A empresa já iniciou produção e aguarda ainda para este ano a aprovação da Anvisa para oferecer um produto com 100% de canabidiol
Por Stella Fontes — De São Paulo
19/10/2022 05h01 Atualizado há 11 horas
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“Para ter mercado, é preciso ter preço agressivo”, diz Palhares, presidente — Foto: Silvia Costanti/Valor
A mineira Ease Labs está a caminho de se tornar a segunda empresa local a produzir e comercializar um remédio à base de Cannabis sativa nas farmácias brasileiras. A empresa já iniciou produção e aguarda ainda para este ano a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para oferecer no varejo um produto com 100% de canabidiol (CBD), indicado para o tratamento de epilepsia, enxaqueca e outras condições neurológicas graves.
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De acordo com o presidente e um dos fundadores da Ease Labs, Gustavo Palhares, a expectativa é ter oito produtos do portfólio da empresa nas prateleiras de farmácias em 2023 – além de quatro que são importados. “Com produção local, conseguimos garantir padronização e preços mais acessíveis ao consumidor final”, explica o executivo. Neste momento, são quatro os produtos à espera de registro na Anvisa.
Ainda incipiente, o mercado brasileiro de cannabis medicinal é hoje disputado por healthtechs que estão se aventurando na produção própria, como a Ease Labs ou a GreenCare, importadores e um número crescente de grandes laboratórios nacionais. A pioneira nas drogarias foi a paranaense Prati-Donaduzzi, que desenvolveu um canabidiol sintético. Mais recentemente, a Biolab começou a oferecer um extrato de cannabis, Promediol, importado da Suíça. E a Hypera deve se lançar em breve nesse segmento.
Na avaliação de Palhares, as grandes farmacêuticas serão relevantes nesse mercado, mas sua entrada tende a ser mais lenta e, inicialmente, com preços elevados, já que a oferta local depende de importação. “Por termos fábrica aqui, podemos ter uma estratégia agressiva mais comercial. A ideia é oferecer descontos”, afirma.
Para todos, no entanto, está claro que esse mercado será concorrido e ainda há obstáculos a superar. O mais recente revés da indústria, que lida também com barreiras culturais aos tratamentos associados à maconha, veio com uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) na última semana, que restringe a prescrição do canabidiol para dois casos específicos de epilepsia – embora o ativo já esteja sendo prescrito para tratamento de mais de uma dezena de doenças, incluindo Parkinson.
Pacientes, empresas e associações, entre as quais a Associação Brasileira da Indústria Canabinoide (BRCann), já se movimentam para questionar a resolução e a expectativa é a de que seja revista.
A Ease Labs, que nasceu em 2018, tem fábrica em Belo Horizonte (MG) com mais de 1,9 mil metros quadrados de área produtiva e dois laboratórios, de controle de qualidade e de pesquisa e desenvolvimento.
Em agosto, comprou a Catedral, uma das sete farmoquímicas de fitoterápicos no país, com vistas a purificar localmente o canabidiol e assegurar maior controle da cadeia produtiva. O próximo passo, e já há conversas em andamento, diz Palhares, será adquirir um produtor do próprio insumo na Colômbia.
“Com a verticalização, vamos assegurar o fornecimento dos produtos e melhorar margens, o que nos possibilita preços mais baixos. Para ter mercado, é preciso ter preço agressivo”, reforça o presidente.
A Ease Labs estima já ter investido R$ 30 milhões para consolidar seu plano de negócios e a holding que a suporta está capitalizada. Há alguns meses, o fundo de investimentos MadFish, do tenista mineiro Bruno Soares, liderou uma rodada de captação, com aporte de R$ 12 milhões na empresa. Nova rodada, a terceira desde a constituição da startup, está em andamento e pretende alcançar R$ 40 milhões.
Atualmente com 70 funcionários, a empresa conta com 15 profissionais na força de vendas, que deve dobrar de tamanho até o começo do ano que vem. A entrada nesse mercado de nomes como Biolab e Hypera, e suas robustas equipes de venda, não assusta, conforme Palhares. “Eles vão ajudar a difundir informação. O maior desafio é justamente levar informação de qualidade à classe médica”, afirma.
Fonte: Valor Econômico