Por Victor Rezende, Eduardo Magossi, Gabriel Caldeira e Augusto Decker — De São Paulo
14/03/2023 05h00 Atualizado há 10 minutos
O colapso do Silicon Valley Bank (SVB) e as dúvidas sobre a extensão dos problemas envolvendo bancos regionais americanos colocaram de volta na mesa os riscos de uma recessão mais dura nos EUA. Com isso, investidores não só abandonaram a ideia de que o banco central do país poderia voltar a endurecer o aperto monetário como muitos passaram a acreditar que o ciclo de alta de juros chegou ao fim. Para alguns, existe chance até mesmo de um anúncio de corte nas taxas já na próxima semana, sob efeito da crise bancária. No próximo dia 22, o comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed) se reúne para definir a meta para as taxas de juros nos EUA.
No pregão de ontem, marcado por muita volatilidade, o mercado de Treasuries – títulos do Tesouro americano – sucumbiu à expectativa de que o Fed não conseguirá manter os juros altos por muito tempo e passou a embutir nos preços um corte no fim deste ano.
A estratégia traçada pelo próprio Fed na semana passada, de elevar os juros a um nível superior a 5,5%, parece ter ficado para trás. O rendimento da T-note de dois anos sofreu um forte tombo e encerrou o pregão cotado a 3,980%, na maior queda diária desde 1987. Para se ter ideia da magnitude da reprecificação, na semana passada a taxa de dois anos no país chegou a ficar acima de 5%, refletindo a percepção de que o Fed manteria os juros parados por um período longo para esfriar a atividade.
Se, até sexta-feira, boa parte dos agentes mostrava divisão entre uma alta de 0,25 ponto ou um aumento de 0,5 ponto nos juros americanos na semana que vem, agora cada vez mais instituições financeiras têm migrado para a possibilidade de manutenção das taxas na próxima decisão de política monetária do Fed. Esse cenário é referendado pelos contratos futuros dos Fed funds, compilados pelo CME Group, que no fim da tarde de ontem indicavam 62% de chance de uma alta de 0,25 ponto e 38% de probabilidade de manutenção dos juros no intervalo atual, de 4,5% a 4,75% anuais.
Para alguns, há chance de o Fed anunciar um corte nas taxas já na próxima semana, sob efeito da crise bancária
O economista-chefe para EUA do banco britânico NatWest, Kevin Cummins, acredita que, na próxima semana, o Fed “dará mais ênfase aos riscos à estabilidade financeira do que ao resultado da inflação de fevereiro”. Ele, assim, acredita que o ciclo de aperto monetário do Fed chegou ao fim.
“O nervosismo recente no mercado financeiro introduziu uma incerteza significativa e, agora, acreditamos que o Fed fará uma pausa na reunião da próxima semana (ou seja, sem nenhuma mudança nos juros)”, afirma Cummins, em relatório enviado a clientes. Ele, além disso, não descarta que, a depender das reações do mercado e de uma eventual desaceleração mais forte da economia americana, que o Fed já comece a reduzir as taxas de juros.
Embora parte dos agentes mantenha alguma cautela em relação às expectativas para o Fed, há quem espere, até mesmo, que o banco central americano comece a reduzir os juros na próxima semana. É o que apontam os economistas do Nomura, para quem o Fed também irá encerrar o processo de aperto quantitativo (QT), que consiste na redução do balanço de ativos da instituição por meio de maturação ou venda dos títulos.
Em nota enviada a clientes no fim da tarde de ontem, o Nomura, que antes esperava uma alta de 0,5 ponto nos juros, revela que passou a esperar por uma redução de 0,25 ponto na semana que vem, diante de riscos à estabilidade financeira.
“Embora pareça improvável que um corte de 0,25 ponto nas taxas funcione como uma panaceia para as instituições financeiras, se o Fed mostrar, no gráfico de pontos, que espera cortes contínuos nos juros, os mercados poderão rapidamente precificar novos cortes nas taxas”, dizem os economistas do Nomura.
O banco também enxerga a possibilidade de o Fed anunciar a criação de um novo mecanismo de empréstimos a instituições financeiras. No domingo à noite, o banco central americano dispôs ao setor uma linha de empréstimos emergenciais para cobrir perdas e garantir o pagamento a clientes.
