Por Marsílea Gombata — De São Paulo
30/06/2023 05h00 Atualizado há 5 horas
Se o ex-presidente Jair Bolsonaro se tornar inelegível, pouco muda de imediato. O maior risco é no médio prazo, com chances de novos episódios como os de 8 de janeiro, diz Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia Group.
“Bolsonaro ainda será o líder da oposição, a figura política mais importante e poderá determinar quem vai concorrer contra a esquerda nas próximas eleições presidenciais”, afirma Bremmer ao Valor. “Se o Judiciário (…) decidir que Bolsonaro não pode concorrer na próxima eleição presidencial, haverá apoio ainda mais forte a ele. O apoio que tem será mais inflamado, mais arraigado, semelhante ao que acontece quando surgem casos contra [o ex-presidente Donald] Trump nos Estados Unidos. E isso pode levar a mais manifestações, a mais violência.”
No cenário político americano, Bremmer argumenta que, se o ex-presidente Donald Trump for nomeado candidato pelo Partido Republicano, a democracia estará ainda mais ameaçada.
“O Brasil tem algumas vantagens. É baseado em commodities e tem uma demografia muito boa. Há muitas razões para se acreditar no Brasil”
“Se Trump conseguir, a maioria dos republicanos, incluindo os que são hoje candidatos à Presidência, o apoiará”, diz. “E o apoiarão não importa o que aconteça com as investigações. Isso significa que se oporão ao Departamento de Justiça americano (DOJ), ao Federal Bureau of Investigation (FBI) e dirão a 40% do país que essas instituições são ilegítimas. A democracia dos EUA está em apuros.”
Bremmer esteve em São Paulo, onde participou do GZERO Summit Latam 2023 e conversou com o Valor.
Valor: O Brasil é bem diferente do que há 20 anos, quando Luiz Inácio Lula da Silva se tornou presidente pela primeira vez. Seu atual governo é diferente dos anteriores?
Ian Bremmer: Talvez a maior mudança seja que não se consegue fazer nada sem passar pelo Congresso. O Brasil tem um sistema político que exige esse compromisso, esse trabalho. Não se pode simplesmente anunciar uma medida populista à esquerda ou à direita. É preciso sentar, elaborar uma legislação, e isso é muito construtivo para o Brasil. Há aqueles que não votariam em Lula, pessoas que trabalham no mercado financeiro, empresários. Mas todos estão confortáveis com o rumo que a política do país está tomando, em parte porque entendem que existem barreiras, seja no ambiente fiscal ou nas privatizações, quando se trata de impostos, IVA.
A grande diferença é em relação ao clima. Não estou dizendo que vocês são responsáveis. O mundo é responsável, as empresas que investem também são responsáveis. Não estou culpando o Brasil, mas não há um foco e tem de haver. Isto é urgente. Está muito claro que o governo Lula entende o quão essencial é construir uma regulação do clima e preparar o país para o que será um ambiente energético pós-carbono. Todos chegamos tarde nisso. Mas os brasileiros chegaram ainda mais tarde.
Valor: Podemos esperar que o arcabouço fiscal apresentado pelo governo e a reforma tributária aumentem o interesse pelo Brasil?
Bremmer: Não sou economista. Posso dizer que estamos em um ambiente global em que as pessoas estão reduzindo riscos, e não estão aumentando. É um ambiente de taxas de juros mais altas. Os países, especialmente em desenvolvimento, estão usando muito do orçamento para pagar o serviço da dívida e a disposição para estender novas dívidas é um desafio.
O Brasil tem algumas vantagens. É uma economia baseada em commodities e tem uma demografia muito boa. É a maior economia da América Latina. Há muitas razões para se acreditar no Brasil. Além disso, geopoliticamente, as pessoas estão se arriscando ao lidar com a China, e o Brasil é um país em que as pessoas pensarão mais. Não como a Índia, como o México, mas ainda assim o Brasil é um beneficiário [desse atual cenário]. Diria apenas que a margem de erro é menor do que se imagina.
