O mercado ganhou uma dose extra de volatilidade com o confronto entre Estados Unidos e Irã, que se soma à guerra entre Rússia e Ucrânia, que já perdura por anos. Apesar da volatilidade, especialistas veem o mercado ainda resiliente e acreditam que deve haver janela para emissões de dívida e até ações, a depender das condições.
Alguns executivos do mercado ainda consideram que seja natural a guerra no Irã trazer algum tipo de impacto no mercado. Pressões inflacionárias e volatilidade nos preços das ações se mostram como as consequências mais evidentes.
A consequência prática desse contexto são os investidores exigindo maiores retornos diante do aumento das imprevisibilidades. Como efeito, as condições para que novas operações venham a mercado são alteradas, atrasando os cronogramas.
O que antes era visto como para motivo de pânico, hoje é encarado pelos especialistas como natural. A evolução do mercado fez com que os players brasileiros se tornassem mais resilientes e passassem a enxergar a incerteza como parte do ambiente de negócios.
No entanto, neste cenário de falta de confiança, há uma dicotomia entre como o mercado local vê o Brasil, e como o mercado externo vê o país.
“Nesse momento, vemos esse fluxo de entrada de recursos muito grande, onde talvez essa falta de confiança e essas incertezas lá fora sejam maiores do que aqui, ou talvez estrangeiros não estejam acostumados a lidar com incertezas da forma como a gente conhece”, diz Luiz Masagão, vice-presidente da B3, durante o MKBR 26, nesta terça-feira (7).
Apesar da volatilidade, respondendo à dúvida sobre se esses movimentos vêm para ficar, Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, analisa os preços de mercado e lembra que há duas guerras ocorrendo, e que os investidores têm reagido de maneira até positiva considerando esses eventos.
É visível o grande fluxo de recursos estrangeiros entrando no Brasil para se aproveitar de juros mais altos ou de valuations muito baixos no mercado de ações. Essa precificação reflete nos preços de mercado, apesar de todo o cenário de desconfiança vivido.
Para Funchal, há um desafio estrutural, que é o governo “sugar” boa parte da poupança do brasileiro para financiar gastos. Por outro lado, houve avanços micro: o avanço do mercado de crédito e a expansão do mercado de capitais.
Ainda que o país esteja sofrendo com uma seca de ofertas há quatro anos, houve crescimento em volume e quantidade de emissões, o que mostra que o ticket médio está caindo, ou seja, há mais empresas entrando no mercado.
“É o mercado se ajustando às necessidades de financiamento e à demanda de como a gente fecha esse gap, dado esse cenário alto de juros que estamos vivendo”, diz Masagão, da B3.
Para Guilherme Maranhão, sócio managing director do Itaú BBA, o mercado cresceu porque as entidades de classe, reguladores e o próprio mercado souberam adaptar o que era necessário.
Em sua visão, a introdução de novos instrumentos que convidaram essas pequenas empresas para o mercado de capitais serviu como uma porta de entrada e trouxe novos players, que trouxeram novos investidores, dando impulso à liquidez e viabilizando o mercado secundário.
Inclusive, para o executivo, esse período em que a janela de IPO esteve fechada foi fundamental, visto que o próprio spread de crédito mais baixo compensou um pouco do juro estruturalmente mais alto.
“Isso quer dizer que as companhias precisam só de dívida? Não, elas precisam de equity também”, diz Maranhão, acrescentando que as empresas conseguiram sobreviver com follow-ons.
Ele pontua que a guerra do Irã trouxe essa incerteza sobre a listagem das empresas, mas acredita que “estamos em um momento bom, onde vemos, ainda que com um tamanho um pouco menor dessa redução de juros, um horizonte. A tendência, na minha visão, é que a gente enxergue alguns IPOs”.
Para os executivos, não há um número mágico a apontar um direcionamento para essas emissões, mas com um horizonte de juro entre 10% ou 11%, deve haver uma confluência de interesses entre a companhia que quer emitir e o investidor que está correndo mais risco.
Há, segundo os executivos, 54 companhias já com registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) prontas para fazer a emissão. É apenas “uma questão de janela”, com apostas principalmente em setores de infraestrutura e saneamento, que tiveram muito investimento nos últimos anos.
Além disso, o ticket médio das emissões tem caído, com mercado realizando operações bilaterais, como a nota comercial, também com influência do regime Fácil. Masagão, cita, inclusive, que a B3 liquidou nesta segunda-feira (6) a primeira operação feita no Fácil, no valor de R$ 50 milhões, juntamente com o Itaú.
“Isso inaugura esse mercado. Começa com essas operações bilaterais e depois vai para operações de mercado aberto. Foi o que vimos com o mercado de debêntures”, diz o executivo da B3, citando que há potencial para ampliar a quantidade de players na parte de emissoras.
Na análise dos especialistas, a criação de novos instrumentos, e o envolvimento de diversos players e stakeholders foi fundamental para o desenvolvimento do mercado, e ganha impulso com novas regulações.
E, com o Fácil, “a rodovia está pavimentada e pronta para passar”. A procura por crédito aumentou nos últimos tempos, o que já facilitou o acesso de pequenas empresas.
Os executivos citam ainda produtos como FIDCs, e o avanço tecnológico que permite a gestão desse tipo de crédito, além de novos mercados como as duplicatas escriturais, instrumento que promete transformar o mercado de recebíveis.
“A partir de 2027, teremos mais essa estrada para acelerar e seguir desenvolvendo o mercado para as empresas menores. Só falta o juro cair”, ressalta Masagão. “Precisamos que o ajuste no juro seja um pouco maior para trazer as coisas para dentro da normalidade”.
Fonte: Capital Aberto
