O bitcoin entrou em uma espiral ininterrupta de queda nos últimos dias e já acumula perdas de 27% em 2026 e de 50% desde a máxima histórica atingida no ano passado. Liquidação de posições no mercado de futuros, grandes vendas de entusiastas históricos dos ativos digitais, temor de que a computação quântica possa um dia quebrar a criptografia da moeda digital e até a concorrência junto aos investidores de varejo nos chamados mercados preditivos abalaram a confiança na maior e mais antiga da criptomoedas, surpreendendo com a magnitude das perdas neste ano.
Os chamados “invernos cripto”, com baixas de até 80%, não são novidade para o bitcoin, que já teve pelo menos três eventos parecidos, mas há fatores diferentes desta vez. O principal deles é a maior institucionalização do mundo cripto, que hoje está mais ligado a Wall Street e ao mercado financeiro tradicional do mundo todo. Essa institucionalização fez com que muitos acreditassem em um ciclo mais suave. Afinal, a narrativa clássica do bitcoin dizia que o ativo passa por ciclos de quatro anos relacionados ao “halving”, o evento quadrienal em que a recompensa aos mineradores cai pela metade. São três anos de alta e um de forte queda. Neste último ciclo, a criptomoeda subiu por dois anos, atingiu sua máxima histórica em outubro de 2025, mas despencou no quarto trimestre e encerrou o ano em queda de 6%, rompendo com o padrão histórico ao ter um terceiro ano de queda. Em 2026, as baixas só se intensificaram.
“O maior perigo agora é tentar ler o bitcoin pelo passado. O ativo fez máxima um ano depois do halving e agora está caindo, mas toda a estrutura dessa queda está bem diferente dos ciclos de 2022 e 2018”, afirma Vinicius Bazan, CEO da consultoria cripto Underblock. Bazan lembra que não há uma grande narrativa por trás da queda como nos ciclos anteriores.
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Em 2022, por exemplo, a baixa foi impulsionada pelo escândalo das criptomoedas Terra/Luna, cujo modelo de negócios se mostrou insustentável, apagando US$ 40 bilhões do mercado. O colapso gerou um efeito dominó de quebras no setor, culminando na falência da corretora FTX, no final daquele ano.
Desta vez, a queda do bitcoin começou com a grande liquidação de 10 de outubro, quando US$ 19 bilhões em posições no mercado de futuros foram encerradas em um “flash crash”. Os investidores comprados não tiveram mais força de jogar o preço para cima desde então, ficando à mercê dos vendidos. “Essas duas últimas semanas de queda são menos voltadas a notícias e mais a um sentimento de aversão a risco geral e desalavancagem. Quando isso acontece, o preço começa a cair muito mais pela emoção”, avalia Bazan. Ontem, o bitcoin caiu aos US$ 63 mil impactado no fim da tarde pela desvalorização das ações do setor de tecnologia. Um especialista que não quis ser identificado disse ao Valor que cripto está sendo influenciado pelo desempenho de tudo o que é tecnologia fora do segmento de inteligência artificial (IA).
No ano passado, uma série das chamadas baleias, investidores com gigantescas quantidades de criptoativos em carteira, venderam suas participações total ou parcialmente. Ao mesmo tempo, os investidores tradicionais pareceram absorver essa oferta adicional por meio de compras nos fundos negociados em bolsa (ETFs) de bitcoin à vista. No entanto, este tipo de fundo tem registrado saídas em massa em 2026. Conforme o capital é retirado dos ETFs de bitcoin, os investidores também se perguntam se o investidor institucional tem estômago para esses movimentos de ultra volatilidade.
A BlackRock hoje é dona do maior ETF de bitcoin do mundo, com US$ 64,8 bilhões em ativos. Recentemente, o investidor americano Michael Burry, famoso por ter previsto a crise de 2008, alertou para o risco de contágio do mundo cripto para o mercado financeiro tradicional. Burry disse que caiu por terra a tese de que a criptomoeda seria uma espécie de “ouro digital” – podendo proteger portfólios da inflação por ser um ativo com oferta fixa e sem interferência do Estado. Na avaliação do investidor, o bitcoin foi exposto como ativo especulativo. “Não há nenhuma razão de caso de uso orgânico para que o bitcoin desacelere ou interrompa sua queda”, escreveu.
Não há razão para que o bitcoin desacelere ou interrompa sua queda”
Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da fintech Nomad, o primeiro impacto do inverno cripto no mercado tradicional é nas empresas que atuam diretamente no setor e possuem capital aberto. É o caso da Strategy, desenvolvedora de software que se notabilizou como a primeira empresa a se converter em uma tesouraria de bitcoin. “A Strategy está em queda de 29,6% no ano e não é a única tesouraria de bitcoin com ações em bolsa. Além disso, há correlação com outras empresas de tecnologia, pois os investidores colocam cripto e tech em uma mesma caixinha, o que gera influência”, destaca Zogbi. Ela lembra que liquidações forçadas quando um ativo atinge zonas de venda automática podem fazer com que os institucionais precisem vender outros ativos voláteis para cobrir as perdas e migrar a carteira para uma posição de menos risco. “Isso pode piorar o sentimento de mercado de maneira geral.”
Mesmo com o cenário de pânico, Fernando Ulrich, conselheiro da empresa de tesouraria de bitcoin brasileira OranjeBTC, enxerga ainda sinais positivos. Ele destaca que, apesar das vendas nos ETFs, a custódia de bitcoin nesses fundos ainda não caiu nem 10%, o que indica certa resiliência do institucional.
Um ponto levantado nos últimos meses e que Ulrich reconhece como risco é a possibilidade da computação quântica conseguir quebrar a criptografia do bitcoin, algo que hoje é impossível. “A computação quântica é um risco real, claro, mas conhecido desde sempre. A controvérsia recente está relacionada com o prazo do processo de atualização do software do bitcoin para protegê-lo”, explica. Para Ulrich, algumas pessoas na comunidade acham que os desenvolvedores do bitcoin estão sendo negligentes na preparação para este risco. “Alguns investidores resolveram vender por causa disso? Claro, é possível. Mas considero que a correção atual esteja relacionada com o ciclo normal do bitcoin.”
Outro ponto levantado como hipótese para a queda é a migração de investidores de cripto para mercados preditivos, tais quais Polymarket e Kalshi. Bazan rejeita a tese, afirmando que essa fuga afeta mais altcoins (criptomoedas que não são o BTC) e memecoins, que atraem mais especuladores em busca de dinheiro fácil.
Fonte: Valor Econômico

