O mercado brasileiro começa a se preparar para receber investimentos em “data centers” que poderão somar ao menos R$ 60 bilhões dentro dos próximos quatro anos, com o aumento da necessidade de infraestrutura digital no país. A projeção mais otimista aponta para até R$ 100 bilhões de desembolsos ao longo desse período. Ainda com poucos “players” que atuam por aqui, a expectativa de especialistas é de que o setor atraia gigantes globais, muitos deles procurando novas regiões.
Os projetos até o fim da década chegam a aproximadamente 2 gigawatts no Brasil, mas nem toda essa capacidade deve ser entregue, dizem interlocutores. O cálculo é que para cada 1 gigawatt de capacidade, o investimento necessário seja na casa de US$ 10 bilhões a US$ 12 bilhões. Hoje o país possui, aproximadamente, 800 megawatts de capacidade.
O primeiro “data center” no Brasil de maior porte – considerado aquele com uma capacidade de ao menos 200 megawatts – foi anunciado pela Tecto, braço da V.Tal, mas outros virão na maior necessidade de armazenamento de dados ao longo dos próximos anos, tanto para consumo interno como para exportação. Para se ter uma ideia, hoje os “data centers” são muito menores e possuem capacidade de, na média, entre 20 MW e 30 MW.
O crescimento dos “data centers” no Brasil terá que enfrentar ainda o dilema ambiental, visto que o uso de energia é intensivo – o cálculo é que atualmente essas estruturas já respondam por 2% do consumo de energia mundial. O Brasil também se posiciona como forte candidato a receber esses investimentos por possuir uma matriz energética limpa. A chegada desses investimentos, segundo especialistas, poderia ainda endereçar o excesso de geração de eletricidade durante o dia por conta do grande número de parques eólicos e painéis solares no país.
Dora Kaufman, professora da PUC-SP e pesquisadora especializada em inteligência artificial, apontou em artigo publicado no Valor que o governo brasileiro, ao oferecer benefícios para essa indústria, deveria exigir contrapartidas, como a prioridade do uso de energia solar e eólica.
Os maiores grupos que atuam no Brasil, como Ascenty, da Brookfield, e Digital Realty e Scala, controlada pelo fundo americano DigitalBrigde, buscam ampliar sua presença no país, disseram fontes. Neste ano, a Scala chegou a contratar o Deutsche Bank para vender a companhia, mas a operação foi colocada em compasso de espera pelas propostas não terem atingido o valor desejado pelo vendedor, conforme apurou o Valor.
Estudo da consultoria Oliver Wyman aponta que, globalmente, a estimativa é de que a capacidade operacional global de “data centers” dobre até 2029, por conta da demanda gerada pela inteligência artificial, além da migração de dados para serviços de nuvem. O serviço de nuvem responde atualmente por 30% de toda a capacidade global de “data center”, mas deverá chegar a metade desse total ao longo dos próximos anos.
O governo federal tem olhado o assunto e trabalhado para destravar parte dos investimentos. Em setembro anunciou Medida Provisória, o Redata, para criar um regime especialista de tributação de “data centers”, com isenção de alguns dos impostos. Por outro lado, o preço da energia do Brasil torna o país pouco competitivo, muito embora tenha abundância de energia renovável.
O responsável pela área de infraestrutura do UBS BB, João Auler, diz que mesmo as empresas que não estão expostas ao mercado brasileiro estão analisando o mercado. Segundo o executivo, há, neste momento, contratos sendo negociados, e que em breve devem se cristalizar em investimentos em novos “data centers” no país. “Não me surpreenderia escutar nos próximos três a seis meses contratos de 300 a 500 megas sendo negociados”, diz.
O diretor de financiamento de infraestrutura do Citi na América Latina, Daniel O’ Czerny, aponta que no exterior já é notada uma mudança de paradigma de investimentos, com projetos que antes tinham uma capacidade de 200 mega chegando até mesmo a 3 gigas, denotando o franco crescimento da demanda especialmente por conta de IA.
Para a América Latina, o movimento seguirá o mesmo, passando de campos menores para maiores. Para o Brasil, por outro lado, sua leitura é de que o “data center” seguiria para atender a demanda de nuvem (cloud). “O mercado local terá uma vocação diferente [do que o dos Estados Unidos]”, diz.
Roderick Greenless, chefe global do banco de investimento do Itaú BBA, afirma que a demanda de grandes fundos de infraestrutura tem crescido. “Eles estão olhando oportunidades”, diz.
O outro lado, segundo Vinicius Miloco, da Oliver Wyman, é que o Brasil, apesar de possuir vantagens geográficas para poder ser um “hub” no setor, enfrenta gargalos, como o preço da energia do Brasil, item que responde por 40% a 60% do custo de um “data center”. Outra questão é a carga tributária, algo que vem sendo endereçado pelo Redata. Hoje, segundo ele, o investimento esperado até 2029 vem de demanda praticamente local. “Esse é um dos mercados mais aquecidos em termos de interesse de investimento dos últimos tempos”.
Ele aponta que existe interesse de “players” para comprar operações que já estão de pé, visto que esse caminho encurta o processo, mas seria mais caro, já que os múltiplos negociados dos “data centers” estão elevados, hoje acima de 20 vezes, considerando a métrica do valor da empresa pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos depreciação e amortização).
Procurada, a Tecto destacou que opera um parque com seis data centers e que possui um plano de expansão que inclui investimentos da ordem de US$ 1 bilhão. “A Tecto combina velocidade de execução, com eficiência e inovação, além de alta capacidade de investimento, impulsionada pela força do grupo do qual faz parte. Esse conjunto nos diferencia no mercado e nos permite avançar com soluções de grande escala””, disse, por meio de nota, o presidente da Tecto, Tito Costa.
As demais empresas citadas não comentaram.
Fonte: Valor Econômico


