O ouro voltou a renovar recordes nesta quarta-feira, 21, e já alimenta projeções de preços acima de US$ 7.000 por onça nos próximos anos. A marca entrou no radar de investidores após o metal ultrapassar US$ 4.800, impulsionado pela escalada das tensões geopolíticas envolvendo os Estados Unidos e a Otan, além do enfraquecimento do dólar e da expectativa de juros mais baixos.
Julia Du, estrategista sênior de commodities do ICBC Standard Bank, afirmou à CNBC que vê espaço para o ouro alcançar até US$ 7.150, diante da combinação de juros reais em queda, incerteza geopolítica persistente e demanda estrutural por proteção.
Na mesma linha, Frank Holmes, CEO da gestora U.S. Global Investors, disse ao MarketWatch que o metal pode chegar a US$ 7.000 até o fim do segundo mandato do presidente Donald Trump, em janeiro de 2029.
Novo recorde do ouro
O movimento ganhou força após novas declarações de Trump sobre a Groenlândia. No fim de semana, o presidente dos EUA anunciou a intenção de impor tarifas a países europeus e intensificou a pressão sobre aliados da Otan em relação ao controle da ilha. Na terça-feira, afirmou que “não há volta” em seu objetivo de assumir a Groenlândia, embora tenha dito depois que os Estados Unidos e a aliança “vão encontrar uma solução que deixe todos muito satisfeitos”.
Nesse contexto, o ouro à vista avançou 2,6%, para US$ 4.885,11 por onça às 6h33 (GMT), depois de atingir US$ 4.887,82 durante a sessão. Já os contratos futuros de ouro nos EUA, com vencimento em fevereiro, subiram 2,6%, para US$ 4.888,20.
“Trata-se de uma perda de confiança nos Estados Unidos causada pelas ações de Trump, tanto nas tarifas contra a Europa quanto na tentativa de ampliar a coerção para assumir a Groenlândia. A alta do ouro reflete o temor em relação às tensões geopolíticas globais”, afirmou Kyle Rodda, analista sênior de mercados da Capital.com.
Do lado europeu, o presidente da França, Emmanuel Macron, declarou no Fórum Econômico Mundial, em Davos, que a Europa “não cederá a intimidações”, em referência direta às ameaças tarifárias feitas por Washington.
Dólar fraco e juros no radar
Além da geopolítica, fatores macroeconômicos têm sustentado o rali do metal. O índice do dólar (DXY) operava próximo de uma mínima de um mês, após as ameaças da Casa Branca desencadearem uma liquidação generalizada de ativos americanos, incluindo ações de Wall Street e títulos do Tesouro. A desvalorização do dólar torna o ouro mais barato para compradores internacionais.
Para Nicholas Frappell, diretor global de mercados institucionais da ABC Refinery, o patamar acima de US$ 4.800 reforça a percepção de que investidores evitam vender ouro antes da marca simbólica de US$ 5.000 por onça. Em entrevista à Reuters, ele apontou uma combinação de endividamento elevado, dólar mais fraco e incerteza geopolítica como fatores centrais do movimento.
O ouro, tradicional reserva de valor em períodos de instabilidade, acumulou alta de 64% em 2025 e já avançou cerca de 10% desde o início deste ano. O desempenho também é sustentado pela expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos. O mercado precifica duas reduções de 0,25 pontos percentuais a partir de meados de 2026, o que reduz o custo de oportunidade de manter um ativo que não paga juros.
Compras de bancos centrais sustentam cenário
A visão positiva também é compartilhada por grandes instituições financeiras. O Goldman Sachs reiterou sua aposta no ouro como sua principal convicção entre as commodities e projeta preço de US$ 4.900 até o fim do ano. O banco estima que bancos centrais devem comprar cerca de 80 toneladas por mês em 2026, mantendo o ritmo observado após 2022, quando o congelamento das reservas da Rússia reforçou o apelo do metal.
Apesar do rali histórico, o ouro ainda tem participação limitada nos portfólios americanos. Segundo análise do Goldman Sachs, ETFs de ouro representam apenas 0,17% dos ativos financeiros privados nos EUA. O banco estima que cada aumento de 0,01 ponto percentual nessa participação poderia elevar os preços em cerca de 1,4%.
Enquanto isso, outros metais preciosos tiveram desempenho mais contido. A prata recuou 0,5%, para US$ 95,03 por onça, após atingir recorde na véspera. A platina caiu 0,5%, para US$ 2.473,80, e o paládio avançou 0,1%, para US$ 1.881,57.
Fonte: Exame


