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O Brasil está atrasado para lidar com o envelhecimento populacional e não tem uma agenda de políticas públicas voltadas ao cuidado de idosos. Além disso, são necessárias mudanças profundas na forma como a sociedade lida com a terceira idade. Sem isso, as janelas de oportunidades vão se fechar e as de riscos persistirão. É o que avaliam os participantes do debate “50+: O Brasil está preparado para o envelhecimento?” no evento Rumos 2026, realizado pelo Valor, em São Paulo, na segunda-feira (2).
Todos os países ricos passaram pela transição demográfica, espécie de “pré-condição do desenvolvimento”, explica José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e diretor da consultoria Decifra Ensino e Pesquisa Demográfica. O problema é que o Brasil se aproximou desta inflexão sem ter conquistado níveis mais elevados de produtividade e renda. “O país conseguiu usar o bônus demográfico para deixar de ser de baixa renda e se tornou um país de renda média, mas não conseguiu dar o passo seguinte para a renda alta. Agora, a janela do bônus demográfico está se fechando, o que torna o desafio ainda maior”, afirma Alves.
Bônus demográfico é o período em que a população em idade economicamente ativa é maior que a composta por crianças e idosos. É o perfil de economias emergentes como a do Brasil, mas o aumento da expectativa de vida e a diminuição da taxa de natalidade prometem mudar essa condição em poucos anos. Recuperar o atraso na construção da economia do cuidado passará por repensar a mentalidade na qual “a criança estuda, o adulto trabalha e o idoso não faz nada”, diz Alves.
“Se continuarmos presos a essa ideia fixa, não haverá saída. Mas, se entendermos que existem relações multigeracionais e diversidade etária nas empresas, é possível aproveitar esse potencial”, diz.
Em sua visão, etarismo e preconceitos com a população acima dos 50 anos no mercado de trabalho representam um atraso, desperdiçam oportunidades e agravam os problemas demográficos. “Temos muitas pessoas nessa faixa etária desempregadas, idosos nem-nem por discriminação”, diz. A “economia prateada” representa oportunidades, mas levanta uma série de preocupações. Uma é sobre quem cuidará das pessoas idosas, em especial aquelas com 80 anos ou mais, diz Mônica Perracini, professora da Universidade Cidade de São Paulo e consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS). Existem poucos serviços para dar suporte às famílias e essa ausência recai desproporcionalmente sobre as mulheres. “Entre 76% e 80% de todo o cuidado prestado às pessoas idosas no mundo é feito por mulheres”, afirma Perracini.
A estimativa, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), é que cuidados de longa duração, como os necessários para pessoas com comorbidades ou doenças crônicas, vão exigir a criação de 130 milhões de empregos no mundo. Segundo Perracini, é preciso avançar em uma cesta de serviços que inclua saúde, cuidados continuados, serviços sociais, psicossociais e prevenção ao adoecimento, a fim de evitar que o peso sobre o sistema de saúde seja tão grande.
Os serviços de saúde mental e assistencial pensados para os próprios cuidadores serão especialmente importantes, avalia. Caso contrário, a qualidade de vida dos mais velhos será conquistada às custas de uma maior vulnerabilidade de outros segmentos. “Essa discussão é urgente e deve chegar no campo da política”, afirma.
O envelhecimento vai pressionar os modelos de negócio da saúde complementar, afirma Bruno Sobral, diretor executivo da Fenasaúde. De acordo com ele, há uma série de oportunidades perdidas nesse campo. E a escassez de profissionais especializados para atender às novas demandas do sistema de saúde é um dos principais gargalos no Brasil. Há um déficit não apenas de médicos, mas também de enfermeiros e equipes treinadas para modelos de cuidado mais complexos e contínuos, incluindo o acompanhamento funcional e o cuidado de longo prazo. “Não formamos profissionais em quantidade suficiente para atender essa demanda, que não é nova e tende a crescer com o envelhecimento da população.”
O avanço passa, também, por maior coordenação do cuidado. Ele destaca que pacientes frequentemente circulam por diferentes especialistas – como cardiologistas, geriatras e outros -, sem integração adequada entre os atendimentos. “O desafio dos gestores de saúde é coordenar esse cuidado de forma mais eficiente, garantindo que o paciente esteja no lugar certo, na hora certa”, diz.
Sobral defende o estímulo à demanda por esse tipo de cuidado especializado, que inclui a saúde mental e serviços sociais. Para ele, intervenções nessas áreas ajudam a melhorar a adesão a outros tratamentos e a qualidade de vida dos pacientes, reduzindo o isolamento e o agravamento de quadros de saúde. Na avaliação do diretor da Fenasaúde, esse processo exige um conjunto de investimentos coordenados entre setor público, privado e sociedade. O debate foi conduzido por Catherine Vieira, editora-executiva do Valor.
Fonte: Valor Econômico