Por Roberto Lameirinhas — De São Paulo
15/06/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
A alta dos preços das commodities, que se acelerou com a guerra na Ucrânia, deve beneficiar as economias da América da Sul – tradicionais exportadores de alimentos, hidrocarbonetos e metais. Os países da região estão aproveitando a demanda e os preços aquecidos para vender mais e para abrir novos mercados – embora os efeitos sejam diferentes em cada país.
“A economia global parece estar em uma posição mais fraca este ano do que no último superciclo de matérias-primas [que se estendeu do início do século até meados de 2012]”, analisa Fiona Mackie, Diretora Regional para América Latina e Caribe da Economist Intelligence Unit. “Mas claramente, haverá um ganho fiscal para muitos países da região, que se traduzirá em maior investimento, crescimento mais rápido do emprego e mais consumo”, prosseguiu.
Colômbia, Bolívia e Peru estão em melhor posição entre os países da região que podem se beneficiar da alta das commodities. Os três países são grandes exportadores de matéria-prima energética, como gás e carvão. O Brasil é beneficiado por ser um grande exportador de petróleo e bens agrícolas.
Já a Argentina deve registrar neste ano um recorde de exportação puxado pela alta cotação das commodities agrícolas, compensando em alguma medida seus gastos extras com a importação de energia. O país deve exportar 14,5 milhões de toneladas de trigo da safra 2021-2022 – bem acima das 11 milhões de toneladas vendidas na safra anterior e ampliando a exportação para países que compravam o produto da Ucrânia, como Indonésia e Bangladesh. Em termos de valor, a Argentina também espera aumentar sua exportação para US$ 90 bilhões em 2022 – 20% a mais do que em 2021.
Mas o atual ciclo de alta das commodities não beneficia os grandes produtores de metais, como o cobre. O Chile – maior exportador do mundo do metal – deve ver uma queda nas vendas externas por conta principalmente da menor demanda da China – resultado do recente colapso de grandes incorporadoras e desaceleração da economia em meio aos lockdowns contra a covid. Em 2021, o Chile vendeu US$ 53,4 bilhões em cobre, 41% a mais do em 2020, quando a pandemia freou os negócios. A China compra mais de 50% da produção do Chile. A Comissão Chilena do Cobre (Cochilco) estima que a demanda chinesa em 2022 deve ficar pouco acima de 70% das compras do ano passado, mas prevê recuperação para breve.
“O impacto da desaceleração da China nas exportações do Chile deve ser de curto prazo, uma vez que há uma expectativa de recuperação no preço do cobre no mercado internacional no segundo semestre”, diz Juan Carlos Eichholz, diretor da CLA Consulting. “O cobre continuará a ser uma commodity de alto valor em médio e longo prazo e espera-se um grande impulso no preço com o esforço pela eletrificação de veículos.”
Por outro lado, o Chile está se beneficiando da alta dos preços do lítio – fundamental para indústria de baterias e componentes eletrônicos -, assim como a Argentina. Os dois países estão entre os maiores produtores globais do insumo.
“Espera-se um grande crescimento das vendas de lítio da Argentina para a China neste ano”, afirma a secretária-executiva da câmara Argentina-China da Produção Indústria e Comércio, Teresa Chen. “No primeiro trimestre de 2022, a Argentina vendeu US$ 44,5 milhões em lítio para a China e a projeção para o ano é que a exportação anual aumente 105% em relação a 2021”, diz.
No caso do Brasil, a alta dos preços tem compensado a redução do volume de petróleo exportado, principalmente, para a China. Já as exportações de alimentos para os chineses cresceram em volume e valor. No primeiro quadrimestre deste ano, o país vendeu 22,2 milhões de toneladas de soja – quase o mesmo volume de igual período de 2021, mas por um preço 32% mais alto. A exportação de carne bovina para os chineses também cresceu em relação aos primeiros quatro meses de 2021: 37% em volume e 88% em valor.
E, na esteira da escassez de energia causada pela guerra na Europa, a Colômbia fechou contrato para ampliar exportação de carvão para a Alemanha – privada de boa parte do gás russo. O carvão é a segunda maior fonte de receita da Colômbia.
“Os reflexos da crise Rússia-Ucrânia são sentidos em todo o mundo e, sem dúvida, terão consequências para a região em 2022 e nos próximos anos”, diz Mackie, da Economist Intelligence Unit (EIU).
O EIU elaborou um estudo sobre os efeitos da guerra na Ucrânia no desempenho econômico de 19 países da América Latina – que leva em conta também fatores como inflação ao consumidor, dívida pública, dependência de outras commodities e risco de estabilidade política, entre outros, para listar um ranking dos países em condição de mais resistência aos mais vulneráveis aos choques externos. Bolívia, Equador e Paraguai, estão entre os países mais bem posicionados neste ranking.
Fonte: Valor Econômico