A General Atlantic (GA), firma americana de investimentos em private equity, vê boas oportunidades no Brasil em meio à reordenação da economia global imposta pelo “tarifaço” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Isso significa que a companhia – que investe em empresas e tem cerca de US$ 103 bilhões sob gestão no mundo todo – estará mais ativa no país nos próximos dois anos. “Eu realmente acho que agora é uma das melhores oportunidades que vi no Brasil em muito tempo”, afirma Bill Ford, CEO e presidente do conselho da GA, em entrevista concedida ao Valor na manhã seguinte ao anúncio das tarifas recíprocas pelo governo americano.
“Acredito que o Brasil ganha uma enorme vantagem competitiva no comércio com os Estados Unidos em comparação com outras partes do mundo. Já há um bom relacionamento comercial, mas pode ficar muito melhor”, diz.
Ford já esteve diversas vezes no Brasil visitando clientes e empresas investidas, mas não voltava ao país desde antes da pandemia. De forma geral, diz ter gostado do que viu. Para ele, a economia brasileira está bem e oferece boas oportunidades. As taxas de juros elevadas são o grande ponto negativo, afirma, mas há espaço para investimentos com olhar de longo prazo, como os que a gestora costuma fazer. A GA tem, neste momento, participação em 13 empresas no país. Entre elas, estão XP, Locaweb, Neon e Quinto Andar.
Segundo Ford, a General Atlantic continua de olho nos setores de serviços financeiros, saúde e tecnologia. No entanto, a aquisição da gestora Actis, que atua em infraestrutura, abriu uma nova frente de negócios. Nessa área, está presente na Serena (ex-Ômega), companhia de energia renovável. Outro segmento que está no radar são os data centers, diante da demanda crescente por armazenamento de dados no mundo. “Haverá demanda por data centers sustentáveis, onde você está usando energia sustentável para alimentá-los. O Brasil tem muito disso. Isso vai ser atraente daqui para frente”, diz.
Valor: Como a General Atlantic está posicionada atualmente?
Bill Ford: Expandimos a empresa para focar além do ‘growth equity’ [empresas de alto crescimento], que é nossa principal estratégia de investimento e pela que somos conhecidos. Há cerca de cinco anos começamos a expandir a empresa para outras áreas. Adicionamos crédito privado, investimento climático com nosso fundo Beyond Net Zero e, há cerca de um ano, adquirimos uma gestora de infraestrutura chamada Actis, que tem presença significativa no Brasil. Tínhamos muita convicção sobre infraestrutura sustentável. Juntos, temos cerca de US$ 103 bilhões de ativos sob gestão em todo o mundo, sendo que dois terços ainda são growth equity. É nosso foco primário. No Brasil, na verdade, é growth, mas também infraestrutura como foco principal.
Valor: Quais são os efeitos, no cenário global, das tarifas comerciais anunciadas por Trump?
Ford: O presidente Trump foi muito consistente com o que dizia quando concorria à eleição, que queria uma reordenação da economia dos EUA. Uma economia voltada para produção e investimentos domésticos e mais distante do consumo. Ele tem uma visão de criar um reequilíbrio econômico nos Estados Unidos. A maneira como está conseguindo isso é por meio de tarifas como forma de desencorajar o consumo, encorajando a produção. As implicações macro, no entanto, podem ser muito, muito significativas. Vai afetar negativamente o crescimento econômico e a inflação. A probabilidade de uma recessão global e nos EUA aumentou significativamente. E a probabilidade de alta inflação nos EUA aumentou também significativamente de quando começamos o ano. Todos talvez devessem ter esperado isso, mas a expectativa quando o presidente Trump tomou posse era muito clara de que a economia dos EUA estava forte. O sentimento empresarial e do consumidor estava muito forte. E o pensamento era que, com a desregulamentação com um presidente pró-negócios, a economia iria seguir adiante. Houve uma mudança significativa na percepção nos EUA e entre os investidores de que agora temos de nos preparar para um ambiente econômico mais difícil. Estagflação é a palavra da vez nos EUA e eu não ouço a palavra estagflação há 20 anos, 25 anos.
Valor: Quais podem ser os efeitos para o Brasil?
