O acesso a tratamentos de alta complexidade ainda é um dos grandes desafios da saúde pública no Brasil. Medicamentos modernos contra o câncer costumam ter custo elevado e, em muitos casos, dependem de importação. Diante desse cenário, o governo federal anunciou uma medida que pode mudar a forma como esses remédios chegam aos pacientes do Sistema Único de Saúde. A iniciativa envolve cooperação internacional, investimento de longo prazo e produção dentro do próprio país. Acordo prevê produção nacional de remédios oncológicos O Ministério da Saúde assinou, em Nova Delhi, três Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo para viabilizar a fabricação de medicamentos contra o câncer no Brasil. A formalização ocorreu durante o Fórum Empresarial Brasil–Índia, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A previsão é de investimento inicial de até R$ 722 milhões já no primeiro ano. Em um período de dez anos, o montante pode chegar a R$ 10 bilhões. Os acordos envolvem a produção de três imunoterápicos utilizados no tratamento de câncer em estágio avançado: • Nivolumabe • Pertuzumabe • Dasatinibe Esses medicamentos são indicados para diferentes tipos de câncer, como mama, pele e algumas formas de leucemia. Atualmente, parte deles ainda não está disponível de forma ampla no SUS e pode custar até R$ 100 mil para o paciente na rede privada. A estratégia inclui o uso do poder de compra do Estado para garantir que os remédios sejam oferecidos aos usuários do SUS. O objetivo é ampliar o acesso e reduzir a dependência de importações. Como funcionarão as parcerias e a transferência de tecnologia Cada medicamento será produzido por meio de cooperação entre instituições públicas brasileiras e empresas privadas. No caso do nivolumabe, a produção envolverá a Bahiafarma como parceira pública, em conjunto com as empresas Bionovis e Dr. Reddy’s Laboratories. Para o pertuzumabe, a Bahiafarma também participa, ao lado da Bionovis e da Biocon Biologics do Brasil. Já o dasatinibe será desenvolvido por meio de parceria entre a Fundação para o Remédio Popular, a Biocon Pharma e a Nortec Química. Esses acordos fazem parte de uma política mais ampla de fortalecimento do chamado Complexo Econômico-Industrial da Saúde. A meta é ampliar a autonomia do país na fabricação de medicamentos considerados estratégicos, garantindo fornecimento mais estável e menor vulnerabilidade a crises internacionais. Além das PDPs, Brasil e Índia renovaram por mais cinco anos a cooperação bilateral em saúde. O entendimento inclui colaboração em: • Produção de vacinas • Desenvolvimento de insumos farmacêuticos ativos • Biofabricação e medicamentos biológicos • Saúde digital e telessaúde • Uso de inteligência artificial na área da saúde A Fiocruz também firmou dois memorandos com empresas indianas. Um deles, com a Biocon Pharma, prevê transferência de tecnologia para tratamentos de câncer, doenças raras e terapias imunossupressoras. Outro acordo, com a empresa Lupin, trata do desenvolvimento e produção local de medicamentos para doenças infecciosas negligenciadas, como tuberculose, malária, esquistossomose, hanseníase e doença de Chagas. Segundo o Ministério da Saúde, a produção nacional deve fortalecer a soberania sanitária, reduzir custos a longo prazo e ampliar o acesso da população a terapias de alta complexidade no SUS.
Fonte: O Povo