Sem sinais consistentes de alívio no câmbio doméstico, na medida em que o dólar segue acima de R$ 5,50 há algumas semanas, a perspectiva de aumento do diferencial de juros entre o Brasil e outras economias pode dar sustentação a uma apreciação do real, ainda que de forma tímida. É no que apostam alguns bancos estrangeiros que, ao longo da semana, iniciaram posição favorável à moeda brasileira, apesar de darem ênfase aos riscos locais e à incerteza ainda elevada no cenário econômico.
Foi o caso do Morgan Stanley, que, já no início da semana, abriu recomendação para posições compradas (que apostam na valorização) em real contra o peso colombiano. De acordo com a chefe de estratégia macro para América Latina do banco, Ioana Zamfir, as altas de juros que o mercado precifica devem dar apoio ao real, que pode ter um desempenho mais forte que outras moedas emergentes. “O que está claro para os participantes do mercado é que, dada a comunicação recente [do Banco Central], a ausência de uma alta nos juros neste mês prejudicaria a credibilidade do BC e teria forte impacto no câmbio.”
Zamfir observa, aliás, que, desde o ano 2000, o spread entre os juros do Brasil e dos EUA ficou abaixo de 6 pontos percentuais em 20% do tempo e, historicamente, esse nível “tem sido um limite muito importante para o desempenho do câmbio, onde os investidores começariam a ser adequadamente compensados pelos riscos idiossincráticos”. No momento, a Selic está em 10,5% e o topo da banda da taxa dos Fed funds, em 5,5%.
“À medida que o diferencial de juros aumenta, esperamos que o desempenho do real melhore, apesar dos ruídos fiscais contínuos. Mesmo que um spread maior já esteja precificado, achamos que o câmbio normalmente reage a aumentos realizados nos juros, em vez de aumentos precificados”, diz a estrategista. Além disso, ela avalia que o real deve ser menos sensível a uma desaceleração mais significativa da economia dos Estados Unidos do que alguns pares da região, ao avaliar que o crescimento econômico doméstico tem surpreendido constantemente.
O Morgan Stanley, porém, não foi o único a apostar em um bom desempenho da moeda brasileira. Durante a semana, o Barclays abriu recomendação para uma posição vendida (aposta na queda) em dólar contra o real e passou a mirar o nível de R$ 5,40. Na avaliação da chefe de estratégia para Américas do banco britânico, Andrea Kiguel, o real deve exibir um desempenho superior dentro do universo das moedas emergentes nos próximos meses, diante de uma mensagem coordenada entre o governo e o BC, na esteira de uma crise de confiança que afetou em cheio o câmbio.
Em nota enviada a clientes, a estrategista avalia que a coordenação entre o governo e o BC sugere, por enquanto, que “o pico de pessimismo foi atingido”. Para ela, o arcabouço fiscal continua vulnerável, “mas, por ora, achamos que o governo fará o suficiente para acalmar os mercados nesse front, já que os riscos para 2024 diminuíram”. Além disso, o ciclo de elevação dos juros pode ser favorável para novas posições que visam o “carry-trade” no real, enquanto outros bancos centrais, inclusive o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), começam a reduzir as taxas de juros.
Em nota enviada a clientes, os estrategistas do Goldman Sachs notam que o último “surto de fraqueza” do real apontou um desempenho inferior de cerca de 4% em relação aos fundamentos. “E um prêmio de risco adicional de 6% permaneceu embutido na moeda desde o segundo trimestre. Em nossa opinião, uma mensagem ‘hawkish’ [dura] confiável na reunião do Copom na próxima semana pode levar esse recente ‘gap’ de desempenho inferior a fechar e deve proteger a moeda de uma deterioração adicional das notícias fiscais ou inflacionárias.”
Os profissionais do Goldman Sachs notam, ainda, que as altas de juros precificadas na curva têm dado apoio a retornos totais maiores por meio de um aumento do “carry” e, assim, o carrego do real ajustado pela volatilidade permaneceu estável, mesmo nos últimos tempos, com uma instabilidade mais acentuada do câmbio. “No entanto, ainda achamos que, para desbloquear toda a valorização possível do real, é necessária uma articulação clara e um compromisso com a âncora fiscal no médio prazo”, enfatizam. O Goldman Sachs projeta o dólar a R$ 5,35 em três meses, a R$ 5,30 no horizonte de seis meses e a R$ 5,20 em 12 meses.
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Fonte: Valor Econômico
