Por Gabriel Roca, Victor Rezende e Igor Sodré — De São Paulo
28/04/2022 05h04 Atualizado há 4 horas
Após uma longa sequência de deterioração para os principais ativos do mercado local, o ambiente global menos avesso para a tomada de risco contribuiu para um movimento de recuperação do Ibovespa, do real e de alívio nas taxas dos juros futuros. Sinais de que a China deve voltar a estimular sua economia, ao mesmo tempo em que, no cenário local, os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) vieram abaixo das expectativas de consenso do mercado, foram fatores que contribuíram para a recuperação dos ativos brasileiros.
A China registrou ontem seu menor número de casos de covid-19 em três semanas, e o presidente do país, Xi Jinping, falando ao Comitê Central para Assuntos Financeiros e Econômicos, ressaltou a importância da infraestrutura para o crescimento econômico, destacando setores como transporte, energia e conservação de água.
O noticiário deu força aos ativos de risco globais, que também vinham de um longo período negativo. Assim, o Ibovespa fechou em alta de 1,05%, aos 109.349,37 pontos, com a recuperação puxada pelas ações da Vale e de siderúrgicas, que acabaram devolvendo boa parte das perdas expressivas da semana. Os papéis da mineradora subiram 5,35%, enquanto as ações da Gerdau, CSN e Usiminas avançaram 6,01%, 4,58% e 1,11%, respectivamente.
No cenário local, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou que o IPCA-15 avançou 1,73% em abril, a maior variação mensal do indicador desde fevereiro de 2003 (2,19%) e a maior variação para um mês de abril desde 1995.
No entanto, o resultado ficou abaixo da mediana das 35 projeções de analistas de consultorias e instituições financeiras consultados pelo Valor Data, que estimavam alta de 1,82% em abril. Assim, a reação do mercado foi de queda nas taxas dos juros futuros, o que fez, por outro lado, o dólar exibir força na metade inicial do pregão de ontem.
“O mercado estava muito pessimista para o IPCA-15 e bastou o ‘número cheio’ um pouco melhor e os núcleos um pouco mais baixos que as expectativas para gerar alívio”, nota o gestor de renda fixa da Sicredi Asset, Cássio Andrade Xavier. Ele observa, porém, que algumas casas têm mantido as projeções para o IPCA cheio de abril, uma vez que a dinâmica de alguns preços continua bastante pressionada e cita como exemplo as passagens aéreas.
Xavier observa, adicionalmente, que o mercado optou por ver o lado mais positivo da história, em um dia no qual o contexto internacional também deu apoio aos ativos de risco em geral.
Já o economista-chefe da Versa Asset, Tarik Migliorini, nota que, apesar do IPCA-15 ter apresentado um resultado abaixo do consenso em termos absolutos, “ainda foi um número muito ruim”. Ele destaca que o indicador trouxe uma melhora marginal ao se analisá-lo qualitativamente, com algum alívio na média dos núcleos e nos preços de serviços, mas enfatiza que o cenário permanece desafiador. A Versa, no momento, trabalha com um IPCA de 7,5% neste ano e de 3,6% em 2023 e com uma Selic de 13,25% no fim do ciclo, algo esperado para junho.
A percepção de que os dados de inflação abaixo das estimativas de consenso pode levar o Banco Central a encerrar o ciclo de aperto monetário na reunião de maio deu força ao dólar na primeira metade da sessão. A moeda americana, contudo, perdeu ritmo pela tarde, pressionada por fortes fluxos de capital entrando no país.
Assim, no fim do dia, a moeda americana acabou negociada a R$ 4,9675, em queda de 0,45%. “Houve uma melhora externa e o dólar começou a perder força em relação a algumas moedas emergentes”, afirma Hideaki Ilha, operador de câmbio da Fair Corretora. No fim do dia, o dólar tinha leve queda de 0,04% ante o peso mexicano e de 0,27% em relação à lira turca, mas subia 0,25% no câmbio com o rand sul-africano.
Fonte: Valor Econômico