Valor: O que é preciso para o Brasil ser visto como alternativa à China, como são México ou Índia?
Ian Bremmer: Número um: os custos dos trabalhadores indianos são bastante baixos. E, em segundo lugar, o investimento da Índia em tecnologia tem sido extraordinário nos últimos dez anos. O Brasil não fez isso. Não há uma estratégia de tecnologia, de inteligência artificial, de biotecnologia.
O México é diferente porque está totalmente integrado à maior economia do mundo. No ano passado, o Texas teve mais troca comercial com o México do que com toda a América Latina.
O México é mais uma economia americana do que latino-americana. Esse é o ponto. Quando se fala de nearshoring, o México cabe totalmente nisso, é meio onshore, na verdade. Então o Brasil poderia competir com a Índia, mas não com o México.
Valor: Como o sr. vê o presidente Lula no cenário global hoje, com tentativa de mediar a guerra, das críticas aos pedidos da União Europeia para fechar o acordo com o Mercosul, da ideia de fazer o comércio em outras moedas que não o dólar?
Bremmer: Não acho que isso importe. É mais retórica. E os americanos e os europeus não esperam que Lula renda manchetes quando se trata de política externa. Com clima é diferente. Lula representando uma ruptura decisiva em relação a Bolsonaro é importante, principalmente por causa da Amazônia. A característica mais importante do Brasil no ambiente global, no contexto global é a Amazônia. Qualquer coisa que se faça sobre o clima é crítico, assim como em relação ao desmatamento.
Então, o fato de Lula ter desempenhado um papel de liderança muito mais efetivo é positivo. Mas é verdade que foi constrangedor o episódio com a Ucrânia, e também quando Lula não se encontrou com [o presidente ucraniano, Volodymyr] Zelensky. Zelensky é muito popular e muito eficaz na mídia, fala inglês, é um cara jovem e bonito, está lutando na guerra. E Lula não tem nada disso.
Mas a realidade é que a posição do Brasil sobre a Rússia é a mesma que a da Índia. Não há diferença. O Brasil ainda compra coisas da Rússia, a Índia compra muito mais da Rússia. O Brasil não apoia as sanções nem a Índia. O Brasil não votou na Assembleia Geral das Nações Unidas para declarar que a guerra da Rússia é ilegal.
Falou-se sobre uma moeda alternativa ao dólar. Não entendo o porquê. Às vezes, esses líderes são pegos por uma pergunta e não deveriam responder a ela da maneira que pensam, mas respondem. E, às vezes, eles cometem erros.
Valor: Se Bolsonaro se tornar inelegível, o que deve acontecer no cenário politico do Brasil?
Bremmer: No curto prazo, não importa muito, em parte porque Lula é relativamente popular e Bolsonaro ainda será o líder da oposição, a figura política mais importante e poderá determinar quem vai concorrer contra a esquerda nas próximas eleições presidenciais. Mas isso enfurecerá ainda mais a base populista de direita, que vimos na insurreição de 8 de janeiro. Fiquei horrorizado, especialmente porque os EUA exportaram um pouco disso para vocês.
E se Judiciário, que não é visto como independente e está politizado, decidir que Bolsonaro não pode concorrer na próxima eleição presidencial, haverá apoio ainda mais forte a ele. O apoio que tem será mais inflamado, mais arraigado, semelhante ao que acontece quando surgem casos contra Trump nos EUA. E isso pode levar a mais manifestações, a mais violência. Não logo depois, mas ao longo do tempo.
Valor: A guerra entre Rússia e Ucrânia se alonga, e fica cada vez mais incerta uma vitória da Rússia. O que podemos esperar?
Bremmer: Devemos esperar que os resultados extremos estejam se tornando mais prováveis, resultados extremos a favor dos ucranianos, que os ucranianos possam vencer e retomar suas terras. É provável que [o presidente russo, Vladimir] Putin, sob tanta tensão, escale drasticamente, exploda usinas nucleares, use arma nuclear tática ou taxe um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Há mais incerteza e mais incerteza envolvendo um líder que controla 6 mil ogivas nucleares, armas com capacidades biológicas e as mais poderosas gangues cibercriminosas do mundo.
