Após dois meses de sonho nos mercados, Wall Street está despertando de seu sono. Primeiro, o colapso do First Brands Group e da Tricolor Holdings reavivou temores há muito adormecidos sobre perdas de crédito ocultas. Depois, baixas contábeis relacionadas a fraudes no Zions Bancorp e na Western Alliance – que eliminaram mais de US$ 100 bilhões em valor de ações de bancos americanos em um dia – alimentaram a preocupação de que o estresse no mercado de empréstimos esteja mais disseminado.
Até recentemente, os investidores ignoravam tudo, desde a paralisação do governo até as avaliações exageradas, impulsionados pelo “boom” de IA e pela resiliência dos dados do consumidor. Isso levou a um posicionamento agressivo. De acordo com o Société Générale, as alocações em ativos de risco, como ações e crédito, subiram para 67% das carteiras monitoradas no fim de agosto – perto dos níveis máximos.
As ações ainda encerraram a semana com um ganho considerável, estendendo um mercado em alta que já adicionou US$ 28 trilhões ao seu valor, depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, recuou das ameaças tarifárias da sexta-feira anterior. Mas seis dias de volatilidade nos ativos mostram uma ansiedade mais profunda se instalando: a fragilidade do crédito. Mais de US$ 3 bilhões saíram de fundos de títulos “high yield” (de alto rendimento e alto risco) na semana até quarta-feira, de acordo com a EPFR Global. Estratégias com “momentum” ligado a risco, como criptomoedas, antes intocadas, também estão perdendo força.
Em carteiras quantitativas, estratégias que isolam o risco de crédito estão de volta à moda. Um par de operações que aposta contra empresas alavancadas – e apoia seus pares de baixo endividamento – está mais uma vez gerando fortes ganhos, ecoando padrões vistos antes do pico das pontocom, de acordo com a Evercore ISI.
Nenhum desses movimentos aponta para uma reviravolta baixista duradoura. Mas o tom mudou. Em conjunto – padrões de crédito frouxos ressurgindo, empresas alavancadas caindo em desgraça, fluxos especulativos desvinculados dos fundamentos – os ecos de pontos de inflexão passados estão alimentando um espírito de disciplina entre um grupo de grandes gestoras de recursos.
John Roe, chefe de fundos multiativos da Legal & General, que administra US$ 1,5 trilhão, disse que sua equipe agiu para reduzir o risco, citando um crescente descompasso entre o posicionamento do investidor e os fundamentos subjacentes.
“Nas últimas semanas, vimos isso como um risco subvalorizado em um cenário de sentimento elevado, embora não extremo, do investidor”, disse Roe. “Isso foi um elemento-chave da decisão de reduzir a tomada de risco e operar vendido em ações na quarta-feira.”
A empresa já estava “underweight” (com exposição abaixo da média) em crédito, citando spreads apertados e potencial de valorização limitado. E embora os colapsos da Tricolor e da First Brands tenham sido amplamente vistos como idiossincráticos, a equipe de Roe os viu como potenciais sinais de alerta de uma tensão mais ampla, particularmente entre tomadores de baixa renda.
Outros participantes do mercado tinham opinião semelhante.
“Acredito que estamos entrando em um clássico ciclo de baixa do crédito”, disse Ulrich Urbahn, chefe de estratégia e pesquisa multiativos do banco Berenberg. “Não é catastrófico, mas há um risco crescente de que marque um ponto de virada no ambiente mais amplo.”
Não é catastrófico, mas há um risco crescente de que isso marque um ponto de virada no ambiente mais amplo”
Nas últimas duas semanas, Urbahn disse que adicionou mecanismos de “hedge” (proteção) em equity, reduzindo sua exposição a ações em cerca de 10 pontos percentuais e ficando “underweight”. Ele vendeu opções de compra do índice S&P 500 para ajudar a financiar apostas de proteção e até reduziu as posições em ouro e prata – trades que estavam cada vez mais concorridos. “Após o desempenho do ano até o momento”, disse, “há muita motivação para proteger os fortes ganhos.”
Apesar das preocupações com o crédito, o S&P 500 encerrou a semana com alta de 1,7%, mesmo com a queda de quase 2% do índice de bancos regionais, em sua quarta semana consecutiva de perdas. Os spreads dos títulos corporativos “high yield”, embora ainda historicamente baixos, aumentaram 0,25 ponto percentual neste mês, para 2,92 pontos percentuais. O VIX – índice de volatilidade que acompanha a velocidade das mudanças no sentimento do investidor, conhecido como “termômetro do medo” – atingiu seu nível mais alto desde abril. Uma medida para a demanda por proteção contra riscos de cauda também saltou para o nível mais alto em seis meses.
A investida em ativos de risco não foi impulsionada somente pela confiança. Para os gestores ativos, 2025 está se configurando como um dos piores anos já registrados, com a proporção de fundos “long only” que batem os benchmarks caindo para 22% em 2025, de acordo com dados do Jefferies Financial Group. Essa pressão intensificou a busca pelo que está funcionando – mesmo com a deterioração dos fundamentos.
No extremo oposto do espectro de risco, as criptomoedas não se recuperaram após a queda de US$ 150 bilhões do último dia 10. Ao contrário de quedas anteriores, não houve uma corrida do varejo para comprar na queda – apenas silêncio. Essa contenção, apesar da queda das taxas e da liquidez mais flexível, sugere uma mudança: menos empolgação, mais controle de risco. E esse arrefecimento pode se espalhar para além dos “tokens”.
Nem todos veem os tremores recentes como um ponto de inflexão.
Garrett Melson, estrategista de portfólio da Natixis Investment Managers Solutions, disse que a liquidação vinculada ao Zions e à Western Alliance pareceu mais uma reação exagerada a um estresse isolado do que um sinal de uma pressão de crédito mais profunda.
“Provavelmente diz mais sobre posicionamento e sentimento do que qualquer outra coisa”, disse. Embora os spreads estejam apertados, Melson ainda vê fundamentos fortes e carrego sólido em crédito. Sua equipe recentemente passou de leve “underweight” em ações para neutra. “Neutro parece ser um bom ponto”, disse, “até ter uma oportunidade melhor de realmente se inclinar mais agressivamente para overweight”.
Fonte: Valor Econômico


