Depois de uma das valorizações mais expressivas da década, acumulando 150% de alta desde 2024, o ouro corrigiu cerca de 25% frente à sua máxima recente. O tom mais hawkish do Fed, que retirou a expectativa de cortes de juros para 2026 e a disputa pela liquidez global, seja pelo fluxo direcionado a empresas ligadas ao ciclo de IA ou ou pelo aumento do preço do petróleo que evitou o avanço de reservas dos bancos centrais, foram alguns dos fatores responsáveis pela correção. Dessa forma, a pergunta natural é: isso marca uma virada de ciclo ou apenas um respiro dentro de uma tendência de alta estrutural?
Um primeiro ponto de sustentação para a tese de longo prazo no ouro são os bancos centrais não terem, em sua maioria, de fato parado com as compras estruturais de ouro. Uma pesquisa do World Gold Council de junho mostrou que 89% das instituições esperam que as reservas globais de ouro aumentem nos próximos 12 meses (o maior percentual já registrado). O próprio Banco Central da China elevou reservas em junho, mesmo em meio ao pior trimestre do ouro em 13 anos, reforçando que a demanda oficial pelo ativo tem objetivos de mais longo prazo, como a diversificação de reservas, e não ao ciclo de curto prazo do mercado.
Outro ponto é o fluxo em ETFs. Segundo estudos, ETFs de ouro representam apenas 0,20%dos portfólios financeiros privados nos EUA, abaixo de um patamar já historicamente baixo. A menor alocação reduz o risco de quedas abruptas e sugere espaço para maior entrada de capital. Algumas casas de research acreditam que se a alocação atingir 0,5%, o preço do ouro poderia subir 20% – veja no gráfico a influência desses fluxos na variação do preço do ouro.
O consenso do mercado também não abandona a tese, apesar de terem reduzido suas projeções para o fim de 2026 (mediana em torno de US$ 4.500/onça) diante da maior incerteza em relação à política monetária mais cautelosa do Fed. No horizonte de 12 meses, projetam alta adicional de cerca de 10% a 20%, sinal de que o ajuste recente é visto como tático.
Ainda que a valorização do ativo no curto prazo seja interessante, um dos maiores benefícios do ouro no portfolio é a diversificação. Um estudo interno mostra que mesmo uma pequena parcela alocada em ouro reduz a volatilidade sem impacto relevante sobre o retorno. Uma alocação de 10%, por exemplo, reduziu a volatilidade em até 1,1%, conforme mostrado no gráfico. O resultado está em linha com o que o próprio World Gold Council encontrou em estudos de prazos mais longos: uma alocação de 5% reduziu o risco total da carteira em quase 5% (em termos relativos).
A volatilidade recente do ouro, intensificada pelo conflito no Irã e pela disputa por liquidez, não invalida a tese do ouro como instrumento de diversificação de portfólio. Pelo contrário, nos parece saudável manter o ouro como peça estratégica em carteiras de longo prazo, atentos à evolução do fluxo institucional e dos dados de reservas oficiais nos próximos meses.


Fonte: Bradesco Private

