Por Sarah Chaney Cambon, Dow Jones — Nova York
26/01/2023 16h14 Atualizado há 12 horas
A economia dos EUA cresceu a uma firme taxa anualizada de 2,9% no último trimestre, mas começou este ano com menos ímpeto, com o aumento das taxas de juros e a inflação ainda elevada pesando sobre a demanda.
O Departamento de Comércio dos EUA informou ontem que o crescimento no quarto trimestre caiu ligeiramente em relação ao terceiro trimestre, que registrou uma taxa anualizada de 3,2%. Os gastos do consumidor ajudaram a impulsionar o ganho do quarto trimestre, enquanto o mercado de imóveis residenciais esteve mais fraco e as empresas cortaram gastos com equipamentos.
O período de outubro a dezembro de 2022 fechou um ano de desaceleração econômica com um crescimento de 1% ao ano no quarto trimestre, uma forte queda na comparação com o crescimento de 5,7% ao ano do quarto trimestre de 2021. Em parte, a desaceleração é um reflexo da volta a um ritmo de crescimento mais normal depois da disparada da produção com a reabertura de empresas, estímulos fiscais e o declínio da pandemia de covid-19 em 2021.
Os mercados reagiram de forma desigual depois da divulgação dos dados ontem. Os investidores têm examinado com atenção redobrada os dados econômicos em busca de sinais de que o crescimento dos EUA está sob pressão da campanha do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) para elevar as taxas de juro para esfriar a economia e baixar a inflação.
Até o momento, muitos operadores e gestores de carteiras parecem convencidos de que a atividade econômica continua forte o suficiente para que uma recessão neste ano esteja longe de ser uma certeza. Essa conclusão, juntamente com o arrefecimento nos registros da inflação, ajudou a alimentar uma recuperação modesta nos índices de ações dos EUA depois do desastre do ano passado.
O Fed caminha para desacelerar o ritmo de alta do juro em sua próxima reunião na semana que vem e também discutir o quanto mais as aumentará neste ano, enquanto monitora a trajetória da inflação e a evolução de outros indicadores.
O mercado de trabalho esfriou um pouco, mas continua forte. O número de pedidos de seguro-desemprego — um indicador de demissões — caiu na semana passada e ficou perto de seus menores níveis históricos, apesar de os anúncios de demissões estarem se estendendo para além das grandes empresas de tecnologia.
Os trabalhadores tiveram grandes ganhos salariais até o fim de 2022. Isso ajudou os gastos do consumidor, principal motor da economia, a crescerem a um firme ritmo anualizado de 2,1% no último trimestre.
Apesar de alguns sinais de resiliência, dados recentes indicam que consumidores e empresas começam a perder força. No mês passado, as vendas no varejo caíram no ritmo mais acentuado de 2022. Pesquisas com gerentes de compras dos EUA mostraram que em janeiro as taxas de juro mais altas e a inflação persistente afetaram a demanda nos setores de manufatura e serviços. Em dezembro as empresas reduziram o número de funcionários temporários pelo quinto mês consecutivo, um indício de que cortes de postos de trabalho mais abrangentes podem estar à vista.
Muitos economistas estão preocupados com a possibilidade de que haja uma recessão nos EUA este ano. Eles temem que as iniciativas do Fed para conter a inflação possam levar a cortes de gastos generalizados e perda de empregos.
“A turbulência por causa do grande salto nas taxas de juro, o fato de que os consumidores reduziram gastos não essenciais e as economias fracas no exterior foram grandes problemas para os EUA no fim do ano passado”, disse Bill Adams, economista-chefe do Comerica Bank. “Minha expectativa é de que o crescimento real do Produto Interno Bruto [PIB] deve se tornar negativo no primeiro semestre de 2023.”
O fortalecimento dos estoques ajudou a impulsionar o crescimento econômico no fim de 2022. Mas essa é uma categoria volátil.
Segundo o Departamento de Comércio, as vendas finais para compradores privados internos — uma medida dos gastos de consumidores e empresas que estima a demanda subjacente na economia — desaceleraram para um ritmo anualizado de 0,2% no quarto trimestre, em comparação com 1,1% no terceiro trimestre, um sinal de arrefecimento econômico alinhado com os objetivos do Fed.
Um dos setores mais sensíveis às taxas de juro — a habitação — tem tropeçado em meio às altas taxas do crédito imobiliário. O investimento em imóveis residenciais diminuiu ao longo do ano passado, enquanto as vendas de casas já construídas caíram quase 18% em 2022, em relação ao ano anterior.
Alguns economistas dizem que o pior da crise no setor de imóveis residenciais já passou, pois as taxas do crédito imobiliário baixaram de seu pico do outono passado. Mas poucos esperam a volta rápida ao período de bonança de 2021.
Inicialmente, o Fed esperava conseguir a queda da inflação apenas com a desaceleração do crescimento econômico, e não com uma contração completa, um resultado apelidado de “pouso suave”.
“Se continuarmos a ter um forte crescimento do emprego e se continuarmos a ter gastos dos consumidores em serviços, e se as empresas não cortarem [gastos de capital], acho que isso reforça a história do pouso suave”, disse Luke Tilley, economista-chefe da Wilmington Trust.
Os gastos do consumidor aumentaram 1,9% no quarto trimestre de 2022, em comparação com um ano antes, uma desaceleração ante o crescimento de 7,2% no quarto trimestre de 2021, mas próximo dos ganhos de 2019.
O poder de compra dos salários caiu para as famílias de renda média em 2022, enquanto aumentou para as de renda baixa e alta.
Já o mercado imobiliário deve viver outro ano problemático – mas talvez não tão ruim quanto tem sido ultimamente. As taxas de hipoteca vem caindo desde o início do segundo semestre de 2022 e, ultimamente, os construtores de casas não parecem tão pessimistas. Portanto, embora a habitação possa não agregar tanto ao PIB, provavelmente não continuará a arrastá-lo para baixo como no último trimestre.
A economia enfrenta muitos obstáculos no próximo ano, mas também há obstáculos para uma recessão.
Fonte: Valor Econômico


