No campo mais otimista com o cenário de queda da Selic e, portanto, das taxas futuras está a família de fundos Janeiro, da Itaú Asset Management, comandada pelo ex-diretor do Banco Central Bruno Serra Fernandes.
Na justificativa para as posições otimistas em renda fixa, que se alternam entre alocações direcionais em juros nominais, NTN-Bs de longo prazo e venda de inflação implícita, está um cenário de inflação bastante benigno.
“A postura firme do BC gerou resultados e vem consolidando um cenário de convergência da inflação para a meta”, observa a Itaú Janeiro, que projeta uma inflação na meta ao longo do primeiro semestre deste ano. “Esperamos um IPCA de 3,2% em março de 2026, permanecendo próximo da meta ao longo do terceiro trimestre. No fim do ano, pode haver alguma elevação, mas vemos a inflação encerrando 2026 ao redor de 3,6%.”
Além disso, na avaliação da equipe de Bruno Serra, embora o ruído eleitoral adicione volatilidade ao cenário, a tese central não se altera. “Consideramos a ‘underperformance’ [de dezembro] exagerada e acreditamos que o real deve voltar a se apreciar no primeiro trimestre, com dólar global fraco, carrego elevado e um cenário eleitoral que permanece disputado, com a eleição ainda distante”, diz.
E, nesse sentido, a Itaú Janeiro vê como cenário mais provável um corte de 0,5 ponto na Selic em março. “Por fim, acreditamos que o ciclo de cortes será de cerca de 4 pontos percentuais ao longo do ano. Encerrar o ano com a Selic em 11% e juros reais de 7,5% seria consistente com uma postura bastante cautelosa na condução da política monetária, considerando inflação de 3,6%, expectativas ainda desancoradas ao redor de 3,5%, PIB rodando a 1,5% e desemprego subindo moderadamente.”
Há, contudo, quem adote um cenário mais conservador, como a Occam, que, ao longo de dezembro, reduziu as posições aplicadas e tem mantido um risco baixo no portfólio, conforme aponta o sócio e gestor de renda fixa da casa, Pedro Dreux, no “call” realizado na semana passada.
“O grande destaque em dezembro fica por conta do ciclo eleitoral, que foi antecipado. A decisão do [ex-presidente Jair] Bolsonaro de indicar o filho acabou surpreendendo a todos. Existia uma crença grande no nome do [governador de São Paulo] Tarcísio. Acho que o mercado se ajustou a essa nova realidade, que, depois, ganhou força conforme pesquisas foram saindo e mostrando a força do Flávio Bolsonaro. Isso levou o mercado a uma reprecificação forte. O Brasil foi o destaque negativo e isso impactou também o mercado de juros, que teve uma mudança de volatilidade muito grande.”
Na visão de Dreux, a mudança no risco eleitoral “complica um pouco o cenário”. “Daqui para frente, a luta do BC vai ser um pouco mais dura.”
Isso porque, segundo o gestor, pode ser difícil observar uma convergência adicional das expectativas inflacionárias rumo à meta de 3% em um cenário onde o câmbio “ganhou uma cara um pouco diferente”; a atividade econômica ainda mostra um mercado de trabalho apertado; e há algumas evidências de reaceleração do crédito. “E ainda tem a questão da perspectiva de estímulos fiscais em um ano eleitoral, onde a eleição parece ser bastante competitiva…”
Assim, com um mercado que agora precifica em torno de 2,5 pontos de cortes, Dreux avalia ser um número “considerável”. “Apesar de termos um viés aplicador, o quadro é desafiador e o preço não facilita muito a decisão”, diz. “Com essa precificação na curva, é desafiador ter ganhos de capital adicionais. Não estamos com muito risco, achando que a volatilidade pode ficar presente.”
Veja, abaixo, as posições de outras gestoras de recursos reveladas em cartas e em “calls” ao longo da semana:
Kinea Investimentos
- Com alta do dólar, ciclo de 4,5 pontos do modelo do BC pode ser menor, mas não significa que será zero; pode cortar menos, mas ainda vai cortar;
- Ainda existe oportunidade, mas estamos pequenos; momentos de estresse são os principais para adicionar [exposição];
- Juros no Brasil ainda estão muito fora de preço; mesmo para o nosso padrão histórico, que nos últimos anos não foi dos melhores na gestão de dívida pública, juro real de 11% é uma anomalia.
Ibiuna Investimentos
- Corte de juros no Brasil parece uma aposta assimétrica: baixa chance de que os juros voltem a subir, alguma chance de que fiquem parados por mais tempo e ganhos pronunciados em caso de uma fraqueza mais rápida da economia;
- Diante do ciclo eleitoral, o volume de estímulos fiscais deve, inclusive, subir, o que reduz o conforto do BC em avançar com um ciclo mais agressivo de quedas de juros até que surjam evidências de que a ociosidade da economia poderá ancorar expectativas de inflação de médio prazo;
- Vemos o início de um ciclo gradual de cortes em março, mas nosso viés é de que o Banco Central conduzirá o ciclo com cautela e sem pressa, limitando o espaço para cortes rápidos e profundos da taxa Selic este ano;
- Em renda fixa, posições aplicadas em juros nominais e trades de valor relativo nas curvas reais e implícitas.
Legacy Capital
- A atividade está desacelerando de forma muito gradual e a inflação está se aproximando da meta, o que deve permitir ao BC começar os cortes de juros em março;
- O mercado vem apreçando cerca de 3 pontos em cortes de juros, mas precisamos ver nos dados uma desaceleração maior para o mercado conseguir apreçar ciclos de 4 a 5 pontos;
- Estamos com posições aplicadas em juros menores neste momento dada a precificação e a perspectiva de início do ciclo somente em março;
- Tentamos ver se a volatilidade nos permite entrar em pontos melhores.
Vinland Capital
- Posições aplicadas em juros no Brasil foram reduzidas de forma significativa em dezembro;
- Estamos esperando bons pontos de entrada para voltar a participar do “trade” do ciclo de cortes no Brasil;
- Entendemos que ele acontecerá de qualquer forma, independentemente de começar em janeiro ou março; assimetria é favorável;
- Ponto de entrada passou a ser um fator sensível no processo de decisão, uma vez que já vimos o ciclo precificar de 2 até quase 3,5 pontos [de corte] e hoje estamos ao redor de 2,5 pontos. Operar o orçamento do ciclo de forma tática tem sido a postura adotada pelo fundo.
Santander Asset Management
- Seguimos projetando a manutenção da Selic na próxima reunião do BC, com o primeiro corte nos juros ocorrendo no encontro de março;
- Diante da reprecificação das curvas de juros ocorrida ao final de 2025 e da continuidade da evolução favorável da inflação doméstica, entendemos que faz sentido manter posições aplicadas em juros locais.
Fonte: Valor Econômico