Na segunda semana de setembro, o Morgan Stanley promoveu em Londres uma conferência com 63 empresas da América Latina – boa parte, brasileiras – para conectá-las a um grupo de 250 investidores dedicados a mercados emergentes. A agenda das companhias lotou de reuniões, refletindo a disposição de fundos estrangeiros para alocar recursos na região. O quadro teria sido bem diferente se o encontro tivesse sido realizado alguns meses antes, afirma o presidente do Morgan Stanley no Brasil, Alessandro Zema. “O nível de engajamento seria metade do que foi”, diz o executivo em entrevista ao Valor.
Esse engajamento já tem se traduzido em algum fluxo para os mercados de juros e câmbio brasileiros, beneficiados pelo elevado diferencial de taxas em relação aos Estados Unidos. O movimento em direção à bolsa também acontece, mas em menor escala. Na visão de Zema, o estrangeiro está interessado e começa a se posicionar à espera de dois gatilhos para vir com mais força ao Brasil. Um deles é a queda da taxa de juros, que deve favorecer a renda variável. O outro é uma sinalização do atual governo ou dos candidatos à eleição presidencial de 2026 sobre um ajuste fiscal mais vigoroso.
“Neste mundo em que a gente está entrando agora, com taxa de juros declinantes, com um diferencial de Brasil ainda relativamente grande, a gente deveria estar atraindo proporcionalmente mais fluxo do que está. Então, se fizermos ou sinalizarmos mais positivamente ajustes do lado fiscal, veremos volumes muito maiores vindo para o Brasil”, afirma.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Valor: Os juros começaram a cair nos EUA, enquanto a Selic se mantém em 15%. Quais as implicações disso para o Brasil?
Alessandro Zema: O macro tem sido relativamente positivo. Nos últimos quatro anos, a gente teve crescimento da economia acima do que o mercado vinha esperando. Estamos vendo a inflação desacelerando, uma perspectiva de corte de juros no Brasil ficando cada vez mais visível, mais provável de acontecer nos próximos meses. E temos visto, também, a volatilidade do câmbio diminuir muito. Esse cenário relativamente benigno, com perspectiva de queda de juros, vai trazer um certo alívio no fiscal e, também, maior alento de crescimento para o ano que vem. A grande preocupação continua sendo a sustentabilidade da dívida.
Valor: Há, no mercado, uma expectativa de que pós-eleição, haja um ajuste fiscal, independentemente de quem vencer. O que acha?
Zema: O secretário [do Tesouro Nacional, Rogério] Ceron disse [em entrevista ao Valor ] que espera que as condições para fazer um ajuste fiscal mais vigoroso em 2027 estejam presentes. A ministra [do Planejamento, Simone] Tebet também já disse isso. O mercado tem cada vez mais criado uma expectativa de que, pós-eleição, teria um ajuste.
Valor: Parece que é um encontro com o inevitável…
Zema: Essa é a visão que o mercado tem. E esse ajuste fiscal pode acontecer através de uma reforma administrativa, de uma desvinculação de receita e despesa, algum grau de flexibilidade, mas a expectativa é que, pós-eleição, algum ajuste aconteça.
Valor: Temos visto um fluxo de recursos para o Brasil, especialmente na renda fixa. Vai aumentar com o diferencial de juros crescendo?
Zema: Do lado de renda fixa, com esse cenário de a gente ter, provavelmente, taxa de juros declinantes, nos próximos meses, um prêmio de risco maior entre juros americanos e brasileiros, a gente tem visto um fluxo vindo para a renda fixa no Brasil como há muito tempo não via. Esse fluxo tem sido alocado mais para câmbio que para juros. A parte longa da curva de juros ainda está muito alta, mas a partir do movimento que a gente espera, de queda, talvez veja uma alocação maior também para juros. Na renda variável, a história é um pouco diferente. O resgate de fundos multimercados e fundos de ação diminuiu muito do começo do ano até agora, o que é muito positivo. O Brasil está barato. Não temos visto investidor estrangeiro vendendo Brasil e qualquer movimento está fazendo preço. Qualquer movimento de realocação que acontece lá fora e eventualmente a gente recebe nossa parcela está ajudando a fazer preço.
Valor: O que falta para um fluxo mais forte em renda variável?
Zema: Não falta convicção do investidor estrangeiro para vir para o Brasil. Não falta apetite de risco. O que falta são alguns catalisadores, principalmente do lado fiscal, para ele vir em maior volume. Mas o primeiro passo, que é ter esse investidor mais engajado e acompanhando mais de perto, a gente já está vendo. Fizemos uma conferência de renda variável em Londres [em setembro] com 63 empresas latino-americanas, 250 investidores estrangeiros de fundos dedicados a mercados emergentes, fundos “long only”, focados no longo prazo. E as agendas de todas as empresas lotadas, com muito, muito interesse. Mas falta uma visibilidade maior para, de fato, esse movimento do lado de renda variável acontecer mais.
Valor: Esse é o investidor que está realocando dos Estados Unidos para emergentes?
