Por Liane Thedim — Do Rio
03/01/2024 05h02 Atualizado há 6 horas
É como um mantra entoado por dez entre dez gestores: o CDI é um vício do investidor brasileiro que deveria ser abandonado para dar lugar à inflação como indexador, já que é o ganho real que importa. A tese ganhou força especialmente de dois anos para cá, com a puxada rápida e forte que elevou a Selic a 13,75% ao ano até agosto de 2023, mas o CDI se mantém no foco.
André Leite, diretor da TAG Investimentos, diz que isso pode estar acontecendo por um erro conceitual muito comum: considerar como renda fixa a alocação em ativos que acompanham os títulos atrelados ao IPCA, que têm volatilidade entre multimercados e renda variável. Ele propõe que esses ativos ocupem parte da fatia da renda variável.
Segundo Leite, a curva de volatilidade do IMA-B (índice da Anbima, entidade que representa o mercado financeiro e de capitais, formado por Notas do Tesouro Nacional – Série B, as NTN-Bs, ou Tesouro IPCA+, que oscilam de acordo com a inflação) é de 7%, a mesma de um multimercado agressivo. Já a do IMA-B 5+, composto pelos mesmos títulos, mas especificamente os que vencem em cinco anos ou mais, chega a 10,5%. “Não chega ao patamar da bolsa, que fica ao redor de 25% a 30%, mas é errado colocar esses ativos na caixa de risco de renda fixa. Um fundo DI não tem o mesmo risco”, afirma.
O executivo ressalta, porém, que, embora tenham volatilidade semelhante, os ativos ligados ao IMA-B têm retorno melhor que a média dos multimercados. Já o IMA-B 5+, comenta, tem metade da instabilidade do Ibovespa, com retorno muito superior. Em outubro, por exemplo, o IMA-B 5 teve o primeiro mês do ano com retorno negativo, de -0,31%, mas já em novembro rendeu 1,80% e em dezembro, 1,36%, nos dois casos bem acima do CDI.
“Enquanto isso, o investidor brasileiro fica populando a carteira com multimercados e ações, e pouca coisa em IMA-B. Nossa proposta é, já que estamos falando de disputa por espaço de risco por conta da volatilidade, reduzir bolsa e multimercados para dar espaço a esses ativos indexados à inflação”, diz o diretor da TAG, que tem R$ 12 bilhões sob gestão.
Para explicar essa volatilidade alta, Leite cita estudo da TAG que mostra que sistematicamente o mercado erra as previsões para a inflação, projetando índices que ficam abaixo do realizado. Como prever o IPCA é um “exercício de futuro”, afirma, as NTN-Bs ficam sempre “ruins” antes, com base em suposição e prognóstico e “boas” depois, com observação e análise. O levantamento mostra que, em média desde 2007, a inflação é 0,9% ao ano maior que o projetado. “Ou seja, quem comprou NTN-B teve nesse período ganho extra de 0,9% ao ano.” O diretor da TAG diz que em todas as janelas acima de dois anos no período os IMA-Bs ganham do CDI.
Sua ideia, ao trocar o que chama de “risco ruim” por IMA-B, é “tirar proveito dessa ineficiência de mercado, que parece que não vai terminar tão cedo”. De acordo com Leite, essas leituras muito baixas do IPCA afastam o investidor – na primeira quinzena de dezembro, expectativa de inflação embutida nas NTN-Bs com vencimento em 2025 e 2026 era de 4% a 4,2%. “Se a realizada for menor do que 4,25%, vai ter retorno menor que o CDI, e qualquer estágio acima disso garante o ganho acima do indexador. Historicamente nossa inflação fica acima de 4%.”
O diretor da TAG defende que toda carteira de pessoa física tenha percentual relevante de ativos indexados ao IPCA, tanto NTN-Bs, que não têm risco de crédito, quanto os papéis privados que têm isenção de Imposto de Renda, como certificados de recebíveis imobiliários (CRIs), do agronegócio (CRAs) e debêntures incentivadas. “O que importa é ter juro real para garantir a aposentadoria.”
Nessa linha de raciocínio, propõe também uma parcela entre 5% e 15% em dólar, com retorno de variação cambial mais 3% ou 4% ao ano, o que, segundo ele, desde 2007 resulta num retorno similar ao CDI e com correlação negativa com os ativos de risco, além de uma carteira de ações que garanta Ibovespa mais 4% ao longo dos anos. “É importante ter um portfólio de longo prazo que funcione como um time de futebol. O dólar é o goleiro, vai ajudar nos momentos de estresse, a NTN-B mais longa é o atacante, assim como as ações e os multimercados.”
O gestor faz questão de frisar que o problema na alocação de portfólio é multifacetado e envolve também interesses da indústria, por partir de um modelo de remuneração dos assessores de investimentos que induz ao conflito. A maioria dos escritórios oferece alternativamente uma cobrança fixa, mas a maior parte acaba sendo mesmo pelo “rebate”, como no jargão do mercado é chamada a parcela da taxa de administração que os fundos repassam aos intermediários que levaram o cliente para aquela gestora. Resolução da Comissão de Valores Mobiliários tornou obrigatório que os distribuidores indiquem aos clientes sua forma remuneração, mas no dia 20 de dezembro a data de início das regras foi adiada de janeiro para novembro de 2024.
Fonte: Valor Econômico


