Empresas listadas em Londres com valor superior a mais de US$ 100 bilhões anunciaram ou executaram planos de se mudar para Nova York nos últimos anos
Londres registrou o primeiro semestre mais lento em volume de IPOs desde 1997, um marco sombrio pontuado pela notícia de que o CEO da AstraZeneca quer transferir a listagem da empresa para os Estados Unidos.
Com a busca de empresas por mercados onde a liquidez é abundante – uma onda constante de fechamento de capital por companhias e poucas ofertas públicas iniciais para substituí-las –, cresce a pressão para reverter o lento, mas inexorável, encolhimento do histórico centro de negociação de Londres. Empresas listadas em Londres com valor superior a mais de US$ 100 bilhões anunciaram ou executaram planos de se mudar para Nova York nos últimos anos, mostram cálculos da Bloomberg.
O CEO da AstraZeneca, Pascal Soriot, quer transferir a listagem de ações da farmacêutica para os EUA, informou o Times nesta segunda-feira (2). A reportagem citou sua frustração com o regime regulatório do Reino Unido para medicamentos e a preocupação de que o setor de ciências da vida do país esteja ficando para trás em relação aos EUA e à China.
A saída da empresa britânica mais valiosa da bolsa de valores causaria fortes repercussões no setor financeiro e poderia estimular outras empresas a se juntarem ao fluxo de listagens que deixam a City, o que corrói a confiança.
Isso tornaria a tarefa de atrair novos IPOs ainda mais difícil. As empresas listadas em Londres arrecadaram menos de 200 milhões de euros (US$ 274 milhões) nos últimos seis meses, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. E o giro de ações, como a da AstraZeneca, é muito maior por meio de seus recibos depositários nos EUA do que em Londres.
Uma mudança da AstraZeneca aceleraria a temível tendência de empresas transferirem voluntariamente suas listagens para os EUA. A Wise é a mais recente do grupo, que revelou, no mês passado, a transferência de sua listagem principal para Nova York em busca de maior liquidez e novos investidores, seguindo os passos da Flutter Entertainment, da CRH e da Indivior.
Quando questionado sobre a possibilidade de a AstraZeneca mudar de listagem, o porta-voz do primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, Tom Wells, disse que não comentaria sobre “decisões comerciais da empresa”. Um representante da Bolsa de Londres não quis comentar.
Potenciais ofertas de aquisição
Igualmente preocupante é a tendência de empresas listadas no Reino Unido receberem ofertas de aquisição este ano, o que pode potencialmente retirá-las da bolsa. A Spectris, a Deliveroo e a Assura estão entre as 48 transações pendentes ou concluídas desde 1º de janeiro, que visam companhias com ações negociadas em Londres, segundo dados compilados pela Bloomberg.
“A escala de fusões e aquisições e a falta de IPOs resultam em uma redução substancial no número de empresas em crescimento listadas no Reino Unido”, disse em nota Charles Hall, chefe de pesquisa da Peel Hunt. “Observamos saídas contínuas de capital do Reino Unido, que precisam ser abordadas por meio da reforma do sistema previdenciário, do ISA [contas de poupança isenta de impostos] e do imposto de selo”.
Reabrindo as torneiras de IPOs
Os negociadores afirmam que o segundo semestre poderá registrar mais alguns IPOs no mercado, o que potencialmente abre caminho para uma recuperação mais forte a partir de 2026.
“Esperamos uma recuperação hesitante no quarto trimestre, com diversas transações não sendo concluídas antes das férias de verão [no hemisfério norte]”, disse Tom Bacon, sócio da equipe de fusões e aquisições e finanças corporativas da BCLP. “Esta não será a reabertura forte que todos esperam, mas pode começar a ganhar algum momentum.”
A empresa de serviços profissionais MHA representou a maior oferta até agora em 2025, ao captar 98 milhões de euros na bolsa júnior AIM de Londres. A Cobalt Holdings, apoiada pela Glencore, cancelou o que poderia ter sido o maior IPO de Londres em dois anos, e a varejista de fast-fashion Shein transferiu seus preparativos para o IPO de Londres para Hong Kong, disseram pessoas familiarizadas com o assunto.
Algumas empresas que supostamente consideram um IPO em Londres este ano são a italiana NewPrinces, a empresa de pagamentos Ebury, apoiada pelo Banco Santander, e a mineradora de ouro uzbeque Navoi Mining & Metallurgical.
Fonte: Valor Econômico