Zema: Sim, temos visto ainda realocação de mercados globais para o Brasil e para a América Latina fazendo preço. Se me perguntar se tem um grande movimento direcional específico de Brasil, ainda não. Também não estamos vendo nenhum fluxo vendedor de investidor estrangeiro no Brasil. Esse movimento de redução de taxa de juros nos EUA e perspectiva de redução aqui também tem sido superpositivo para emergentes. O índice de mercados emergentes, o MSCI, em dólares, subiu 25% neste ano. No Brasil, subiu 35%.
Valor: Apesar de o Ibovespa estar nas máximas históricas, o volume negociado na bolsa está no menor patamar dos últimos anos. Se houver ajuste fiscal, haverá um rali?
Zema: Não tenho a menor dúvida. Neste mundo em que a gente está entrando agora, com taxa de juros declinantes, com um diferencial de Brasil ainda relativamente grande, a gente deveria estar atraindo proporcionalmente mais fluxo do que está. Então, sim, se fizermos ou sinalizarmos mais positivamente ajustes do lado fiscal, veremos volumes muito maiores vindo para o Brasil.
Valor: Quão grande precisa ser esse ajuste para destravar o fluxo? Seria suficiente uma sinalização ou precisaria entregar muita coisa para convencer o estrangeiro?
Zema: A sinalização e o plano gradual de execução são muito importantes. Não consigo dizer quanto de ajuste precisa ser feito. O que de fato começa a estabilizar a trajetória da dívida é um superávit acima de 3%. Quanto disso qualquer governo no Brasil fará, não consigo dizer. Mas a sinalização de que há vontade para fazer vai ser muito importante.
Valor: Temos visto neste ano um volume mais forte de emissões de dívida no exterior. É também um retrato do interesse dos estrangeiros?
Zema: Até este momento, tivemos US$ 29 bilhões de emissão de empresas brasileiras. E esperamos pelo menos mais US$ 10 bilhões até o fim do ano. Esse volume é bem maior do que foi no ano passado, e muitos emissores brasileiros estão captando com spread em relação ao Tesouro americano na mínima histórica. Na renda variável, quando a gente pensa no mercado americano, que é o mais líquido do mundo, desde julho não víamos uma sequência em termos de qualidade e de quantidade [de IPOs] tão boa nos últimos quatro anos. Temos visto mercados muito mais construtivos. As emissões não só precificaram muito bem como as ações performaram muito bem depois. Isso, obviamente, é um catalisador importante para futuras transações virem a mercado. Nesses últimos dez dias, a gente viu US$ 15 bilhões de emissões acontecendo nos EUA em 27 transações diferentes.
Valor: Esse movimento ajuda a retomada dos IPOs no Brasil?
Zema: Na América Latina como um todo, a gente vive muito de janelas [para IPOs]. O que a gente vê acontecendo agora no Brasil é que, por conta desses mercados mais construtivos lá fora e a perspectiva de corte de juros aqui, começa a ter empresas pelo menos pensando na possibilidade de vir ao mercado. Contemplar a possibilidade de vir ao mercado requer não só mercados construtivos globalmente, mas também visibilidade de uma queda de taxa de juros maior que a prevista. Hoje, o mercado está prevendo mais ou menos 3 pontos percentuais de queda de juros do começo de 2026 até o começo de 2027. Empiricamente, quando se olha a estatística grande parte do volume de atividade no Brasil para IPOs, “follow-on”, atividade de equity no geral, ela acontece quando a taxa de juros real está abaixo de 6%. Então, a gente precisaria chegar a uma taxa de juros talvez por volta de 10% e a uma taxa de juros real abaixo de 6% para, de fato, ter condições de começar a ver IPOs e emissões de sucesso.
Valor: Então, não é nada que a gente possa ver nem em 2026…
Zema: Não, espero que a gente veja em 2026.
Valor: A Selic não deve chegar a esse patamar no ano que vem…
Zema: A visão do Morgan Stanley é que esse ritmo de atividade econômica muito resiliente vai desacelerar de forma mais suave do que o mercado imagina. Na nossa visão, a redução de taxa de juros começa em março, mas daí para frente é muito mais contundente. Estamos precificando uma taxa no fim do ano que vem de 11,5%. O mercado está precificando que o começo da redução acontece um pouco mais cedo, mas não acontece de forma tão contundente. E com inflação desacelerando, câmbio, redução de taxa de juros de forma contundente, tudo isso cria um ambiente muito positivo para o mercado de capitais no Brasil, tanto de ações quanto de dívida.
Valor: Vai coincidir com o ano eleitoral. As empresas não tendem a segurar as operações?
Zema: Sem dúvida nenhuma, depende muito da visibilidade do que pode ser o dia depois da eleição. De forma geral, esse tema eleitoral o investidor local acompanha muito de perto e está 100% no radar dele. Para o investidor gringo, ainda não muito. O gringo vai começar a prestar atenção mais para frente.