Ford: O Brasil, em particular, vai ser um beneficiário relativo. Na verdade, apesar dos comentários negativos sobre o México e o Canadá, porque ele vai conviver com o UMSCA [acordo comercial entre EUA, Canadá e México], a maior parte não será tão afetada. A América Latina é uma grande vencedora e a Europa e a Ásia, as maiores perdedoras. O Brasil ganha enorme vantagem competitiva no comércio com os EUA em comparação com outras partes do mundo.
[Tarifas] Vão afetar negativamente o crescimento e a inflação. A probabilidade de uma recessão global e nos EUA aumentou”
Valor: De que forma esse rearranjo pode afetar os investimentos da General Atlantic?
Ford: Não tanto. Gosto de dizer que somos microinvestidores. Estamos procurando empresas de crescimento empreendedor em todo o mundo e que cresçam 25%, 30% ou mais. Embora elas sejam impactadas pelo ambiente econômico, essa não é a coisa mais importante que impulsiona o sucesso de nossos investimentos. Desde que possamos encontrar grandes empreendedores, companhias inovadoras em qualquer lugar do mundo, ainda estaremos interessados em investir lá. Agora, para o pessoal de investimentos em infraestrutura, as taxas de juros são um fator muito significativo.
Valor: Os juros estão altos no Brasil…
Ford: Se falamos sobre Brasil, é óbvio que taxas de juros são um tópico importante. Então eles [a área de infraestrutura] são um pouco mais afetados pelo que acontece com as taxas nos mercados emergentes. Quando temos incerteza e volatilidade, isso cria oportunidades para nós porque os ‘valuations’ se tornam mais atrativos, o capital se torna mais valorizado pelas empresas.
Valor: A turbulência política econômica no Brasil tem afetado os investimentos no país?
Ford: De modo geral, os dados macro estão muito bons aqui. Quero dizer, o crescimento do PIB. Venho aqui há muito tempo, vi outros períodos. No Brasil, se você olha para a taxa de crescimento, para a inflação, não é ruim. Talvez um pouco elevada, mas não ruim. A taxa de desemprego, muito boa. E, nos negócios que temos em nosso portfólio, o desempenho é muito bom. Agora, o grande, grande ponto de interrogação que prejudicou o mercado de ações e os fluxos de capital são as taxas de juros.
Valor: Quais as consequências?
Ford: Estamos em um mundo onde as taxas de juros reais são de 1,5% a 2%. Aqui você tem uma taxa de juros real de 6,5% a 7% e, claro, uma taxa nominal muito alta. É um custo de capital muito, muito caro e está obviamente tendo impacto muito significativo nos mercados, um impacto muito significativo nos fluxos de capital. Além disso, há um efeito muito, muito significativo em pequenas empresas que exigem dívidas para se financiar. Esse é o maior ponto negativo aqui e tem o maior impacto agora. Mas somos investidores de capital e de longo prazo, então minha visão é que provavelmente cria uma oportunidade para nós.
Valor: Com isso, as empresas estão mais abertas a buscar o capital do private equity?
Ford: Com o mercado de IPOs [ofertas iniciais de ações] fechado, chegam mais empresas para nós no mercado privado. Geralmente, é bom para nós. As empresas não querem tomar emprestado a 15%, 18%. Eu realmente acho que agora é uma das melhores oportunidades que vejo no Brasil em muito tempo. Os ‘valuations’ [avaliações das empresas] são atraentes, o capital privado é atraente, e a economia está em boa forma. Há muito foco na eleição do ano que vem, mas diria em geral que é um momento muito excelente para investimentos em crescimento aqui. Não só infraestrutura, estou falando mais sobre investimento em growth.
Valor: Quais setores são mais os atrativos no momento?
Ford: Ainda são aqueles em que sempre nos saímos bem aqui: serviços financeiros, saúde e tecnologia. Há muito empreendedorismo, muitas companhias boas nessas áreas. É um momento muito atrativo. Esta é uma das minhas principais conclusões nesta viagem.
Valor: Então podemos esperar mais investimentos da indústria de private equity no país?
Ford: Vocês podem esperar muto mais atividade da gente nos próximos dois anos. Vai ter incerteza, mas é bom para nós de certa forma. Vai haver muito foco na eleição, na taxa de juros, e isso pode criar condições muito positivas para investimentos com visão de longo prazo no Brasil. Muitos dos nossos competidores deixaram o mercado. Quando viemos para cá, no começo dos anos 2000, dissemos que estaríamos aqui para sempre, fizemos um compromisso permanente. Isso é ótimo porque, quando as pessoas decidem sair porque não gostam do ambiente, temos muito menos competição.
