recuperado.”
Mesmo diante de uma recuperação franca dos empregos – que levou a taxa de desocupação a cair abaixo de dois dígitos pela primeira vez desde 2015, os dados mostram que o poder de compra ainda tem longo caminho a andar. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio real habitual dos trabalhadores, que considera a soma de todos os trabalhos, foi de R$ 2.613 no trimestre móvel até maio, uma queda de 7,2% em relação ao mesmo período do ano passado.
Mesmo sem contar a inflação, há também sinais de que o crescimento do salários pode desacelerar nos próximos meses. Segundo cálculos do Itaú Unibanco, a variação interanual do salário médio nominal de trabalhadores formais do setor privado teve aumento de 10,5% em junho, ante 10,6% em maio, na média móvel de três meses. “Apesar do elevado nível, há sinais de inflexão no ritmo de reajustes salariais”, diz o banco em relatório.
Em âmbito global, a pesquisa da BCG mostra que a guerra na Ucrânia está no topo das preocupações do consumidor global. No entanto, apenas os europeus e, em menor escala, os americanos dizem sofrer efeitos concretos relacionados ao conflito. Já os temores relacionados à pandemia estão cedendo: 51% dos respondentes acreditam que o pior da crise da covid-19 já passou, enquanto outros 47% se dizem menos preocupados com o impacto da doença.
Os temores em alta em relação a uma recessão econômica, no entanto, ainda não se traduziram em maior preocupação em cortar gastos vistos como “supérfulos”. A pesquisa da BCG mostra que a guerra na Ucrânia está no topo das preocupações do consumidor global. Ainda assim, seus efeitos concretos são relatados apenas por americanos e europeus. Já os temores relacionados à pandemia estão cedendo: 51% dos respondentes acreditam que o pior da crise da covid-19 já passou, enquanto outros 47% se dizem menos preocupados com o impacto da doença.
Essa tendência não se altera muito no caso brasileiro. 32% dos respondentes afirmaram que pretendem gastar mais com viagens, 31%, com cinema, e 28%, com eventos. Na contramão, 11% pretendem gastar menos com álcool, e 37%, com serviços básicos.
“Acredito que existe aí um efeito estilingue em relação a esse processo que o mundo passou nos últimos anos. Em boa parte dos países da pesquisa, que são ricos, a poupança é alta e o custo do lazer em proporção à renda também é menor”, explica Lunardini.
A pesquisa do BCG foi feita entre o fim de abril e o início de maio, com 9 mil pessoas em 11 países: EUA, China, França, Alemanha, Suécia, Reino Unido, Japão, Índia, Brasil, Indonésia e Austrália.
Fonte: Valor Econômico


