“A nossa Europa é mortal, ela pode morrer”, alertou Emmanuel Macron no final de abril. Quem diria que apenas algumas semanas depois o presidente da França iria tentar provar seu ponto de vista ao convocar eleições antecipadas que ameaçam mergulhar a União Europeia (UE) inteira em uma crise potencialmente mortal?
No momento, as atenções mundiais estão voltadas para os dramas políticos imediatos na França. O primeiro turno das eleições ocorrerá em 30 de junho. O partido de extrema direita Reunião Nacional (RN) lidera no momento nas pesquisas, com a Nova Frente Popular (NFP), uma coalizão dominada pela extrema esquerda, em segundo lugar.
Na melhor das hipóteses, um parlamento dominado pelos extremos políticos mergulharia a França em um período prolongado de instabilidade. Na pior, levaria à adoção de políticas perdulárias e nacionalistas que provocariam rapidamente uma crise econômica e social na França.
Um colapso francês rapidamente se transformaria em um problema da UE. Haveria dois mecanismos principais de transmissão. O primeiro é fiscal. O segundo é diplomático.
A França encontra-se em uma crise financeira. A dívida pública está em 110% do PIB e o atual governo registrou um déficit fiscal de 5,5% do PIB no ano passado. A extrema direita e a extrema esquerda estão empenhadas em grandes aumentos de gastos públicos e cortes de impostos que iriam inflar a dívida e o déficit, violando ao mesmo tempo as regras da UE.
Bruno Le Maire, ministro das Finanças da França, alertou que a vitória de qualquer um dos extremos poderá levar a uma crise da dívida na França e à supervisão das finanças do país pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) ou a Comissão Europeia.
Le Maire referiu-se à reação ao “mini” orçamento do governo de Liz Truss no Reino Unido, para destacar a rapidez com que os mercados podem se voltar contra um governo financeiramente irresponsável.
Na realidade, uma crise fiscal na França poderia ser pior do que o encontro do Reino Unido com Liz Truss. No Reino Unido, havia um mecanismo para destituir Truss rapidamente e restabelecer um governo nacional. Essa tarefa seria muito mais difícil na França, onde a extrema direita e a extrema esquerda possuem lideranças bem-estabelecidas e não tem à margem políticos mais cautelosos e baseados na realidade.
A segunda grande complicação é que a França é um dos 20 países que usam a moeda única europeia.
O que aconteceria se o prêmio de risco sobre os bônus franceses disparasse? A UE dispõe agora de mecanismos para intervir e comprar bônus. Mas Bruxelas e Berlim estariam dispostos a concordar com tal medida, se a crise fosse provocada por compromissos de gastos franceses não financiados? O governo alemão luta no momento para economizar bilhões de dólares em seu orçamento nacional. Por que ele concordaria em socorrer uma França gastadora?
A extrema direita e a extrema esquerda francesas também são profundamente eurocéticas – e já estão criticando os ditames de Bruxelas e demonstrando hostilidade com a Alemanha. A plataforma eleitoral do RN menciona uma “divergência profunda e irreconciliável” entre as visões de mundo da França e da Alemanha. Jordan Bardella, que deverá ser o candidato a primeiro-ministro do RN, recentemente ameaçou cortar a contribuição da França para o orçamento da União Europeia em 2 bilhões a 3 bilhões de euros por ano.
Durante a crise da dívida da Grécia, que durou quase uma década, o desafio à UE por Atenas foi finalmente superado pela ameaça de expulsar a Grécia do euro – uma medida que teria destruído o valor das poupanças gregas. Mas expulsar a França do euro – ou da própria UE – é praticamente inconcebível. Todo o projeto europeu foi construído em torno da dupla franco-alemã desde a década de 50.
É muito mais provável que a França permaneça na UE e na moeda única, mas atue como um obstáculo. Isso poderia arruinar a coesão e a estabilidade europeias, num momento em que a UE luta para se unir diante da ameaça da Rússia.
A menos que Macron renuncie (o que parece improvável), ele continuará representando a França nas reuniões de cúpula internacionais e da UE. Mas, salvo uma mudança de última hora nas pesquisas, o presidente francês deverá sair dessas eleições como uma figura bem menor. Alguns dos colegas europeus de Macron poderão desfrutar tranquilamente do espetáculo de “Júpiter” sendo humilhado. Mas o impacto geral de uma França diminuída e enfurecida sobre a Europa seria desalentador.
O instinto inicial do RN seria confrontar Bruxelas em nome da soberania francesa. Mas os líderes da extrema direita demonstraram nos últimos anos alguma consciência de que o euroceticismo linha-dura pode assustar os eleitores e os mercados. Após perder a eleição presidencial de 2017, o RN abandonou silenciosamente a sua conversa de deixar o euro.
Uma crise econômica – combinada com um confronto com Bruxelas e Berlim – poderia levar o RN a recorrer aos seus instintos nacionalistas e de confronto. Por outro lado, as realidades do ato de governar poderão forçá-lo a uma acomodação com a UE.
Aqueles de memória boa podem apontar para a crise econômica da França no começo dos anos 80, quando um governo socialista tentou implementar uma agenda radical de esquerda. Aquela crise acabou levando à ascensão de Jacques Delors, primeiro como ministro das Finanças francês e depois como presidente da Comissão Europeia. Em Bruxelas, Delors impulsionou avanços dramáticos na integração europeia e no lançamento da moeda única.
É pouco provável que a história se repita da mesma maneira. Mas décadas de experiência sugerem que é um erro apostar contra a capacidade da UE de superar ameaças que parecem mortais.
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Fonte: Valor Econômico

