Por Stephen Gandel — Financial Times
30/06/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
O Bank of America (BofA) está arcando com o custo de decisões tomadas há três anos, de aplicar a maior parte dos US$ 670 bilhões em depósitos captados durante a pandemia de covid-19 nos mercados de dívida no momento em que os bônus eram negociados a preços historicamente altos e os rendimentos eram baixos.
As decisões deixaram o BofA, o segundo maior banco dos Estados Unidos em ativos, com perdas contábeis de mais de US$ 100 bilhões no fim do primeiro trimestre, segundo dados da Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC). A soma supera em muito as perdas não realizadas no mercado de bônus informadas por seus maiores concorrentes.
Os resultados divergentes refletem as estratégias adotadas no início da pandemia, quando os bancos absorveram uma onda de depósitos de correntistas. O BofA colocou mais dinheiro em bônus, enquanto outros aplicaram parcelas maiores em “cash” (títulos de curto prazo e liquidez elevada).
Agora que os rendimentos subiram e os preços dos bônus caíram, o valor da carteira do BofA despencou. Por outro lado, o J.P. Morgan Chase e o Wells Fargo – primeiro e terceiro maiores bancos dos EUA, respectivamente – tiveram cerca de US$ 40 bilhões em perdas não realizadas no mercado de bônus, cada um, enquanto as perdas contábeis do Citigroup, o quarto maior, foram de US$ 25 bilhões.
As perdas no BofA responderam por um quinto das perdas não realizadas totais de US$ 515 bilhões nas carteiras de títulos dos quase 4.600 bancos americanos no fim do primeiro trimestre, segundo os dados da FDIC.
“Brian Moynihan [presidente-executivo do BofA] fez um trabalho fenomenal na condução das operações do banco”, diz Dick Bove, experiente analista bancário que é o estrategista-chefe da corretora Odeon Capital. “Mas se você olhar para o balanço do banco, verá que ele está uma bagunça.”
Quando os juros estavam baixos, estava ganhando mais dinheiro que os concorrentes” — Jason Goldberg
O BofA disse que não tem planos de vender os títulos que “submergiram”, evitando a concretização de perdas que, por enquanto, existem apenas no papel. A carteira do banco consiste de títulos de elevada classificação que provavelmente serão pagos quando os empréstimos subjacentes vencerem.
Mas manter os investimentos de rendimentos relativamente baixos, muitos dos quais são lastreados em financiamentos imobiliários de 30 anos, num momento em que os títulos recém-adquiridos rendem significativamente mais, poderá limitar a receita que o BofA conseguirá gerar com os depósitos de clientes.
“Acho que está em aberto”, diz Jason Goldberg, um analista bancário do Barclays, sobre a carteira de bônus do BofA. “Quando os juros estavam baixos, eles estavam ganhando mais dinheiro que os concorrentes. Hoje, eles estão ganhando menos”, diz.
Anos de taxas de juros baixas, aumento da regulamentação e um crescimento morno da economia levaram bancos de todos os tamanhos a colocar mais depósitos em bônus e outros títulos, ou aumentar os empréstimos buscando tomadores menos confiáveis. Do fim de 2019 à metade de 2022, o valor total dos títulos, a maioria Treasuries e financiamentos imobiliários securitizados, em todos os bancos aumentou 54%, ou US$ 2 trilhões, e duas vezes mais rápido que os seus ativos gerais, segundo os dados da FDIC.
O Silicon Valley Bank (SVB), que aumentou suas posições em títulos e emprestou dinheiro a startups deficitárias, é emblemático de como a estratégia deu errado. Uma corrida bancária afetou o SVB em março, provocada por um anúncio de que ele havia perdido US$ 1,8 bilhão com a venda de parte de sua carteira de títulos.
O BofA tem US$ 370 bilhões em caixa e não enfrenta nenhum aperto de liquidez como o SVB. Na verdade, o BofA e outros grandes bancos receberam depósitos de clientes de bancos regionais. A maioria dos empréstimos imobiliários é paga muito antes do prazo de 30 anos, e se as taxas de juros caírem novamente, então as posições do BofA voltarão a ganhar valor.
O BofA, assim como outros bancos, também se saiu bem nos testes de estresse anuais do Fed, cujos resultados foram divulgados na última quarta-feira.
Mesmo assim, os efeitos dos erros na carteira de títulos do BofA estão sendo sentidos pelos investidores, segundo afirmam analistas. As ações do BofA acumulam uma desvalorização de cerca de 15% no ano, o pior desempenho entre todos os seus grandes concorrentes.
O impacto também está pesando na margem líquida de juros do BofA, um indicador importante de desempenho que avalia o quanto do lucro um banco obtém com seus empréstimos e investimentos. Durante anos o J.P. Morgan e o BofA estiveram lado a lado nesse critério. Mas no último ano o J.P. Morgan passou à frente e no primeiro trimestre sua margem líquida de juros anualizada foi de 2,6%, contra 2,2% do BofA.
As perdas não realizadas são uma “questão polêmica”, diz Scott Siefers, analista bancário da Piper Sandler, acrescentando que elas “têm sido uma das coisas que pesam sobre as ações”. Um porta-voz do BofA não quis comentar.
Alastair Borthwick, diretor financeiro do BofA, respondeu perguntas sobre a carteira de títulos e as potenciais perdas na mais recente teleconferência sobre os resultados do banco. Borthwick disse que o BofA está reduzindo seus investimentos em títulos, que caíram para US$ 760 bilhões no fim do primeiro trimestre, em relação ao pico de US$ 940 bilhões no fim de 2021.
Borthwick foi promovido a diretor financeiro no fim de 2021 e desde então é visto como o mais provável a suceder Moynihan, que é presidente-executivo do BofA desde 2010. Borthwick é diretamente responsável pela gestão das posições em títulos do BofA e pelo balanço geral. A mudança nos títulos foi iniciada antes de Borthwick assumir seu cargo. Na época, as perdas não realizadas da carteira eram de menos de US$ 1 bilhão.
Uma fonte próxima a Moynihan disse que as perdas com títulos não afetaram o planejamento da sucessão ou mudaram o cronograma de quando ele poderá deixar o banco. Moynihan disse anteriormente que gostaria de permanecer como CEO até o fim desta década.
Mas Bove, da Odeon Capital, está convencido de que o modo como a instituição financeira vem gerenciando sua carteira de títulos influenciará quem assumirá o cargo principal – e quando. “Se a gestão do balanço não afetar o planejamento sucessório, o conselho do Bank of America deveria ser demitido”, diz ele.
Fonte: Valor Econômico