Por Gabriel Roca e Arthur Cagliari — De São Paulo
13/03/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
Ainda que as sinalizações emitidas na semana passada pelo presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, tenham aberto a possibilidade para juros ainda mais altos na maior economia do mundo, o cenário, por ora, continua positivo para o investimento em mercados emergentes e, em especial, na América Latina.
Essa é a visão do estrategista-sênior de mercados emergentes do Société Générale, Bertrand Delgado. Para ele, o colchão de segurança criado pelos bancos centrais da região, que elevaram os juros de modo intenso para conter as pressões inflacionárias, deve continuar funcionando como amortecedor contra os choques advindos da política monetária americana. Exemplo disso é que, mesmo com a revisão recente da taxa terminal dos “Fed funds” nos Estados Unidos, a volatilidade das moedas e dos juros de países como Brasil e México diminuiu.
Delgado afirma que os investidores globais esperam com ansiedade a nova regra da âncora fiscal brasileira e, apesar dos recentes ruídos envolvendo o Executivo e o Banco Central, avalia que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem feito um bom trabalho de comunicação junto ao mercado. Com isso, espera uma redução no risco político local daqui em diante.
Valor: Os investidores globais seguem discutindo o nível terminal de juros nos EUA. O ambiente é favorável para a América Latina?
Bertrand Delgado: Tínhamos uma taxa terminal de cerca de 5,25% e agora temos uma taxa terminal entre 5,50% e 5,75%, após os comentários de Powell nesta semana [semana passada]. Ou seja, também passamos a esperar uma taxa terminal mais alta. No entanto, parece que mesmo nesses níveis ela é digerível para os mercados latino-americanos. Estamos vendo que a volatilidade nas moedas, particularmente no real e no peso mexicano, e nos títulos locais se tornou ainda mais baixa. Parece que a história geopolítica global, mesmo com o fato de você ter uma taxa terminal mais alta nos EUA, ainda está fazendo com que o alvo dos investidores globais se mantenha em direção ao investimento na região em comparação com outros locais.
Valor: O que explica a situação?
Delgado: Isso tem a ver, principalmente, com o fato de que os bancos centrais latino-americanos têm estado à frente da curva, criando uma espécie de colchão para se protegerem de algum tipo de desvio externo. E, na comparação relativa, a América Latina continua atrativa, também pela posição geográfica privilegiada por estar afastada da guerra da Ucrânia.
Valor: Há sinais de melhora na inflação global, mas ela segue persistente. Como avalia o cenário?
Delgado: Se você olhar para os dados de inflação cheia, há um processo de desaceleração, mas no caso dos núcleos, em muitos países, eles têm mostrado mais dificuldade em cair. Teremos que nos acostumar com a inflação acima da meta neste e, talvez, no próximo ano. Nesse sentido, os bancos centrais devem ter uma abordagem vigilante e manter as taxas mais elevadas por um bom tempo. Por outro lado, um cenário de recessão global para 2023 tem se mostrado fora de cogitação por enquanto, com algo mais semelhante a uma desaceleração econômica. Devemos levar em consideração que os gargalos de fornecimento estão se reduzindo, então a inflação alimentada por isso vai perdendo força. Além disso, os preços das commodities devem permanecer nos atuais patamares e não ter mais picos agressivos, o que também deve ajudar a desinflação.
Cenário de recessão global para 2023 tem se mostrado fora de cogitação, com algo mais semelhante à desaceleração”
Valor: Como os investidores globais têm avaliado o novo governo no Brasil?
Delgado: O Brasil é um mercado-chave para a América Latina e é uma história positiva, em certa medida, em comparação com o ano passado. Embora existam problemas internos, acho que os investidores globais encaram o Brasil como um mercado suficientemente líquido e que agora está passando por um processo de transição. Até agora, a elaboração de políticas mais radicais por parte do governo foi se transformando em uma agenda mais ao centro, de uma esquerda progressista. Essa tem sido também a tendência em outros países onde as expectativas eram de mudanças radicais, como no Chile e na Colômbia. Pouco a pouco, tem havido um entendimento e eles têm caminhado em direção a um centro mais progressista, e isso é construtivo. Não é exatamente o cenário ideal, mas é mais benigno do que antes.
