Por Gabriel Roca, Matheus Prado, Arthur Cagliari e Augusto Decker — De São Paulo
25/05/2023 05h03 Atualizado há uma hora
A aprovação do arcabouço fiscal na Câmara dos Deputados deu espaço para que os mercados de câmbio e juros ampliassem movimento de retirada de prêmios de risco na sessão de ontem. Já o Ibovespa, mais sensível a dinâmicas externas durante o dia, recuou.
De um lado, na China, os indicadores econômicos seguem surpreendendo negativamente. E do outro, nos EUA, persistem dúvidas sobre por quanto tempo o Federal Reserve (Fed) manterá os juros na casa de 5%, restringindo o crédito global, e em torno das negociações de extensão do teto da dívida.
No fim do dia, o dólar teve queda de 0,36%, a R$ 4,9534, enquanto a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 passou de 13,295% para 13,265%; e o DI para janeiro de 2027 caiu de 11,195% para 11,14%. O Ibovespa, por outro lado, cedeu 1,03%, aos 108.800 pontos, pressionado pelo recuo de 2,27% das ações ordinárias da Vale.
Com o apoio de 372 deputados, o texto-base do novo marco fiscal foi aprovado na Câmara na noite de terça-feira, o que foi bem recebido pelo mercado. Agentes avaliaram como mais dura a proposta aprovada pelos deputados, embora economistas alertem para a continuidade de manobras para gastos maiores no curto prazo.
Para o economista-chefe do Banco Pine, Cristiano Oliveira, a melhora do cenário local foi uma resposta não só à leitura de que o texto da proposta saiu mais ajustado do que entrou, mas também ao fato de preparar a Câmara para dar continuidade à pauta econômica.
“A consequência imediata disso é que se abre espaço para a discussão da reforma tributária”, diz. “Se o investidor perceber que finalmente teremos uma reforma tributária, poderemos ter uma mudança na avaliação do risco Brasil, da moeda e da taxa de juros de longo prazo.” Oliveira chama atenção, ainda, para o movimento de menor volatilidade da moeda brasileira recentemente. “Isso pode explicar também por que ruídos domésticos têm afetado menos a nossa taxa de câmbio”, afirma.
Já a economista-chefe da Galapagos Capital, Tatiana Pinheiro, concorda com a avaliação do Banco Central de que a aprovação da matéria não possui uma relação mecânica com a política monetária. É preciso, diz, esperar que os agentes assimilem a aprovação da proposta final e passem a revisar suas projeções fiscais, o que também demandaria que o governo consiga cumprir suas metas de arrecadação previstas na proposta.
“Se você observar, a desancoragem das expectativas já havia começado no ano passado, com a perspectiva de uma política fiscal mais frouxa. Se o arcabouço fiscal for interpretado como crível, isso deve ajudar as expectativas de inflação a melhorarem também”, diz.
Apesar disso, a Galapagos mantém seu cenário de início do ciclo de cortes de juros no mês de setembro. Segundo a economista, a inflação de alimentos deve perder força com fatores positivos para a safra; a deflação dos preços no atacado deve ser repassada para o varejo em alguma magnitude; a queda nos combustíveis deve manter o índice cheio em níveis mais baixos; e os efeitos defasados da política monetária devem continuar, ainda que lentamente, provocando uma queda na inflação de serviços.
“ Em setembro, acredito que já haveria tempo para uma maturação de todos esses fatores, o que deveria levar a uma inflação mais baixa e com núcleos comportados. Ao mesmo tempo, em setembro, o ano de 2025 começa a fazer parte do horizonte relevante do Banco Central, o que também deve ajudar no início dos cortes”, afirma.
A despeito da performance positiva dos demais mercados, a bolsa operou no vermelho desde os primeiros negócios do dia, pressionada pelo mau humor do investidor internacional. Agentes seguem preocupados com o impasse entre republicanos e democratas sobre a revisão do teto da dívida americana, com o ciclo de aperto do Fed e com a performance das commodities metálicas na China.
“Este impasse em torno do teto da dívida dos EUA parece restrito ao curto prazo, mas deixa o mercado mais cauteloso. O Fed também indica estar próximo do fim do ciclo de aperto, o que reduz as possibilidades de uma recessão mais forte”, diz Priscila Araújo, gestora de renda variável da O3 Capital. “A China, por outro lado, está patinando em termos industriais e parece caminhar para um cenário de médio prazo desafiador”, diz.
A executiva espera, então, que as ações ligadas à economia local sigam performando melhor que as exportadoras à frente, reduzindo o “gap” que foi criado nos últimos anos, quando os papéis de commodities se destacaram. “Se o cenário global ficar estável, a bolsa tem espaço para andar”, afirma. “Acredito que estamos no início de um ciclo positivo, já que o ‘valuation’ dos ativos está descontado e tivemos a resolução de incertezas.”
Entre as maiores oscilações do dia, os frigoríficos estenderam perdas em meio ao surgimento de casos suspeitos de gripe aviária no Brasil. BRF ON recuou 5,55%, JBS ON caiu 4,89% e Minerva ON cedeu 4,23%. Petrobras ON e PN avançaram 1,09% e 1,52%, respectivamente, em linha com os ganhos do petróleo Brent em Londres.
Fonte: Valor Econômico


