Se ainda são confusos os motivos para a decisão de Sergio Rial em janeiro, desta vez parece haver uma estratégia da administração atual de sair na frente na batalha de narrativas que promete acirrar-se daqui para frente e colocar em confronto direto bancos, auditores, empresa e os chamados sócios de referência.
De posse de alguns documentos levantados pelo comitê independente que investiga o caso, a empresa publicou um comunicado no qual fala abertamente em fraude, não mais “inconsistências contábeis”, e acusa diretamente a gestão anterior de usar não só as já notórias operações de risco sacado, uma triangulação comercial que envolve bancos, empresa e fornecedores, mas também contratos de bonificação com a indústria para esconder dívidas e melhorar resultados.
No mesmo dia, estava marcado o depoimento do atual presidente da Americanas, Leonardo Coelho Pereira, na Comissão Parlamentar de Inquérito. Ele não ficou sem o que dizer e mostrar aos deputados, que viram contratos supostamente falsificados e e-mails trocados entre direção e auditores, supostos indícios de que os ex-administradores teriam cometido uma fraude sem precedentes por um longo período de tempo.
A desconfiança já era geral, desde as revelações de Rial em janeiro, de que se tratava de um esquema complexo de maquiagem contábil montado pelos gestores. O que levou a dramaticidade às alturas foi a alegação de que pode ter havido participação dos auditores e dos bancos na maquinação do esquema fraudulento.
O executivo ressalvou mais de uma vez que os documentos precisavam de “mais contexto”. Não seria demais perguntar, então, por que apresentá-los? O efeito midiático favorável talvez justifique o açodamento, já que as manchetes transformaram indícios em provas, com condenação imediata dos ex-executivos.
Coelho disse várias vezes que não apareceu nada até agora que lance suspeitas sobre a atuação do conselho de administração e dos principais sócios – Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira – e negou que alertas feitos pelos auditores tenham chegado ao conhecimento do órgão máximo da governança da empresa.
Com base em informes públicos, o Valor mostrou que a KPMG chamou a atenção para problemas nas relações com fornecedores e pediu reforço na governança. Perguntado especificamente sobre isso na CPI, Coelho negou que o conselho tenha recebido qualquer aviso, já que os auditores teriam trocado “conselho de administração” por “administração” no título da chamada carta de controle, que é entregue no fim do trabalho de auditoria, e assim ela não teria chegado ao seu destino.
Parece ter havido uma interpretação equivocada do executivo. A reportagem citada pelo deputado Thiago de Joaldo (PP-SE) fala de alerta feito na demonstração financeira da empresa, ou seja, um documento público que é aprovado pelo conselho. Coelho responde referindo-se à carta, que não é pública, e que só foi revelada naquela dia. Ainda assim, especialistas ouvidos pelo Valor posteriormente disseram que a retirada de uma palavra não iria impedir que a carta chegasse ao conselho, já que ele é o orgão responsável por avaliá-la.
Já virou lugar-comum levar os auditores rapidamente ao paredão – e certamente colabora para isso o baixo resultado até agora dos esforços da categoria para levar ao conhecimento do público em geral os limites da sua atuação na fiscalização dos balanços. As auditorias sempre argumentaram que uma fraude tramada pela alta gestão é impossível de ser detectada pelos trâmites normais de uma análise das demonstrações financeiras – que é muito diferente de um trabalho de investigação forense. Elas insistem que têm muito a perder e que não faria sentido colocar seu maior ativo em risco – a credibilidade – para favorecer um cliente.
É fato notório que as empresas pressionam auditores, analistas e jornalistas para fazer valer os seus pontos de vista, e a Americanas era particularmente reconhecida por sua agressividade. É surpreendente que até os bancos, com mais poder de fogo, tenham aceitado “suavizar” as chamadas cartas de circularização usadas pelos auditores para comprovar as operações de risco sacado – feito que é comemorado pela antiga gestão num e-mail apresentado na CPI que culmina com um singelo “parabéns a todos os envolvidos”. O conhecido poder que tinha a Americanas de pressionar fornecedores, que costumavam aceitar prazos de pagamento muito acima da média do mercado, aparentemente também era usado para tentar convencer banqueiros e auditores a flexibilizar as regras do jogo.
Ter entre seus sócios gestores de sucesso amplamente reconhecidos certamente dava à administração poder para sustentar essa postura, ao mesmo tempo que criava uma sensação de conforto para seus parceiros comerciais e para quem precisaria fiscalizar suas operações. Como a empresa conseguiu manter todos no escuro por tanto tempo ao exercer esse enorme poder de barganha ainda precisa ser devidamente explicado.
Fonte: Valor Econômico