Valor: Aqui, é o grande assunto…
Zema: Lá fora, não é tanto o assunto ainda. Será, mas ainda não é. O investidor de renda fixa está olhando um diferencial e um prêmio de risco para o Brasil muito grande, está vindo para cá em volumes muito importantes. O de equity está falando “bom, o Brasil está barato, estou engajado, estou tentando entender, mas preciso ter uma visibilidade maior e algum catalisador do lado fiscal para eu, de fato, vir em volume maior”. Tem tanta coisa acontecendo… Imagine você, investidor de mercados emergentes que está alocado em China, Índia, México, Brasil, África do Sul, Rússia etc. Você está acompanhando tantos temas que a eleição do Brasil, em outubro do ano que vem, pode esperar um pouco mais para acompanhar tão de perto assim. O governo Trump antecipou uma agenda com itens muito fortes, redução de custo, imigração, tarifas, e agora é que a gente está começando a ver uma acomodação. Então, o investidor reengajou para acompanhar o Brasil, tem apetite de risco. Comentei sobre a conferência na semana passada [retrasada]. Se a gente tivesse feito quatro meses antes, o nível de engajamento seria metade do que foi. Então, o investidor está engajado, tem apetite de risco para vir para o Brasil. Ele ainda não tem grande convicção, mas essa convicção deve vir.
Valor: Nos últimos anos, o desempenho do mercado americano superou o mundo todo. Agora há um espaço maior para emergentes?
Zema: Não tenho a menor dúvida, com a desvalorização do dólar frente a outras moedas e uma realocação acontecendo de Estados Unidos para outros mercados. No mercado de equities no mundo, 67% de todo o volume está alocado nos Estados Unidos. O segundo maior é o Japão, que tem 4%. Qualquer 1% que sai dos EUA faz enorme diferença para diversos mercados. Os investidores estão enxergando menor crescimento nas economias mais desenvolvidas e maior crescimento aqui. Sem dúvida, é uma tendência.
Valor: As tarifas e outras sanções impostas pelos EUA preocupam os estrangeiros?
Zema: No começo, foi um motivo de preocupação muito grande, mas foi ficando claro que, por ser uma economia fechada, que as exportações do Brasil para os Estados Unidos representavam 12% do PIB e que boa parte dos itens da agenda, depois daquelas duas, três semanas em que a gente ficou no escuro, foram isentos, o impacto efetivo para o PIB é alguma coisa entre 0,1% e 0,2%. Então, houve um certo alívio por parte dos investidores e dos agentes econômicos de que o impacto tarifário não seria tão grande quanto se imaginava logo que a notícia saiu. A preocupação é se vai haver uma escalada de tensões e o que já está precificado mude de figura.
Valor: Não há um temor de que o Brasil esteja se isolando do mundo?
Zema: Acho que não. Claro que era muito melhor não ter do que ter tido [o tarifaço], mas não tive essa sensação de que o Brasil está se isolando do mundo.
Valor: O senhor acha que a recuperação da renda variável já começa a aparecer neste ano ou só quando a Selic cair?
Zema: Quanto mais claro ficar que os cortes de juros vão acontecer mais cedo e de forma mais acelerada ou mais contundente, maior a predisposição de ver investidores vindo para cá. E se tiver boas notícias ou catalisadores do lado fiscal, aí acelera o movimento. Não necessariamente precisa do pós-eleição, mas sinalizações positivas do governo do lado fiscal vão ser de enorme ajuda para haver um fluxo maior.
Valor: O sr. mencionou que tem empresas começando a se movimentar para fazer IPO. Qual é o perfil delas? Grandes tíquetes?
Zema: É esse perfil. Uma coisa que a gente viu no último ciclo de Brasil, que foi 2019, 2020, 2021, foram transações precificadas com livros em que 70% a 80% dos investidores eram domésticos. Vimos aquela migração enorme saindo de renda fixa e indo para renda variável. Nesta nova fase, a gente já não verá 70% ou 80% de livro de investidores domésticos. Provavelmente veremos livros balanceados entre investidor doméstico e estrangeiro, 50% a 50%, livros com um percentual maior de investidor estrangeiro.
Valor: Como está o mercado de M&A?
Zema: A gente tem visto como grande tendência empresas brasileiras e empresas estrangeiras rebalanceando o portfólio para reduzir a alavancagem. Tem grandes empresas estrangeiras desinvestindo de algum ativo no Brasil por conta de alavancagem muitas vezes na matriz, e tem empresas brasileiras também rebalanceando o portfólio. O volume de transações de M&A neste ano deve ser maior que o do ano passado e devemos ver um 2026 melhor do que vai ser este ano. Está numa tendência positiva.
Valor: Que perfil têm essas operações?
Zema: São geralmente maiores e várias delas com troca de ações. Em períodos com uma taxa de juros tão elevada como a de agora, fica mais difícil para a empresa ter a convicção de levantar dívida no mercado para fazer uma aquisição. Então, se a ação está num preço saudável, ela prefere usar a ação do que levantar dívida. Em boa parte das transações, o que tem acontecido são trocas de ações.
Fonte: Valor Econômico