O Nomura, porém, é uma exceção, ao se ter em vista que boa parte dos bancos ainda espera algum aumento nos juros, de acordo com as sinalizações dadas pelo próprio Fed na semana passada, antes de os problemas com bancos regionais eclodirem. Enquanto NatWest, Barclays e Goldman Sachs estão na lista dos que esperam que o Fed mantenha o juro parado na próxima semana, Bank of America, Deutsche Bank, J.P. Morgan, Morgan Stanley e UBS são algumas das instituições que projetam um aumento de 0,25 ponto nas taxas.
Na medida em que o mercado reprecificou de forma agressiva o cenário para os juros nos EUA, movimentos mais contidos foram vistos em outros mercados na sessão de ontem. O dólar anotou depreciação relevante diante de outras moedas fortes, como o euro e o iene, e, em Wall Street, os principais indicadores acionários registraram queda tímida na sessão. O índice Dow Jones caiu 0,28% e o S&P 500 recuou 0,15%. Já o índice eletrônico Nasdaq subiu 0,45%.
A expectativa de juros mais baixos no longo prazo conseguiu, assim, minimizar potenciais efeitos negativos de uma preocupação maior com o setor bancário nos EUA. Embora a queda mais acentuada nos juros dos Treasuries tenha sido nas taxas de curto prazo, rendimentos mais longos registraram recuo expressivo. Ontem, o retorno da T-note de dez anos caiu 0,128 ponto, para 3,577%, no menor nível desde 3 de fevereiro.
História diferente foi vista do outro lado do Atlântico, onde as bolsas europeias fecharam em queda firme. O índice pan-europeu Stoxx 600 fechou em queda de 2,42%, puxado principalmente por ações de bancos. As preocupações com o sistema financeiro, inclusive, aumentam a expectativa pela decisão do Banco Central Europeu (BCE), na próxima quinta-feira, já que também os rendimentos dos bônus europeus caíram com força. A taxa do Bund alemão de dois anos, inclusive, recuou a 2,685%, em uma queda de 0,4 ponto percentual, a mais intensa da história.
Na tentativa de passar tranquilidade à população, o presidente dos EUA, Joe Biden, afirmou que os contribuintes americanos não sofrerão perdas financeiras devido à quebra do SVB e do Signature Bank e que os depósitos “estarão garantidos se e quando precisarem”. Biden, porém, disse que os investidores do SVB e do Signature Bank não serão protegidos pelas ações tomadas pelo governo e pelo Fed. “Eles sabidamente tomaram um risco e, quando o risco não é recompensado, investidores perdem dinheiro. É assim que o mercado funciona.”
Sem novidades relevantes no cenário doméstico, os ativos brasileiros acompanharam o humor externo e anotaram perdas. O dólar encerrou o dia cotado a R$ 5,2683 no mercado à vista, em alta de 1,16%, e o Ibovespa fechou em queda de 0,48%, aos 103.121 pontos, ao ser afetado negativamente pelas ações de bancos. Os papéis preferenciais do Itaú caíram 1,20%; os do Bradesco recuaram 1,11%; e as units do Santander tiveram baixa de 1,05%.
“Não consigo ver muito reflexo aqui no Brasil do que está acontecendo no exterior”, afirma Marcelo Ornelas, gestor de renda variável da Kínitro Capital. “São mercados diferentes. E os bancos daqui, por estarem acostumados com a volatilidade nos juros, em geral fazem bem a gestão de descasamento do ‘duration’”, afirma.
Ornelas diz acreditar que, diferentemente de 2008, o problema do SVB “parece algo bem localizado, em bancos mais frágeis de gestão de risco e carteira”. “A princípio, não vemos isso se espalhando muito”, aponta.
Márcio Prado, sócio da Vinland, destacou a diferença da estrutura bancária americana para a brasileira. “No Brasil, é muito mais concentrado. Três grandes bancos privados e dois grandes estatais concentram boa parte dos ativos e dos clientes do sistema. Por conta disso, temos menos bancos regionais como nos EUA, e isso reduz a possibilidade de acontecer algo parecido no Brasil no curto prazo. O sistema é concentrado, robusto e de mais fácil supervisão pelas autoridades”, diz. (Colaboraram Arthur Cagliari, Igor Sodré e Daniel Gateno)
Fonte: Valor Econômico



