10/06/2022 05h02 Atualizado há 4 horas
O Banco Central Europeu finalmente decidiu se mover para combater a inflação na área do euro, que atingiu 8,1% em maio. A reunião foi precedida de vários sinais de descontentamento da ala ortodoxa do banco, que exigiu um comportamento mais agressivo, e a decisão do banco, ontem, indica que houve um compromisso que contempla essa posição. O BCE vai elevar os juros em 0,25 ponto percentual em sua próxima reunião, mas, para setembro, indicou que o aumento pode ser maior, de 0,5% ponto percentual.
O BCE comunicou que espera aumentar os juros em setembro, mas que a calibragem do aumento dependerá “das perspectivas da inflação no médio prazo. Se ela se mantiver ou deteriorar, um aumento superior (a 0,25 pp) será apropriado”. Depois de setembro, o banco considera que será necessário um “gradual, mas sustentado, caminho de aumentos nas taxas de juros”.
Não será mais do que isso porque a posição da presidente, Christine Lagarde, divide o comunicado, quando diz que o conselho do BCE “manterá opções em aberto, orientação de acordo com os dados, gradualismo e flexibilidade na condução da política monetária”.
O ponto de partida do ciclo de aperto monetário do BCE é, em alguns aspectos, bem menos favorável do que o do Federal Reserve americano. As taxas de juros na zona do euro são negativas (-0,5%) para uma inflação que não difere muito da dos Estados Unidos: 8,1% em maio, ante 8,3% (projeção). Ambos estão com juros reais absurdamente negativos. O BCE interromperá seu último programa de compra de ativos em julho, mas, segundo a reunião de ontem, continuará reinvestindo o dinheiro dos títulos que forem vencendo. A farta liquidez existente para de crescer, mas não é reduzida, ao contrário da ação do Fed, de enxugar US$ 47,5 bilhões por mês agora e US$ 90 bilhões mensais em três meses.
Os ativos do BCE subiram para € 4,9 trilhões, pouco mais da metade do Fed (US$ 9 trilhões). O programa de compra de títulos emergencial durante a pandemia, de € 1,7 trilhão, manterá as reinversões pelo menos até o fim de 2024. O programa de refinanciamento de longo prazo, maior (TLTRO) termina daqui a duas semanas.
Mais atrasado no combate à inflação, se considerado o índice cheio, o BCE não se prepara para um aperto muito intenso, como os investidores agora esperam nos Estados Unidos. Quando se retiram os pesos dos aumentos da energia (39,2% em 12 meses até maio) e de alimentos (7,5%) no mesmo período, o núcleo da inflação na zona do euro cai 4 pontos percentuais e alcança 4%. O núcleo de gastos pessoais de consumo (PCE), medida preferida do Fed, foi maior, de 4,9% em maio. Parte da explicação pode estar nas causas da inflação: a europeia é primordialmente importada, enquanto que na dos EUA fatores domésticos têm influência preponderante, como os enormes estímulos durante a pandemia, a taxa muito baixa de desemprego e os aumentos salariais (Robert Armstrong, Financial Times, 1-6).
O desemprego na zona do euro é de 6,8% em maio, o menor desde antes de a união monetária ser criada, em 1999. Não há sinais preocupantes de uma corrida dos salários para alcançar a inflação. Há pressão dos serviços, setor que tem puxado a demanda e continuará assim, com a chegada do primeiro verão em três anos sem que a covid-19 seja um ator principal de restrição relevante e custosa às atividades.
A visão da trajetória dos juros e das perspectivas econômicas na zona do euro, já sob aperto monetário, como traçadas pelo BCE, parecem tão idílicas quanto as do Fed. Se os preços da energia e das commodities recuarem e o conflito na Ucrânia não causar mais estragos do que já fez, o PIB perderá muito o fôlego este ano (2,8% ante 3,7% nas projeções de março) e a inflação fechará 2022 em 6,8% (ante 5,1 projetado em março). Nos dois anos seguintes, o ritmo de crescimento na zona do euro será de 2,1%, enquanto que o da variação dos preços será menos favorável, de 3,5% em 2023 e de 2,1% em 2024, ainda acima da política do banco de ter inflação próxima, mas não superior, a 2%.
A maior parte dos analistas vê, com boas razões, um risco maior de recessão na Europa do que nos Estados Unidos – mas não a descarta em ambos. Esse é o dilema atual dos BCs em estado quase puro: uma inflação, inédita em 40 anos, os empurra na direção do aumento de juros, enquanto que a economia, vítima de uma sequência de choques excepcionais, caminha para a exaustão.
Fonte: Valor Econômico