O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, colocou o foco na inflação americana e na decisão de junho do Federal Reserve (Fed, o BC americano) entre os fatores que estão sendo monitorados para as decisões de política monetária no Brasil.
Em um evento na manhã desta quarta-feira promovido pelo banco Bradesco BBI, Campos Neto destacou a importância do índice de inflação ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos a ser divulgado na semana que vem para determinar o futuro da política monetária americana.
Também discutiu os eventuais impactos, para os países emergentes, incluindo o Brasil, de uma eventual reprecificação da curva de juros nos Estados Unidos caso o Fed não comece a baixar a sua taxa básica de juros em junho.
O pronunciamento de Campos Neto reforça o vínculo, que muitos no mercado acreditam existir de forma automática, entre as políticas monetárias americana e brasileira.
No discurso oficial, esse vínculo não existe: desde fins do ano passado, o Comitê de Política Monetária (Copom) vem repetindo que não há relação mecânica entre os juros dentro e fora do país.
Mas alguns acham que Campos Neto, que antes de assumir o BC fez sua carreira em mesas de operação no mercado financeiro, seria mais sensível aos impactos de juros internacionais e taxa de câmbio na definição da taxa Selic.
O presidente do Banco Central disse que o CPI da semana que vem será crucial para o banco central americano. “A inflação cheia começou a estacionar perto de 3,2%”, disse, sobre a inflação americana. “O número que vai sair dia 10 de abril é muito relevante porque o BC americano precisa ter uma narrativa sobre o processo de desinflação.”
Segundo ele, o CPI americano precisa cair do patamar de 3,2%, “senão fica muito complicada essa narrativa daqui para frente”. No caso dos núcleos de inflação, seria necessário, argumentou, sair do intervalo mensal entre 0,32% e 0,33% para “alguma coisa mais perto de 0,2%”.
O presidente do Banco Central notou que os mercados estão num “ponto de inflexão” na sua reação ao Fed. Antes, disse, quando o início de baixa de juros era adiado, os mercados apenas postergavam o cenário de baixa de juros.
Agora, afirmou, estão também reprecificando o tamanho do ciclo de cortes, prevendo que ao final dele o Fed entregará uma taxa básica mais alta. “Isso tem impacto na dinâmica de estabilidade de política monetária no mundo emergente”, afirmou Campos Neto.
O presidente do BC colocou um foco grande, também, na reunião do Fed de junho, reunião para a qual o mercado precifica uma chance de 56,5% de início do ciclo de distensão monetária.
“Se o corte não for em junho, como as pessoas estão hoje esperando, vai começar a entrar numa fase onde a reprecificação da taxa terminal será atingida mais fortemente nos Estados Unidos”, disse. “Isso vai ter implicações para todo os ativos de risco, aqui e em outros lugares.”
Mais uma vez, o presidente do Banco Central disse que, por hora, a decrescente diferença entres os juros básicos no Brasil e Estados Unidos não preocupa. Esse é um tema que, sempre que Campos Neto toca, reforça desconfianças de parte dos analistas econômicos de que o BC brasileiro opera, de certa forma, dentro do perímetro do regime de câmbio fixo, em que o juro é definido para evitar uma desvalorização da moeda.
“O diferencial de juros é um problema?”, questionou Campos Neto, de forma retórica. “O diferencial de juros não deveria ser um problema. Ainda tem um diferencial de juros bastante favorável.”
No regime de metas de inflação, o Banco Central não manipula a taxa Selic tendo como meta diretamente a taxa de câmbio. O que importa é a inflação projetada, e a taxa de câmbio é apenas uma das variáveis que afetam a inflação. O regime de metas, na sua versão mais pura, diz que, quando os juros internacionais sobem, o Banco Central deve deixar o câmbio fazer o ajuste de preços relativos. O juro interno deveria focar no efeito secundário na inflação.
Novamente, Campos Neto notou que, no caso do Chile, os cortes mais agressivos na taxa básica de juros levaram a uma depreciação cambial. Ele revelou que os banqueiros centrais estão discutindo se países que têm uma taxa de juros neutra (aquela que que não acelera nem desacelera a inflação) mais baixa – caso do Chile, mas não do Brasil – poderiam baixá-la a níveis inferiores aos praticados pelo Fed.
Apesar de se concentrar muito no ambiente externo na sua apresentação desta quarta, Campos Neto também falou de incertezas domésticas que afetam o cenário inflacionário do BC, como a relação entre a inflação de serviços e o mercado de trabalho.
No discurso oficial, o BC tem destacado tanto incertezas domésticas como internacionais, argumentando que em ambos há riscos equilibrados tanto do lado altista da inflação quanto baixista.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2023/P/9/EHJrduQeWBRvbgmBuAag/338300676.jpg)
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto — Foto: Andre Coelho/Bloomberg
Fonte: Valor Econômico