Vários aliados dos EUA rejeitaram nesta segunda-feira o apelo de Donald Trump para enviar navios de guerra para escoltar embarcações pelo Estreito de Ormuz, atraindo críticas do presidente americano, que acusou os parceiros ocidentais de ingratidão após décadas de apoio. Após anos de hostilidades por parte de Trump, os aliados na Europa e Ásia não têm pressa em ceder à exigência do líder de enviar navios para uma guerra que ele começou — e que afirma já ter vencido.
Autoridades europeias começaram a discutir nesta segunda-feira a possibilidade de redirecionar uma missão naval do Mar Vermelho para Ormuz, mas a medida exige aprovação unânime e enfrenta a resistência de alguns países, como a Alemanha. Na Ásia, parceiros importantes dos EUA, como o Japão e a Coreia do Sul, também evitaram se comprometer com o envio de navios.
“Alguns estão muito entusiasmados, outros menos, e suponho que alguns simplesmente não farão isso”, disse Trump a jornalistas em Washington, ao ser questionado sobre quais países atenderiam ao seu pedido. “Eles deveriam estar correndo para nos ajudar, porque nós os ajudamos por anos a ficar fora de guerras.”
A relutância não surpreende. Sem um acordo que pare a guerra com o Irã, reabrir a estreita via marítima exigiria o tipo de esforço multinacional que Trump frequentemente ridiculariza, deixando-o dependente de parceiros que ele passou anos pressionando em temas como comércio, gastos com defesa e normas democráticas. Muitos nem creem que isso seja possível enquanto o Irã puder ameaçar a navegação.
Com o foco de seu governo voltado para a guerra que — em aliança com Israel — iniciou no dia 28, também disse segunda-feira que está tentando adiar em cerca de um mês uma viagem muito aguardada à China, prevista para o início de abril. “Solicitamos que isso seja adiado por cerca de um mês”, disse Trump. A embaixada da China em Washington não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
Durante essa viagem, Trump se encontraria com o presidente chinês, Xi Jinping, para resolver as questões tarifárias da guerra comercial movida pelos EUA contra a China.
Envolver os aliados no Irã ajudaria Trump a dividir os riscos — e a responsabilidade política — por uma crise que fez os preços do petróleo dispararem. Mas seu argumento de que os EUA não deveriam arcar sozinhos com a proteção de uma rota que abastece principalmente outras grandes economias tem se mostrado difícil de vender.
Ministros das Relações Exteriores da Europa reunidos em Bruxelas disseram que não querem escalar o conflito. Vários governos indicaram que não têm planos de enviar navios para escoltar petroleiros pelo Estreito de Ormuz.
Trump afirmou que conversou com o presidente francês Emmanuel Macron no domingo e avaliou sua disposição em ajudar como 8 numa escala de 1 a 10: “Não faço muita pressão sobre eles, porque minha atitude é a seguinte: não precisamos de ninguém.”
A hesitação vem após meses de choques entre Trump e líderes europeus em razão das tarifas, da questão da Groenlândia e dos gastos militares dos aliados na Otan. Mais recentemente, nações europeias que apoiam a Ucrânia ficaram contrariadas quando o governo Trump afrouxou as sanções contra a Rússia numa tentativa de controlar os preços do petróleo.
O Reino Unido, aliado mais próximo dos EUA na Europa, disse que não participará de operações ofensivas contra o Irã, embora esteja permitindo que os EUA utilizem suas bases para atacar posições de mísseis. O primeiro-ministro Keir Starmer disse segunda-feira a jornalistas que o Reino Unido está trabalhando com parceiros de segurança para elaborar um “plano coletivo viável” para reabrir o Estreito de Ormuz.
“Não seremos arrastados para uma guerra maior”, disse Starmer em entrevista na sede do governo. “Em última análise, precisamos reabrir o Estreito de Ormuz. Isso não é uma tarefa simples.”
Poucas horas depois, Trump reservou sua crítica mais dura ao líder britânico, dizendo ter ficado “muito surpreso” porque, quando os EUA pediram dois porta-aviões duas semanas atrás, Starmer “realmente não quis atender o pedido”. “Não fiquei satisfeito com o Reino Unido”, disse o presidente.
Publicamente, governos europeus têm evitado rejeitar Trump de forma direta. O Reino Unido está avaliando a possibilidade de contribuir com drones autônomos de caça a minas para os esforços dos EUA, enquanto autoridades de países como a Polônia e a Lituânia afirmam que considerariam a proposta se ela fosse apresentada formalmente na Otan, a aliança militar do Ocidente.
Outros foram mais diretos. “Não devemos fazer nada que contribua ainda mais com a tensão ou uma escalada”, disse o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, nesta segunda-feira em Bruxelas.
“Não temos o aval das Nações Unidas, da União Europeia ou da Otan exigido pela Lei Fundamental”, disse o premiê da Alemanha, Friedrich Merz, em Berlim, acrescentando que Washington e Israel não consultaram a Alemanha antes de lançar a guerra: “Por isso, não se coloca a questão de como a Alemanha poderia se envolver militarmente aqui.”
Algumas autoridades afirmam que o envio de mais navios europeus pouco mudaria o equilíbrio militar. As embarcações poderiam levar semanas para chegar à região e acrescentariam pouco à já substancial presença naval americana.
Fonte: Valor Econômico
