Por Alex Ribeiro, Valor — São Paulo
02/08/2023 20h47 Atualizado há 10 horas
Nunca uma decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central teve um placar tão apertado, mas a divisão é menor do que aparenta à primeira vista. Houve consenso entre as diferentes alas, conservadora e moderada, na sinalização do ritmo de distensão monetária a ser adotado daqui por diante, em 0,5 ponto percentual.
O Copom cortou os juros de 13,75% para 13,25% ao ano, com cinco votos a favor, e quatro votos dissidentes em favor de um movimento de apenas 0,25 ponto percentual.
Porém, a disputa sobre quanto cortar na reunião nesta reunião, se 0,5 ponto percentual ou 0,25 ponto percentual, nunca foi exatamente sobre a magnitude da redução em si. Toda a discussão é sobre o que uma baixa mais forte de juros agora poderia sinalizar em termos de passos futuros. Um movimento mais forte poderia empurrar o mercado a apostar em cortes crescentes e acelerados de juros nas próximas reuniões.
No comunicado, o Copom fecha bem a porta para apostas de quedas mais fortes de juros. Não vai impedir que o mercado contemple alguma chance de um corte maior do que 0,5% — digamos, de 0,75 ponto percentual – mas a unanimidade é uma força gravitacional importante para disciplinar as apostas. É muito raro o Copom assumir um compromisso que extrapola a reunião seguinte.
É verdade que, para a reunião deste mês, a maior parte dos analistas econômicos do mercado financeiro apostava num corte de 0,25 ponto percentual. Mas o consenso também era que, nos encontros seguintes, o ritmo fosse elevado para baixas de 0,5 ponto percentual por reunião. Ninguém iria estranhar se o Copom cortasse 0,25 ponto e sinalizasse 0,5 ponto para as seguintes.
A importância da unanimidade é ainda maior quando se considera que ela inclui o novo diretor de política monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo, o indicado pelo presidente Lula para o Copom. A divergência de Galípolo, um heterodoxo, em relação à turma mais ortodoxa do Copom ficou restrita a 0,25 ponto percentual numa reunião pontual.
Naturalmente, a decisão de baixar os juros com mais força com um placar dividido não é bom para credibilidade de um início de distensão monetária. Todos os membros do Copom têm mandato e o mesmo peso nas decisões, mas o grupo dos vencidos inclui alguns dos que tem maior credibilidade perante os especialistas do mercado.
É o caso, por exemplo, do diretor de política econômica, Diogo Guillen; da diretora de assuntos internacionais, Fernanda Guardado; e do diretor de organização do sistema financeiro, Renato Gomes.
Foi a segunda vez seguida que o grupo mais conservador foi vencido. Em encontro realizado em junho, três diretores do Banco Central defenderam não fazer nenhuma sinalização de distensão monetária para o encontro seguinte, de agosto.
A mensagem que fica da reunião é que, hoje, o grupo mais conservador é cronicamente minoritário e, em decisões futuras, tende a ser vencido. Isso deve empurrar parte do mercado a precificar um risco maior de uma aceleração no ritmo de baixa da Selic para mais de 0,5 ponto percentual do que se os conservadores tivessem ganhado.
Outro ponto que tende a causar arranhões na credibilidade da decisão do Copom é a falta de elementos mais técnicos para apoiar a decisão. A projeção de inflação do Copom para 2024, que compõe a maior parte do alvo do Banco Central, está em 3,4%, acima da meta. Para 2025, a projeção está em 3%, na meta, considerando um início de corte mais lento, de 0,25 ponto percentual.
O comunicado fala de melhoria nos índices de inflação corrente e queda nas expectativas de inflação depois de mantida a meta pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Mas a realidade é que nada disso mudou a inflação acima da meta projetada no cenário básico.
O balanço de riscos para a inflação, pelo que tudo indica, segue simétrico, com igual peso para fatores que podem provocar uma alta da inflação quanto para que podem baixar. Com inflação acima da meta e riscos equilibrados no cenário, em tese não haveria espaço nem mesmo para um corte moderado de juro, de 0,25 ponto percentual.
O Copom quebrou um instrumento de navegação: as projeções de inflação, tradicionalmente, eram sinalizadoras do espaço para distensão monetária. Agora, as sinalizações ficam mais soltas e fluidas.
Naturalmente, a jornada de comunicação do Copom mal começou. Semana que vem a ata do Copom certamente vai trazer mais nuances das posições dos diferentes grupos. Os membros do Copom também vão começar a falar, e será preciso conferir o grau de aderência de cada um deles com a decisão unânime de manter um ritmo de baixa de 0,5 ponto percentual nas próximas reuniões.
Fonte: Valor Econômico