O principal fator de influência nas bolsas e ativos ao redor do mundo em março foi a guerra do Irã e, principalmente, seu impacto direto no preço do petróleo e o consequente impacto sobre a inflação.
O petróleo Brent saiu de US$ 73 dólares em fevereiro, antes da guerra, chegando a US$ 118, e agora opera na faixa dos US$ 105, com impactos em seus derivados, como gás, diesel, gasolina e querosene de avião.
“Esses preços subindo fazem com que a inflação no mundo inteiro comece a voltar. A inflação estava caindo no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa. Os bancos centrais estavam prontos para reduzir os juros, e isso brecou a política monetária de afrouxamento”, aponta Flávio Conde, analista da Levante Investimentos.
O analista lembra que, nas últimas reuniões dos bancos centrais, a maioria se manteve inerte, à espera dos dias 28 e 29 de abril para decidir sobre a possibilidade de aumentar os juros, algo que estava fora de cogitação.
Inflação ainda persiste
A guerra foi o principal assunto do mês, não isoladamente, mas como catalisador de uma narrativa maior: inflação persistente junto a uma restrição de oferta mais a incerteza geopolítica.
“O choque energético atua como um ‘imposto global’, reduzindo crescimento e elevando preços simultaneamente, reacendendo a preocupação da combinação de inflação alta e estagnação econômica, o que explica o comportamento misto dos ativos seguros”, aponta Varlon Reis, sócio do Grupo Nexco.
O dólar recuperou parte do seu status de refúgio, enquanto ouro e bonds oscilaram devido à alta de yields e dúvidas sobre política monetária. “Ou seja, não foi apenas fuga para segurança — foi uma reprecificação complexa de inflação e juros futuros”, diz Reis.
A insegurança gerada pela guerra fez com que o dólar parasse de cair frente às demais moedas e passasse a subir, inclusive em relação ao Brasil, mas principalmente em relação às moedas de países da Europa e da Ásia, mais afetados por um petróleo e derivados mais altos.
“Os únicos ativos que subiram a bolsa durante março foram as ações do setor de petróleo. Todo o resto caiu, materiais, commodities metálicas, commodities agrícolas, bancos. Quem segurou um pouco foram as empresas de saneamento e energia elétrica no Brasil, porque são pouco ou nada afetadas pelo petróleo”, diz Conde.
Cenários possíveis
Para o analista, há três cenários para o mês de abril: o pior deles é a guerra não acabar e o petróleo permanecer acima dos US$ 110. O melhor cenário é a guerra cessar, o centro de Ormuz ser reaberto e o petróleo cair rapidamente para US$ 80.
Mas há o cenário intermediário, e o mais provável para Conde, que é o aumento da guerra no começo do mês, depois uma diminuição e talvez até cessar parcialmente ao fim de abril.
“Os EUA saem da guerra e ficam só Irã e Israel trocando tiros. O estreito de Ormuz é reaberto, mas não totalmente, o preço do petróleo não cai para os US$ 73 que estava, mas para US$ 90, e as bolsas sobem com o alívio de uma guerra menor, mas com muita cautela”, especula Conde.
Reis, da Nexco, aponta que no cenário base de muitos analistas, há acomodação parcial, com petróleo ainda elevado e crescimento mais fraco, gerando um ambiente de “consolidação volátil”, sem tendência clara para ativos de risco no curto prazo.
“Qualquer sinal de desescalada gera corridas estratégicas, enquanto novas tensões reprecificam rapidamente os ativos”, diz, acrescentando que, nas políticas monetárias, o impacto é direto: bancos centrais entram em modo de espera forçada.
Trimestre do Ibovespa
Apesar da influência negativa da guerra e as incertezas sobre o futuro, o Ibovespa encerrou o primeiro trimestre de 2026 como o índice de melhor desempenho entre os principais mercados globais em dólares, com alta de 22,65%.
Segundo levantamento da Elos Ayta, o resultado representa o melhor desempenho trimestral desde o primeiro trimestre de 2022.
O período foi marcado por forte dispersão entre regiões, com predominância de retornos positivos concentrados na América Latina. Entre os índices no campo positivo, cinco são da região, com destaque para Peru (16,64%), Colômbia (11,35%), Argentina (2,78) e México (6,68%).
Esse movimento foi influenciado exatamente pelo agravamento das tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos, Israel e o Iraque, que elevou a aversão ao risco global e provocou uma reprecificação dos ativos internacionais.
O aumento da incerteza impactou especialmente os mercados desenvolvidos, mais sensíveis a fluxos globais e expectativas macroeconômicas. Nesse contexto, houve redirecionamento de fluxos para os mercados emergentes.
O Brasil se beneficiou dessa dinâmica por uma combinação de fatores, incluindo câmbio, fluxo estrangeiro e percepção de valor relativo. Como resultado, o Ibovespa não apenas liderou o ranking global, mas se destacou frente aos principais índices internacionais.
O Chile aparece como exceção regional, com leve recuo. Fora da América Latina, apenas Portugal (PSI), com alta de 7,96%, e Japão (Nikkei 225), com variação marginal positiva de 0,25%, encerraram o trimestre no azul.
Em contrapartida, Estados Unidos, Europa e grande parte da Ásia registraram desempenho negativo, refletindo um ambiente global mais adverso. O principal destaque negativo foi o Euro Stoxx 50, com queda de 11% em dólares, seguido por DAX (-9,52%) e Nasdaq (-7,11%).
Fonte: Capital Aberto