O dia seguinte aos resultados das eleições ao Parlamento Europeu foi de turbulência e aversão ao risco nos principais mercados da zona do euro. A moeda comum anotou desvalorização ante o dólar e as bolsas do bloco fecharam em queda diante das preocupações do mercado com o avanço de partidos de extrema direita.
Os ativos mais afetados foram os franceses, após o presidente da França, Emmanuel Macron, dissolver o Parlamento do país e convocar eleições antecipadas. A perspectiva de vitória do Reunião Nacional (RN), partido de Marine Le Pen, elevou o prêmio de risco dos mercados locais e o rendimento do título soberano da França (conhecido como OAT) com vencimento de 10 anos fechou em 3,229%, maior nível desde novembro do ano passado.
Já a taxa do Bund alemão também de 10 anos subiu para 2,684%, patamar mais alto em junho, e o BTP italiano de igual vencimento alcançou 4,092%, fechando acima de 4% apenas pela segunda vez em 2024.
Nas bolsas, o índice Stoxx 600, que compila ações de 17 mercados europeus, fechou em queda de 0,27%, a 522,16 pontos. O movimento foi puxado pelas perdas da bolsa de Paris, cujo índice CAC 40 tombou 1,35% neste pregão.
Por fim, o euro oscilou em queda de 0,2% a 0,3% em comparação com o dólar na maior parte da sessão, após depreciar 0,5% mais cedo.
Robert Brown, gerente de portfólio de clientes da Janus Henderson Investors, considera que os resultados das eleições parlamentares na UE “tiram o brilho do que tem sido uma narrativa bastante forte até agora para as ações europeias em 2024”. Segundo ele, os investidores já haviam precificado os riscos atrelados ao pleito. Ainda assim, os resultados “podem representar um pequeno golpe no sentimento”, já que adicionam uma camada de risco político que havia sido colocado em segundo plano ao longo do último ano.
A desvalorização do euro, por sua vez, pode tornar mais difícil um ciclo de cortes de juros pelo Banco Central Europeu (BCE), diz Brown, já que a desvalorização da moeda ante o dólar tende a intensificar pressões inflacionárias domésticas. Ainda assim, ele vê chance “razoável” de mais reduções após o BCE realizar o seu primeiro corte desde 2019 na reunião da semana passada. Além disso, um euro mais fraco pode apoiar exportadores e empresas de pequeno porte na Europa, avalia.
Embora todo o Parlamento Europeu tenha dado uma guinada à direita, foi o fraco desempenho da coligação de Macron, que angariou apenas 15% dos votos na França, e a sucessiva dissolução do Parlamento que provocou o choque nos mercados hoje, segundo Chris Turner, chefe global de mercados do banco holandês ING.
“Embora o partido de Marine Le Pen tenha se afastado do manifesto ‘anti-euro’ com o qual se candidatou em 2017, os temores sobre a mudança de apoio à Ucrânia continuam a enervar os mercados”, diz Turner, que credita a fraqueza do euro nesta sessão à turbulência na política francesa.
Hubert de Barochez, economista sênior de mercados da Capital Economics, concorda que uma eventual vitória do RN na França é motivo de preocupação, ainda que os ideais econômicos do partido tenham moderado nos últimos anos e ele já não apoie uma saída da União Europeia (UE) e da zona do euro.
“Seu programa econômico ainda é muito cético em relação à UE, pelo menos em sua forma atual, e exige uma abordagem decididamente mais protecionista e nacionalista”, explica Barochez. Além disso, ele comenta que o custo do programa do partido de Le Pen é alto e “amplamente não financiado”, o que sugere riscos maiores à sustentabilidade da dívida pública francesa.
“A posição da França já é indiscutivelmente instável, dada sua elevada relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB). E, independentemente dos resultados da próxima eleição, é muito improvável que o próximo governo seja tão pró-negócios e pró-UE quanto o atual”, avalia o economista da Capital Economics.
Segundo Claus Vistesen e Melanie Denobo, economista-chefe e economista-sênior para zona do euro da Pantheon Macroeconomics, a dissolução do Parlamento francês foi um movimento de Macron para dar o cargo de primeiro-ministro ao RN, apostando numa eventual insatisfação popular que tire o partido de uma disputa real às eleições presidenciais em 2027. No entanto, Vistesen e Debono consideram o movimento arriscado, já que na União Europeia há ao menos um exemplo de governante de extrema direita com bom apoio popular: a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni.
“Os investidores ainda estão inclinados a vender primeiro e fazer perguntas depois, em resposta ao menor risco de Marine Le Pen e seu partido ganharem poder político na França. Isso é compreensível, pois Le Pen ainda está associada a ideias radicais, como a saída da França da UE e da zona do euro, bem como da OTAN. Mas acreditamos que um mecanismo de correção favorável ao mercado continua em vigor. Na medida em que o RN for um sucesso no governo, isso se dará exatamente porque optou por governar no mundo real e não em uma fantasia em que a França rompe todas as conexões com as principais instituições do pós-Segunda Guerra das quais é um membro fundador”, dizem os economistas da Pantheon.
Os riscos de um governo de extrema direita na França se estendem para o futuro, avalia Barochez, da Capital Economics. Se o RN for bem sucedido e conseguir apoio popular suficiente para vencer as eleições presidenciais francesas em 2027, um dos membros mais importantes da UE se tornaria uma posição adversária ao bloco e colocaria ainda mais em dúvida a capacidade da Europa competir com os Estados Unidos como a potência econômica mais dominante do mundo, diz.
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Fonte: Valor Econômico