Valor: Como tem sido o cenário para captação para os fundos de private equity?
Ford: Globalmente, se tornou mais desafiador. Em parte, porque tem sido um ambiente de saída dos investimentos difícil. O outro grande tema para o investimento em private equity tem sido esse ambiente de saída muito, muito difícil nos últimos três anos, falta de IPOs. Sob o governo [Joe] Biden, tivemos uma política antitruste não convencional. Por causa disso, tivemos um nível muito baixo de atividade de M&A [fusões e aquisições, na sigla em inglês]. Cerca de 60% dos nossos negócios têm saída por meio de M&A, 40% pelo mercado público. Então, quando M&A fecha, prejudica nossas saídas. E o mercado de IPO não estava forte. A captação de recursos está difícil porque as pessoas não estão recebendo dinheiro de volta de seus investimentos antigos, e isso significa que têm preferido esperar até ter algum retorno antes de comprometer novo capital. Conseguimos levantar dinheiro, mas está mais difícil e não conseguimos obter tanta liquidez quanto gostaríamos. Agora, devo dizer, comecei o ano pensando que o mercado de IPO e o mercado de fusões e aquisições se tornariam muito mais ativos nos EUA, mas subestimei a incerteza que viria da administração Trump. Essa incerteza realmente fez com que o mercado de IPO não se abrisse, e o mercado de fusões e aquisições não se tornasse ativo. Ainda estou esperançoso para o segundo semestre, mas não temos evidência disso neste momento.
Valor: Os investidores estão esperando para ver…
Ford: Sim, o primeiro trimestre foi um dos piores para M&A em mais de uma década. Não houve muitos IPOs também. As pessoas estão esperando para ver o que acontece com as tarifas. Estão esperando para ver o que vai acontecer com a política tributária nos EUA. Isso criou muita incerteza e as pessoas seguraram seus planos.
Para o pessoal de investimentos em projetos de infraestrutura, as taxas de juros são um fator muito significativo”
Valor: Se os EUA e o mundo entrarem em recessão, a retomada dessas operações levará mais tempo ou pode haver oportunidades?
Ford: Há um alto grau de incerteza política e um nível elevado de risco geopolítico no mundo. Essas coisas estão lá no nível macro e afetam todos os investidores. Por outro lado, é um período de tremenda inovação em tecnologia, saúde e transição energética. Então, por um lado, parece bem traiçoeiro, mas, na verdade, há muitas coisas muito interessantes para fazer. Todos sabemos sobre IA [inteligência artificial], mas muitas coisas estão acontecendo na área da saúde também, em termos de como a IA está afetando a saúde, a demanda cresce rapidamente conforme as populações envelhecem e novas terapias são desenvolvidas. Embora ache que há um risco real de recessão e de estagflação, pessoalmente acho que não teremos recessão nos EUA.
Valor: Em caso de ruptura das cadeiras de produção globais, como o Brasil pode ser afetado?
Ford: É uma grande oportunidade para o Brasil. Primeiro, com a tarifa relativamente baixa, o Brasil ganha enorme vantagem competitiva no comércio com os Estados Unidos em comparação com outras partes do mundo. China e Ásia já estão tentando agressivamente se diversificar para longe dos EUA por causa de algumas dessas questões geopolíticas, e o Brasil tem sido um grande beneficiário disso. O Brasil está realmente em boa posição no reequilíbrio da cadeia de suprimentos e no comércio global.
Valor: Na área de infraestrutura, qual o foco da GA no Brasil?
Ford: Transição energética, mas também infraestrutura digital. Sou muito, muito positivo em relação à infraestrutura digital porque esta é uma sociedade muito digital. São 212 milhões de pessoas, todas conectadas por celulares. Estou no conselho da ByteDance, e o TikTok é grande aqui. Este é um mercado digital muito, muito ativo que cria oportunidades significativas em data center. O Brasil, em termos de infraestrutura digital, por causa do seu acesso a energia de baixo custo e energia sustentável, na verdade poderia ser um data center ou infraestrutura digital ainda maior. A Actis tem sido muito ativa na área de data centers, eles estão tentando atrair mais investimentos. Vai haver demanda por data centers que usem energia sustentável para funcionar.
