Por Gabriel Roca e Victor Rezende, Valor — São Paulo
11/08/2023 14h31 Atualizado há 2 dias
A abertura positiva do IPCA do mês de julho, que exibiu uma desaceleração importante nos núcleos de inflação, na inflação de serviços e nos serviços subjacentes, dá força adicional à perspectiva de economistas e de participantes do mercado de que o Banco Central venha a acelerar o ritmo dos cortes de juros nos próximos meses.
No mercado de opções digitais, a probabilidade de um corte de 0,75 ponto percentual no juro básico em setembro subiu de 17% para 21%, enquanto a chance de uma redução de 0,5 p.p. na Selic caiu de 78% para 74%. Já em relação à reunião de novembro do Copom, o mercado embutida nos preços 50% de chance de um corte de 0,75 p.p. no juro básico.
A desaceleração da inflação de serviços subjacentes, em particular, chamou a atenção dos agentes, ao passar de algo em torno de 0,7% no IPCA de junho para 0,2% na leitura de julho. Para Mirella Hirakawa, economista sênior da AZ Quest, o movimento desse componente, que é o mais importante para a condução da política monetária pelo Banco Central, foi “significativo”.
“Apesar do headline [IPCA cheio] ter vindo em 0,12%, a composição é melhor do que as nossas expectativas e muito melhor do que as expectativas do consenso do mercado. Isso deve alimentar os argumentos para a aceleração dos cortes [de juros] do Banco Central, possivelmente já na próxima reunião, para 0,75 p.p. Nosso cenário-base ainda é um corte de 0,50 p.p, mas estamos em processo de revisão, que deve ser concluído nos próximos dias”, afirma Hirakawa.
A economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, avalia o dado de julho como extremamente benigno, à medida que a alta nos bens industriais foi um reflexo do fim dos descontos nos automóveis após o programa de incentivos do governo.
“Esse dado de serviços subjacentes foi muito importante. Mantemos a nossa projeção de mais duas reduções de 0,5 p.p. e uma de 0,75 p.p. no fim do ano [o que levaria a Selic a 11,5%], mas está ganhando força uma antecipação desse debate do corte de 0,75 p.p na reunião de novembro. Acho que esse número reforça bastante o cenário porque eleva a probabilidade de termos um núcleo de inflação rodando ao redor de 3% muito em breve”, afirma Damico.
Há, porém, uma ala no mercado que ainda vê o Banco Central mantendo o ritmo de 0,5 p.p. de redução nos juros, ao menos no curto prazo. É o caso dos economistas do Itaú Unibanco, que, em revisão de cenário publicada nesta sexta-feira, continuam a esperar que a Selic encerre o ano em 11,75%. “No entanto, ainda acreditamos que não se pode descartar uma flexibilização mais rápida, principalmente no final do ano”, diz a equipe do Itaú, liderada pelo ex-diretor do Banco Central Mario Mesquita.
Além disso, o Itaú nota que o comitê também indicou que espera manter a política monetária no terreno contracionista ao longo do ciclo, “sustentando a visão de que o nível terminal de juros pode ser abaixo da fronteira dos duplos dígitos, mas não muito”. Esse cenário, para os economistas do banco, é consistente com a projeção do Itaú de Selic a 9,50% no fim de 2024.
Da mesma forma, o economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, aponta, em nota enviada a clientes, que, apesar da leitura melhor da inflação de serviços, “não vemos o movimento como ‘substancial’ o suficiente neste momento para justificar por si só uma aceleração nos cortes de juros em setembro”. Contudo, embora a expectativa do banco britânico continue a ser de reduções de 0,5 p.p. na Selic “no futuro previsível”, Secemski não descarta a possibilidade de cortes maiores, “à medida que o horizonte relevante para a política monetária se desloca gradualmente em direção a 2025”.
Fonte: Valor Econômico