Não estamos em uma guerra fria com a Rússia, mas uma guerra quente. Nós, a Otan, estamos fornecendo à Ucrânia as mais avançadas armas, inteligência, suporte de treinamento, e Putin é hoje considerado um criminoso de guerra. Criminosos de guerra acabam na prisão ou mortos, como Slobodan Milosevic, Muammar Gaddafi, Omar al-Bashir. [Mas] não temos como prender ou matar Putin.
Todos os anos, a Eurasia elenca os principais riscos globais. O maior risco deste ano é uma Rússia desonesta, trapaceira. E não apenas o maior risco deste ano, mas o maior risco em termos de impacto iminente e probabilidade, o maior risco que enfrentamos desde 1989, quando o Muro de Berlim caiu.
Valor: Quais as perspectivas para a guerra entre EUA e China?
Bremmer: Não temos uma guerra entre os EUA e a China nem mesmo uma guerra fria. É um tipo de guerra comercial, mas os níveis de comércio dos EUA com a China estão nos níveis mais altos da história. Os países não gostam um do outro, não confiam um no outro, mas ainda comercializam enormes quantidades. É certo que o Trump impôs tarifas e [o presidente americano Joe] Biden também. Na arena econômica, isso está reduzindo a atratividade dessas relações econômicas. Politicamente, está se tornando menos atraente.
A relação EUA-China está sendo testada pelos americanos e chineses, há controles de exportação de Taiwan. Estamos entrando em uma guerra tecnológica, de tecnologia de alto nível. Empresas como Google e Facebook foram tiradas da China por razões de segurança nacional, e agora temos a Huawei fora dos EUA, e produtores de chips de alto nível sendo informados que não podem vender para a China, incluindo a TSMC. Os chineses consideram Taiwan parte da China, mas não podem comprar chips da TSMC. Isso é algo muito provocativo. É uma declaração de guerra tecnológica pelos americanos. E isso é preocupante. Creio que os riscos na relação EUA-China aumentaram no médio prazo como consequência disso, não os riscos militares, mas os riscos econômicos e tecnológicos, e a diplomacia em torno disso. [Mas] ninguém no Brasil está fazendo uma escolha entre os EUA e a China. Ninguém [no mundo] está fazendo isso. Bolsonaro falou contra os chineses antes de se tornar presidente, mas, uma vez eleito, fez negócios com a China. Lula chega à Presidência, tem uma ótima reunião com Biden e depois vai à China, de onde traz centenas de executivos. Não vejo nenhum país dizer que tem de escolher entre EUA e China. E quando os países não fazem isso, não tem uma guerra fria.
Valor: Nos EUA, Trump saiu da Casa Branca, mas o trumpismo cresceu. Quais os prognósticos para a eleição americana em 2024?
Bremmer: Não tenho partido político, nunca fui membro de um partido. Trump é completamente inadequado para o cargo, é completamente incapaz de servir aos EUA. Acreditava nisso que quando ele era democrata, acredito agora que é republicano. Ele só piorou com o tempo. E o fato de que alguém assim conseguiu assumir o controle de um dos dois partidos políticos dos EUA é perigoso, essa é a verdade. É provável que ele consiga a nomeação [do Partido Republicano para disputar a eleição]. Não é certo, mas é provável. Se conseguir, a maioria dos republicanos, incluindo os que são hoje candidatos à Presidência, o apoiará. E o apoiarão não importa o que aconteça com as investigações. Isso significa que se oporão ao DOJ, ao FBI e dirão a 40% do país que essas instituições são ilegítimas. A democracia dos EUA está em apuros. Não está prestes a virar uma ditadura, a entrar em colapso, mas está em apuros.
Fonte: Valor Econômico
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