Bilionário filantropo enfatiza investimento em detecção e troca de informações
Por Hilton Hida — De São Paulo
27/07/2022 05h14 Atualizado há 6 horas
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Gates: “Não podemos deixar que o mundo esqueça todo o horror da pandemia de covid” — Foto: Markus Schreiber/AP
Bill Gates comenta, na introdução de seu mais recente livro, que não sabia como lidar com as mirabolantes teorias da conspiração que surgiram durante a pandemia envolvendo seu nome. Ignorá-las seria permitir que continuassem sendo disseminadas, mas adiantaria dizer: “Não estou interessado em monitorar seus passos — para falar a verdade, pouco me importa para onde você vai —, e não há rastreador de movimentos em nenhuma vacina”?
É improvável que quem acredita nas histórias lunáticas se dê ao trabalho de ler “Como evitar a próxima pandemia”, o que é uma pena. O recém-lançado livro do cofundador da Microsoft talvez não seja tão iluminador para muitos que acompanharam o noticiário dos últimos dois anos e meio e acreditam na ciência, mas é um compêndio de dados e ideias sobre o enfrentamento de uma catástrofe como a covid-19 com a autoridade de alguém que se dedica há décadas à saúde, e particularmente a esforços de combate a doenças contagiosas.
Semana passada, Gates anunciou uma nova doação de US$ 20 bilhões para que sua fundação, que tem a melhora da saúde em países pobres como prioridade, aumente os gastos anuais para US$ 9 bilhões até 2026. Ela os havia aumentado dos anteriores US$ 6 bilhões para US$ 8 bilhões durante a pandemia.
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Capa de Como evitar a próxima pandemia (Companhia das Letras), de Bill Gates — Foto: Divulgação
Gates diz que doenças infecciosas são uma obsessão para ele desde 1997. No livro, ele lista uma série de iniciativas que acredita necessárias para deixar o mundo melhor preparado para o surgimento de algum vírus com potencial pandêmico. Na essência, elas giram em torno de investimentos na detecção, troca de informações e coordenação de medidas de combate. Um bom sistema de atendimento básico, enfatiza, é capaz de identificar surtos com muito mais rapidez.
Ele acredita que este é o momento para se promover tais ideias. “Não podemos deixar que o mundo esqueça todo o horror da pandemia de covid”, escreve. “E fazer todo o possível para manter a pandemia no centro das atenções […], de modo que possamos romper o ciclo de pânico e negligência que a torna o assunto mais importante por algum tempo, para em seguida esquecermos tudo e retomarmos nossa existência cotidiana.”
Ele chega até a dar um nome sugestivo para uma entidade que, em sua visão, poderia coordenar os esforços globais para prevenção de surtos: Germ, sigla em inglês para Mobilização e Resposta Epidemiológica Global. Mais: estima que um grupo desses poderia funcionar com 3 mil pessoas e custar US$ 1 bilhão por ano, “uma pechincha” para uma apólice de seguro contra uma tragédia que poderia custar trilhões. Com uma equipe especializada em epidemiologia, genética, desenvolvimento de medicamentos e vacinas, modelagem computacional e até diplomacia, o grupo se encarregaria de avaliar constantemente a capacidade de resposta dos países e sugerir aprimoramentos.
Gates não ignora o fato de que uma estrutura dessas, a ser administrada pela Organização Mundial de Saúde, não teria como se sobrepor à soberania de cada país, e não tem alguma resposta melhor para a dependência de governos além de dizer que “podemos eleger líderes que levem a sério a ameaça pandêmica e, quando chegar a hora, tomem decisões adequadas e baseadas na ciência”.
Ele também não oferece soluções claras para o problema da desigualdade entre os países, exposta na distribuição das vacinas. Como fundador de uma das mais bem-sucedidas empresas de tecnologia da história, é compreensivelmente um defensor do setor privado e das patentes, que acredita fundamentais para as inovações, mas reconhece que o mercado não é capaz de resolver todos os problemas.
Em sua opinião, uma distribuição melhor exigiria preços escalonados por países (algo que farmacêuticas já fazem) e parcerias que permitam a fabricação de vacinas por empresas licenciadas, não a mera quebra da patente. Até porque, argumenta, uma vacina não é como um medicamento tradicional. Sua produção inclui elementos mais instáveis (porque os ingredientes ativos são feitos a partir de elementos vivos, portanto não necessariamente sempre iguais) e pequenas alterações no processo podem demandar toda uma revisão regulatória, não colaborando em nada para acelerar a entrega dos imunizantes.
Mas Gates está otimista de que futuras vacinas podem ser desenvolvidas mais rapidamente. Parte disso tem a ver com tecnologias como a do RNA mensageiro, que está por trás dos imunizantes da Pfizer/BioNTech e da Moderna e pode ser expandida para outros fins. De fato, Gates acredita que há oportunidade para se desenvolver uma vacina contra todos os coronavírus e também a gripe.
Convencer os céticos da vacina será outra história. Gates comenta em certo ponto que é fundamental que a estrutura de detecção de novos vírus inclua testes simples, fáceis de usar. Algo como os testes de gravidez, uma tecnologia chamada imunoensaio de fluxo lateral — “assim batizada, suponho, porque ‘teste que usa líquido fluindo sobre uma superfície’ era fácil demais de entender”. Talvez ajude tornar a mensagem fácil demais de entender a partir de agora.
Como evitar a próxima pandemia Bill Gates. Trad.: Pedro Maia Soares e Claudio Marcondes. Companhia das Letras, 344 págs., R$ 74,90
Fonte: Valor Econômico