Valor: Isso conecta duas pontas de investimentos da GA…
Ford: Estamos conectando. Essa é uma das razões pelas quais gostamos do investimento na Actis e no relacionamento com infraestrutura e energia. A escassez de recurso para data center é energia. Nós temos muita capacidade de energia sustentável. Isso nos dá uma terceira vantagem. Essa é uma área muito boa e, dado o que o Brasil produz em termos de energia limpa, eu estava em discussões nesta semana sobre o quanto o Brasil pode ser um grande exportador de capacidade de data center para o mundo, de capacidade de data center verde. Por causa do nosso investimento em tecnologia, temos muito conhecimento sobre o lado da demanda por data centers.
Valor: Isso significa que a GA pretende fazer novos investimentos em data centers?
Ford: Certamente. Podem esperar que a gente faça muito mais aqui.
Valor: O sr. mencionou o Brasil como um dos países da América Latina que podem se beneficiar do tarifaço. Quais são os outros?
Ford: O México é o maior beneficiário da reorganização das cadeiras de produção. Apesar do barulho sobre Canadá e México, acredito que o que começou ontem [quinta-feira] foi um recompromisso com o USMCA.
Valor: O Brasil pode se beneficiar do ‘nearshoring’ também?
Ford: Sim, se quiser. O Brasil tem outras vantagens principalmente em torno de recursos naturais que o México, além do petróleo, não tem. É uma grande oportunidade.
Valor: A Argentina tem atraído atenção dos investidores. A GA tem planos para o país?
Ford: A Argentina está no processo de reconstruir a confiança com investidores globais. Mas isso não foi totalmente alcançado ainda. Não estamos investindo lá.
Valor: O sr. mencionou várias vezes os investimentos sustentáveis, mas há um retrocesso na agenda ESG no mundo todo. Por que mantém o interesse?
Ford: Gostamos de pensar em nós como investidores fundamentais que têm uma visão de longo prazo. E é muito difícil negar o fato de que precisaremos de uma transição energética nos próximos 25 a 50 anos, e que a sustentabilidade se tornará uma questão crítica para todos os tipos de recursos em nosso ambiente. O ciclo político pode subir e descer, mas os fundamentos nos dizem que essa transição tem que acontecer, e a sustentabilidade continuará sendo crítica. Não mudamos nada. Ainda temos um fundo climático. Vamos levantar um segundo fundo. Estamos altamente confiantes de que vamos arrecadá-lo. Estamos enfrentando a mudança do clima todos os dias, mais do que nunca. Você simplesmente não pode negar as coisas que estão acontecendo diante dos olhos. Espero que os formuladores de políticas continuem a levar isso a sério, que os governos levem isso a sério.
Valor: A GA tem planos de levantar mais capital no Brasil?
Ford: Temos um maravilhoso grupo de investidores no Brasil que fazem parte da nossa base global. Famílias brasileiras. Temos mais de uma dúzia de famílias muito importantes que investem conosco. Isso tem sido muito, muito positivo. Segundo, o conjunto de oportunidades é excelente. Estou bastante otimista, e fiquei mais otimista nesta viagem. Há duas grandes questões para empenhar capital no Brasil. Uma são as altas taxas de juros reais e nominais. Por quanto tempo vão continuar? E, claramente, há tensão entre uma política fiscal muito liberal e a política monetária uma lutando contra a outra. A segunda questão é o que acontece nas eleições no ano que vem. Esses eram os assuntos sobre os quais todo mundo queria conversar. Mas se você é um investidor de longo prazo, ambos são administráveis.
Valor: A rotação de carteiras dos EUA para outros mercados vai continuar? Pode ajudar a destravar os IPOs no Brasil?
Ford: É cedo para dizer. O problema são as taxas de juros, que fizeram o capital de risco migrar para produtos de crédito. É preciso vê-las se mover em outra direção. O momento em que vamos ver o mercado de IPOs reabrindo significativamente é quando começarmos a ver uma mudança no ciclo de política monetária. Aí você vai ver fluxo de capital. Até lá, não tenho tanta certeza. [Uma taxa de] 14,25% é muito alta.
Fonte: Valor Econômico


