Por meio da ata divulgada nesta terça-feira, o comitê confirmou que sua visão não mudou depois da queda recente da inflação e de sinais de que os juros nos Estados Unidos podem cair em 2024
Por Alex Ribeiro, Valor — São Paulo
19/12/2023 10h11 Atualizado há 4 horas
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central demonstrou, em ata divulgada nesta terça-feira, conforto com o ritmo de cortes de juros de 0,5 ponto percentual por reunião. Não é impossível que, ao longo do caminho, venha a cortar mais, porém será preciso um progresso importante na queda da inflação para a meta e na ancoragem das expectativas de inflação.
O ponto mais importante da estratégia do comitê – que já vem sendo comunicado há meses – é ir num ritmo não muito acelerado para garantir o grau de contração monetária ao longo de 2024 e, assim, baixar o índice de inflação para a meta.
Alguns segmentos do mercado vêm ignorando o que é, hoje, o ponto mais importante da comunicação do Copom — algo que, inclusive, foi destacado pelo diretor de política econômica do BC, Diogo Guillen, pouco antes da reunião da semana passada. Outros membros do colegiado apoiam com unanimidade a estratégia.
“O comitê percebe a necessidade de se manter uma política monetária ainda contracionista pelo horizonte relevante para que se consolide a convergência da inflação para a meta e a ancoragem das expectativas”, disse a ata.
Não houve mudanças desse trecho em relação ao que foi escrito na ata anterior, de novembro. Mas a reafirmação da comunicação é importante, para confirmar que a visão do comitê não mudou, depois da queda recente da inflação e de sinais de que os juros nos Estados Unidos podem cair em 2024.
O que nem todos tem percebido é que o ritmo de cortes de juros de 0,5 ponto percentual por reunião está conjugado com a estratégia de manter a política monetária contracionista.
“Com relação aos próximos passos, os membros do comitê concordaram unanimemente com a expectativa de cortes de 0,5 ponto percentual nas próximas reuniões e avaliaram que esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário”, diz a ata, também num repeteco em relação ao documento anterior.
De novo, são é uma repetição mecânica: o Copom avaliou a evolução do cenário desde novembro e concluiu que tinha que manter o ritmo de 0,5 ponto para conseguir uma política contracionista no horizonte relevante. O que significa isso? Provavelmente, que se o colegiado cortasse mais de 0,5 ponto, o mercado passaria precificar uma trajetória de juros incompatível com a estratégia de manter a política monetária contracionista ao longo do tempo.
Para cortar mais, portanto, o colegiado precisa de mais segurança de que a inflação vai, de fato, cair para a meta. Isso não aconteceu desde a reunião de novembro. A projeção de inflação ficou basicamente na mesma, oscilando de 3,6% para 3,5% para 2024, e imóvel em 3,2% para 2025. A meta é 3%.
Mais do que isso: quando faz a análise da evolução do cenário desde novembro, o Copom diz que tudo correu como esperado, como a desaceleração da atividade e queda da inflação.
“O comitê julgou que a dinâmica desinflacionária não divergiu significativamente do que era esperado na medida em que prossegue a evolução benigna do cenário corrente de inflação e esgotam-se algumas fontes que contribuíram para o primeiro estágio da desinflação”, diz a ata.
Como não houve surpresas significativas, não há porque mudar a estratégia de manter a contração em 2024 para levar a inflação para a meta. E, para executar a estratégia, quedas de 0,5 ponto seguem adequadas.
Como entra nos cálculos a melhora no cenário para os juros americanos de pois da reunião do Federal reserve (Fed) na semana passada, que uma parte do mercado disse que o Copom havia ignorado? A ata tem um trecho para explicar isso.
“O comitê relembrou que a incorporação de cenários e variáveis exógenas, como a dinâmica fiscal ou o cenário externo, se dá por meio de seus impactos na dinâmica prospectiva de inflação, sem relação mecânica com a determinação da taxa de juros”, afirma.
De maneira mais específica, sobre a melhora no cenário internacional, a ata diz: “ A incerteza, em particular no cenário internacional, que tem se mostrado volátil, prescreve cautela na condução da política monetária.”
Ou seja, o Copom diz que há incerteza ainda sobre a própria situação do cenário externo, que é volátil e difícil de avaliar, neste momento. E, no caso de o cenário externo ser de fato favorável, o que pode contar para a política monetária é seu impacto na inflação e expectativas do mercado.
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