Os brasileiros aplicaram apenas R$ 10,6 bilhões nos fundos de investimentos em março, descontando os resgates, mostram os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Esse é o menor aporte do ano, após a indústria captar R$ 85,7 bilhões em janeiro e R$ 48,5 bilhões em fevereiro. A guerra e os pedidos de recuperações extrajudiciais de empresas levaram produtos de diferentes categorias a registrarem retornos abaixo do CDI (referência da maioria dos fundos, que anda colada na Selic) ou perdas no mês, o que impacta a captação dos fundos.
A maior entrada de dinheiro aconteceu nos ETFs, fundos negociados em bolsa que acompanham um indicador de referência, o que é um movimento incomum. As aplicações alcançaram R$ 6,9 bilhões na classe, a maior para um mês neste ano.
Já os aportes nos fundos de renda fixa desabaram em comparação aos meses passados. A categoria captou R$ 4,5 bilhões em março, o menor volume em um mês neste ano, depois de entrarem R$ 58,5 em janeiro e R$ 55,6 bilhões em fevereiro. A expectativa era que o início da redução da Selic, a taxa referência para os juros da economia, em março diminuisse a atratividade dos fundos de renda fixa, à medida que o tempo passasse e a categoria passasse a render menos.
Contudo, mais motivos trouxeram mau-humor aos cotistas dos fundos de renda fixa. O conflito no Oriente Médio e os pedidos de recuperação extrajudicial da GPA, dona do Pão de Açúcar, e da Raízen aumentaram a desconfiança dos investidores e levaram a uma correção significativa das taxas dos títulos emitidos por companhias. Isso levou principalmente os fundos de debêntures incentivadas a registrarem retornos abaixo do CDI ou perdas no mês.
Nesse ambiente, a expectativa de gestores é de que investidores resgatem os recursos. Em março, os fundos de debêntures incentivadas registraram aplicação de R$ 4,1 bilhões, a menor desde novembro, segundo relatório do banco ABC Brasil. Já os fundos de crédito privado tiveram entrada de apenas R$ 564 milhões no mês passado.
Além disso, os Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDCs) registraram aplicações de R$ 2,4 bilhões e os Fundos de Investimento em Participações (FIPs), de R$ 1,7 bilhão.
Na contramão, os maiores resgates em março aconteceram nos fundos multimercados, que podem ter simultaneamente renda fixa e renda variável de vários países. A categoria registrou uma retirada de R$ 3,1 bilhões, mas a debandada diminuiu em relação à saída de R$ 7,9 bilhões no mês anterior.
O Índice de Hedge Funds Anbima (IHFA), a referência dos multimercados, entregou a segunda pior performance da história em março. O indicador andava se recuperando no últimos 12 meses, mas caiu 3,42% no mês, em relação a um CDI de 1,21% nesse intervalo.
Muitos gestores perderam tanto dinheiro porque estavam apostando que os juros no país recuariam mais do que o esperado pelos investidores, ou seja, estavam otimistas com o ciclo de cortes da Selic. Contudo, o mercado passou a prever um ciclo de cortes de juros menor com o aumento da percepção de risco em meio à guerra, e essa aposta dos gestores deu errado.
Além disso, os fundos de ações registraram resgate de R$ 1,4 bilhão em março, menor que a retirada de R$ 4,7 bilhões no mês anterior. O Ibovespa encerrou março com perda de 0,7%, o primeiro mês do índice no vermelho desde julho do ano passado. As incertezas sobre a duração do conflito entre os Estados Unidos e o Irtã têm obrigado os investidores a aumentarem a cautela com os investimentos de maior risco.
Os fundos cambiais também sofreram resgates de R$ 574 milhões em março, e os fundos de previdência, retiradas de R$ 131 milhões.
No ano, os fundos de investimentos registram aplicações, descontando resgates, de R$ 159,2 bilhões. Os maiores aportes foram feitos nos fundos de renda fixa, de R$ 130,3 bilhões, nos ETFs, de R$ 17,9 bilhões, e nos fundos multimercados, de R$ 11,2 bilhões. Já as maiores retiradas ocorreram nos fundos de ações, de R$ 6,4 bilhões, e nos FIDCs, de R$ 2,3 bilhões.
Fonte: Valor Investe