Por Matheus Prado, Victor Rezende, Anaïs Fernandes e Augusto Decker — De São Paulo
18/11/2022 05h02 Atualizado
A bolsa e o real tiveram mais uma rodada de desvalorização ontem, na medida em que investidores receberam de forma negativa o texto da PEC da Transição, apresentado na quarta-feira ao Senado pelo governo eleito. No entanto, devido à sensibilidade dos agentes financeiros a qualquer notícia vinda de Brasília no curto prazo, declarações do ex-ministro Aloizio Mercadante sobre possibilidade de corte de despesas e a saída do também ex-ministro Guido Mantega da equipe de transição limitaram as perdas dos ativos na sessão.
Depois de ser negociado a R$ 5,5298 nos primeiros negócios, maior nível intradiário desde janeiro, o dólar fechou o dia no patamar de R$ 5,4006, em alta de 0,37% no mercado à vista. O Ibovespa, que tocou os 107.245 pontos no pior momento da sessão, nível que não experimentava desde setembro, fechou com perda de 0,49%, aos 109.702 pontos.
Com o exterior negativo, Brasília seguiu no centro das atenções do investidor local. Ainda sem uma diretriz clara para a trajetória fiscal nos próximos anos, o texto da PEC da Transição, apresentado na véspera ao Senado, não agradou os investidores, que voltaram a acrescentar prêmios de risco nos ativos domésticos e a colocar na mesa a possibilidade de altas de juros pelo Banco Central nas próximas reuniões.
Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs, disse em nota que, ao encaminhar uma minuta da PEC com a possibilidade de despesas de quase R$ 200 bilhões acima do teto de gastos, a equipe de transição do governo eleito de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aumenta a aposta, “minimizando/ignorando os sinais de preocupação que o mercado tem enviado em relação à sustentabilidade fiscal no médio prazo”.
Já Thiago Pereira, sócio e economista-chefe da Tower Three Asset Management, entende que a PEC foi apresentada com excessos para que haja espaço para cortes. Na sua visão, o movimento do mercado parece exagerado, mas reflete as incertezas. Sem o tamanho da proposta, diz, não dá “para fazer contas”, e sem o nome do ministro da Fazenda, que ainda acredita ser um perfil alinhado com os interesses do mercado, não dá “para saber onde o governo vai cortar para fazer a conta fechar”. Além disso, ele lembra do papel mais atuante do Congresso atual, de protagonismo. “Estamos no pior momento, mas me parece que, no fim, vamos ver uma costura melhor.”
Nessa linha, nos últimos minutos do pregão, uma entrevista coletiva de Aloizio Mercadante (PT) diminuiu pontualmente as perdas dos ativos. “Tem uma discussão aprofundada sobre corte de despesas, aumento de eficiência do gasto público, combater desperdícios que estamos identificando. Aumento de receita não significa aumento de carga tributária”, afirmou, quando questionado sobre formas alternativas para a geração de receitas. Além disso, parte do bom humor veio com a saída do ex-ministro Guido Mantega da equipe de transição, o que também aconteceu na reta final da sessão.
Mas o posicionamento do mercado segue cauteloso. “Se a postura do novo governo continuar a mesma e entrarmos em uma discussão de dominância fiscal – e estamos próximos disso -, o valor do câmbio nominal tem muito a depreciar. Para termos um cenário em que o BC eleva os juros no ano que vem, como a curva de juros tem indicado, estamos falando de um câmbio mais depreciado do que o atual”, diz Mariana Dreux, gestora macro da Truxt Investimentos.
Ela, inclusive, revela que a gestora carioca reduziu posições “tomadas” (que apostam na alta das taxas) em juros de curto prazo e aumentou posições compradas no dólar contra o real nos últimos dias. “A precificação no câmbio está muito tímida para a mudança de cenário que estamos vendo. O dólar a R$ 5,40 nós vimos no primeiro turno. Estamos falando de uma mudança de cenário bem mais forte que pode acontecer”, enfatiza Dreux.
O chefe de estratégia global de mercados do banco holandês ING, Chris Turner, também defende uma visão mais pessimista em relação à taxa de câmbio. “Parece justo dizer que o desempenho do real decepcionou algumas das expectativas mais otimistas feitas quando Lula venceu o segundo turno da eleição presidencial em outubro. Os investidores foram atraídos para a moeda por causa dos juros reais altos do Brasil e da ideia de que um Congresso centrista poderia manter alguns dos planos de gastos do presidente eleito sob controle”, afirma o estrategista em relatório enviado a clientes.
De acordo com Turner, o ING mantém uma visão distante do consenso em relação ao desempenho do câmbio. “Temos estado mais pessimistas em relação ao real do que o consenso por algum tempo e defendemos que o dólar deve terminar 2023 muito mais próximo das máximas de R$ 5,80 do que da estimativa de consenso, em torno de R$ 5,15”, aponta o profissional.
Pereira, da Tower Three, lembra que também há riscos para a bolsa. Apesar dos preços descontados, diz, “bolsa barata depende do cenário fiscal”. Ele lembra que muitas das empresas listadas já apresentaram resultados financeiros ruins no terceiro trimestre, por causa do patamar elevado dos juros. E, se não houver o alívio que o mercado espera nas taxas, isso seguirá atrapalhando os números, com um aumento consequente do custo do capital. O executivo aposta, não obstante, que haverá uma correção de rota, sob pena de o presidente eleito não concluir seu terceiro mandato.
Analistas do J.P. Morgan também citam um movimento de queda nos juros como essencial na concretização ou não da sua visão otimista para o mercado acionário local. “Taxas para baixo, ações para cima. Geralmente é tão simples quanto isso. Antes, a curva precificava quase 2 pontos percentuais em cortes de juros, e isso desapareceu. Um ponto importante da nossa visão otimista para o mercado de ações brasileiro é baseado no fato de que o país tem a maior taxa de juro real do mundo e, com a inflação em queda e a atividade desacelerando, o BC deve ser capaz de iniciar o processo de corte. Ainda assim, isso só será possível se houver alguma história fiscal confiável pela frente”, dizem Emy Shayo Cherman e equipe, em relatório. A estrategista aponta que ela e a equipe econômica do banco ainda têm esse cenário base, apesar de ainda haver muitas perguntas sem resposta.
“Assim que houver mais visibilidade sobre fiscal e equipe econômica, a expectativa de cortes nas taxas deve se ajustar.”
Fonte: Valor Econômico