Valor: Há discussões sobre a trajetória dos juros no Brasil. Qual a sua visão?
Delgado: Somos mais da opinião de que o Banco Central permanecerá em espera até o último trimestre deste ano. Mas isso vai depender também da taxa terminal do Fed, e, principalmente, de qual será a estrutura fiscal do Brasil e das discussões relacionadas à independência do Banco Central e das metas de inflação. Estas questões domésticas têm que estar claras para que os investidores internacionais possam olhar com mais clareza através deste cenário nebuloso.
Valor: Com uma possível redução dos juros neste ano e um menor diferencial de juros em relação aos EUA, o que deve ocorrer com o real?
Delgado: Se o arcabouço fiscal for bem desenhado, o Banco Central será levado a cortar as taxas de juros mais cedo do que esperamos, e isso é um bom sinal para a moeda também. Porque com a âncora fiscal, o prêmio de risco deve ser reduzido e, portanto, o BC terá espaço para cortar os juros. Se tivermos um bom arcabouço e não houver grandes alterações nas metas de inflação do Banco Central, devemos ter o melhor cenário para o real.
Valor: Qual sua visão para os juros locais?
Delgado: Particularmente na América Latina as curvas de juros parecem atraentes na porção mais curta [prazos mais curtos], mas obviamente há volatilidade em torno do que seria a taxa terminal dos juros nos Estados Unidos e a inflação de curto prazo ainda está relutando em cair de modo suficientemente rápido. Quando tivermos mais clareza nesses aspectos, os investidores globais devem começar a ser mais agressivos em sua participação nos mercados locais da América Latina.
Valor: Observamos uma queda forte nos juros locais nesta semana. Como avalia o movimento?
Delgado: As informações em torno da estrutura fiscal, embora possam não ser necessariamente o que o mercado considera ótimo, proporcionam algum tipo de alívio. O mercado passou também a precificar uma postura um pouco mais ‘dovish’ [branda] do BC. O ambiente em que você tem uma taxa terminal do Fed digerível e em que a incerteza de risco político muito provavelmente será reduzida – a comunicação sobre isso tem sido na direção de aliviar as preocupações dos mercados – tem funcionado bem para receber [aplicar, ou apostar na queda das] taxas no Brasil e para a moeda, em termos de volatilidade e apetite dos players.
Valor: Como os investidores globais têm acompanhado os ruídos políticos no Brasil?
Delgado: A situação parece manejável no momento. A sensação pelas comunicações recentes tem sido a de que é provável que a perspectiva fiscal melhore até certo ponto. Mas teremos de conhecer os detalhes. Até agora o ministro da Fazenda mostrou boa comunicação com os participantes do mercado e esperamos que isso continue. O Executivo tem sido mais vocal em relação ao Banco Central, mas foi importante a sinalização de antecipar a apresentação do arcabouço fiscal. A nova âncora é algo que precisamos manter no radar.
Valor: O senhor acredita que as expectativas do mercado para o plano fiscal são elevadas?
Delgado: Se tivermos um plano que, até certo ponto, se concentre mais no controle de gastos do que no aumento de impostos, deve ser positivo para os mercados. Recentemente, tem se falado em uma antecipação da apresentação. Isso é um sinal positivo, mas, novamente, precisamos ver qual é o plano.
Valor: Qual, na sua avaliação, deve ser o cenário para os ativos brasileiros se o arcabouço contemplar menos que o esperado?
Delgado: Os juros futuros deverão ficar mais altos ao longo da curva e o Banco Central deverá manter uma postura mais vigilante, com a [Selic a] 13,75%, em um tom mais ‘hawkish [duro] e mais dependente dos dados. Com esse cenário, a perspectiva deve ser de taxas mais altas e com o câmbio mais penalizado.
Valor: As expectativas de inflação têm exibido forte desancoragem. Como esse processo pode ser interrompido?
Delgado: A deterioração das expectativas de inflação tem relação próxima com a âncora e a incerteza fiscal, mais do que qualquer outro motivo. Uma boa mensagem nessa frente certamente terá um impacto positivo sobre as expectativas inflacionárias.
Fonte: Valor Econômico


