A ata da última reunião do Federal Reserve (Fed, banco central americano), quando retomou o ciclo de afrouxamento monetário nos Estados Unidos, mostrou ontem que o colegiado ainda está preocupado com a inflação acima da meta. O documento reforçou que os membros seguem atentos aos preços elevados e revelou que parte dos diretores cogitou manter os juros inalterados na última reunião.
Segundo o documento, alguns dirigentes afirmaram que havia mérito em manter os juros inalterados na reunião de setembro ou que poderiam ter apoiado essa decisão. Esses membros observaram que o progresso em direção à meta de inflação havia estagnado e as expectativas de longo prazo poderiam aumentar caso o índice de preços demore para voltar ao nível de 2% ao ano.
Ainda assim, a maioria considerou que provavelmente seria apropriado flexibilizar ainda mais a política durante o restante deste ano. Alguns membros do comitê observaram que as condições financeiras sugeriam que a política monetária poderia não ser particularmente restritiva, o que eles julgaram justificar uma abordagem cautelosa nas próximas mudanças na política monetária.
Quase todos os participantes do comitê observaram que, com a redução dos juros em setembro, o comitê estaria bem posicionado para responder a potenciais desenvolvimentos econômicos. Todos os membros também reiteraram a postura dependente de dados do Fed.
A ata veio amplamente linha com declarações recentes de diretores do banco central americano, que têm ressaltado a inflação persistentemente elevada como um ponto de preocupação, embora isso não seja um impeditivo para cortes de juros no momento.
A ata dá a impressão de que o comitê poderia apoiar mais alguns cortes de juros por segurança”
Michel Feroli, economista-chefe do J.P. Morgan nos Estados Unidos, afirma que a ata destacou o receio do comitê com a inflação acima da meta. “Já sabíamos pelo gráfico de pontos que um participante não via necessidade de cortes de juros neste ano, e a ata sugere que essa pessoa pode ter tido companhia em sua abordagem cautelosa.”
Ainda assim, Feroli avalia que o tom predominante é de preocupação com a saúde do mercado de trabalho. Apesar do emprego permanecer equilibrado nos EUA, a discussão do comitê mencionou vários sinais de alerta, como a alta concentração do crescimento do emprego e o baixo dinamismo nas taxas de contratação e desligamento, que podem indicar uma desaceleração contínua no mercado de trabalho.
“A ata dá a impressão de que o comitê poderia apoiar mais alguns cortes por segurança, mas, na ausência de uma deterioração significativa do mercado de trabalho, não se comprometeria com um ciclo prolongado de afrouxamento profundo”, ele afirma.
Os economistas do Citi esperam que o mercado de trabalho continue enfraquecendo nos próximos meses, o que deve levar o banco central americano a seguir na trajetória de afrouxamento monetário pelas próximas quatro reuniões. “Com dados oficiais limitados ou indisponíveis devido à paralisação do governo, o caminho de menor resistência é o Fed cortar os juros em outubro”, eles dizem.
No pregão desta quarta-feira, o dólar estendeu os ganhos das últimas sessões, enquanto os rendimentos dos Treasuries oscilaram ao longo do dia. No fim da sessão, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente uma cesta de outras seis moedas fortes, tinha alta de 0,19%, aos 98,86 pontos. Os rendimentos dos Treasuries de 2 anos subiram para 3,591%, de 3,576% no fechamento anterior, e os rendimentos dos Treasuries de 10 anos recuaram para 4,121%, ante 4,131% na última sessão.2 de 2
O dia também foi marcado por um leilão de US$ 39 bilhões de Treasuries com vencimento em 10 anos, que teve uma demanda mais fraca do que a média. Os rendimentos desses títulos subiram após o resultado, mas devolveram o movimento ao longo da sessão.
No mercado de ações, as bolsas de Nova York terminaram o dia majoritariamente em alta, com o S&P 500 e o Nasdaq, mais uma vez, renovando seus recordes históricos de fechamento, graças ao impulso do setor de tecnologia. O índice Dow Jones fechou na estabilidade, aos 46.601,78 pontos, o S&P 500 subiu 0,58%, aos 6.753,72 pontos, e o Nasdaq avançou 1,12%, aos 23.043,378 pontos. Entre os setores, tecnologia (1,52%) liderou as altas, com destaque para as fabricantes de chips e semicondutores.
A BlackRock, que tem uma recomendação “overweight” (equivalente a compra) para ações americanas, afirma que sua abordagem favorável a risco é sustentada, no momento, pela percepção de que um mercado de trabalho mais fraco nos Estados Unidos estimula novos cortes de juros pelo Fed. “Os cortes de juros esperados para este ano e os investimentos contínuos em inteligência artificial sustentam nossa posição de longo prazo em ações dos Estados Unidos e no tema da inteligência artificial”, afirmam os estrategistas em nota.
Fonte: Valor Econômico
