Mesmo com o recente rali na bolsa brasileira, que levou o Ibovespa a uma valorização de 44% nos últimos 12 meses, as ações brasileiras ainda estão baratas e seguem atraentes. “É difícil dizer que a bolsa não está descontada”, afirmou Rodrigo Santoro, responsável pelo portfólio de renda variável na Bradesco Asset, em painel ontem de evento do Bradesco BBI em São Paulo. “Ainda é interessante, com oportunidades em setores específicos.”
Santoro lembra que já entraram no Brasil R$ 50 bilhões nos últimos meses e que esse fluxo continuará quando a guerra terminar, porque o país ainda está com pouco peso nas carteiras globais em relação à média dos últimos cinco anos. Ele afirmou que vê um período prolongado de corte de juros no Brasil, apesar da incerteza em relação ao conflito no Irã, que pode abreviar o ciclo. “Temos visão de que a bolsa está barata pelo cenário de juros atuais, mas nos preocupa o risco de prolongamento da guerra no Irã.”
O investidor doméstico, porém, não aproveitou a valorização das ações brasileiras porque os juros altos e as isenções fiscais colocam em grande desvantagem os ativos de risco. “O gringo participou da festa, mas o investidor local não, porque é sempre pessimista em relação ao Brasil”, avaliou Sara Delfim, sócia da Dahlia Capital, no mesmo painel.
Segundo ela, os brasileiros tentam encontrar o momento em que a inflação estará ancorada, a situação fiscal resolvida e os juros, em queda, mas, afirma, é um quebra-cabeças muito difícil de montar. “Precisamos olhar o todo e o relativo. Sob diversas óticas o Brasil está bem. O mundo está endividado, o petróleo subiu, mas a gente exporta petróleo e vai ganhar com isso.”
André Lion, chefe de investimentos (CIO) e gestor da estratégia de ações da Ibiuna Investimentos, acredita que a volta do investidor doméstico deve demorar. “Enquanto o estrangeiro buscou ativos baratos, o local ficou preso aos juros e não captou a performance da bolsa. E esse cenário deve continuar neste ano.”
Santoro também acredita que o estrangeiro vai continuar ditando os rumos porque vê a bolsa de maneira diferente do brasileiro. “A isenção de alguns investimentos torna o custo de oportunidade elevado para pessoas físicas e a gente precisa ter clareza de que o ciclo de corte de juros será prolongado”, comentou ele, no mesmo painel. “Quando entrarmos num afrouxamento monetário de verdade, o investidor vai ficar incomodado em ganhar menos de 1% ao mês.”
É difícil dizer que a bolsa não está descontada. Ainda é interessante, com oportunidades em setores específicos”
Lion lembrou que o investimento em ações não deveria ser visto como tático. “Quanto mais o Brasil deixa de ser um mercado irracional, com cenários extremos e inesperados, maior deveria ser o investimento em ativos de risco, mas para isso é preciso resolver a questão fiscal.” Para Santoro, a diversificação global das carteiras globais, que estavam muito concentradas nos Estados Unidos, começou com o dólar mais fraco e preocupações com a segurança institucional do país.
A sete meses das eleições, a visão de Delfim é de que há mais ruído do que uma sinalização mais concreta, mas que a chance de uma vitória da centro-direita é possível. “Gostamos de acompanhar os institutos que mais acertaram ou erraram [nas eleições anteriores] e eles apontam uma chance da centro-direita ganhar. Só que não dá para ir para o ‘all in’ [apostando todas as fichas]. Isso pode ser perigoso também. Temos uma carteira de ações que pode se beneficiar de um cenário de mudanças, mas apostamos mais em opções [para uma aposta direcional].”
Na Bradesco Asset, a estratégia tem sido adotar uma carteira mais equilibrada, em virtude do período eleitoral e da guerra, focada especialmente em “bond proxies”, que podem se beneficiar do fechamento da curva e de um cenário que pode ser mais inflacionário diante de um preço de petróleo mais alto, como explicou Santoro, sem detalhar nomes.
Outro setor que pode apresentar oportunidades é o ligado aos preços de energia. Mesmo em meio a uma série de incertezas em torno do conflito, Lion diz que a única certeza é que os preços de energia ficaram mais altos. “Não sabemos nada da guerra, como vai acabar, quando, quais vão ser os acordos. Isso está em aberto. Uma coisa que sabemos é que o preço de energia subiu. O Brent estava em US$ 70 em janeiro e hoje a discussão é US$ 80 com US$ 90. A gente já aumentou o investimento no setor de energia como um todo”, destaca.
Lion diz ver pouca chance de a guerra terminar de vez ao longo dos próximos anos, assim como ocorre até hoje nos embates entre Rússia e Ucrânia. “Faz quatro anos que a guerra da Ucrânia e Rússia está aí. A questão é se o Estreito de Ormuz vai abrir ou não. Se a guerra vai terminar ou não, fora todos os pontos de desastre regional, a grande questão é se o fluxo de energia normalizará ou não. A hora que isso sair da frente, vamos voltar a dar mais preço para o cenário eleitoral.”
Fonte: Bloomberg Línea