Apesar da perspectiva de um cenário de queda da taxa básica de juros, o mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) demonstra resiliência após um avanço notável em 2025. O movimento é impulsionado pela crescente diversificação de produtos, com destaque para o crescimento dos FIDCs sem classe definida e dos fundos de ativos mobiliários. Essa expansão aponta para uma perspectiva otimista para o segmento em 2026, consolidando os FIDCs como ferramenta cada vez mais relevante no mercado de capitais.
Em 2025, as ofertas no mercado de capitais atingiram o valor recorde de R$ 838,8 bilhões, crescimento de 6,4% ante o ano anterior. Só os FIDCs registraram a maior captação entre os títulos de securitização, com os R$ 90,8 bilhões (aumento de 9,5%), respondendo por 42% da quantidade de ofertas de renda fixa ano passado.
No último ano, o investidor brasileiro começou a ver uma mudança silenciosa, mas concreta no mapa de renda fixa. “Por que eu digo renda fixa? Porque acredito que é o primeiro movimento que em que começamos a falar de FIDC. Vemos, enquanto alguns instrumentos tradicionais ainda assim seguiram relevantes, principalmente pelo patamar de Selic, mas uma parcela relevante do dinheiro começa a buscar, de fato, um prêmio de crédito com muito mais lastro, talvez mais governança, mas, principalmente, mais estrutura”, opina Gabriel Padula, CEO do Grupo Everblue, complementando que, os FIDCs começam a se consolidar com muito mais protagonismo.
O crescimento dos FIDCs em 2025 reflete, na opinião de Volnei Eyng, CEO da Multiplike, uma combinação de fatores que vêm impulsionando essa classe de ativo. “Em primeiro lugar, o ambiente de juros elevados nos últimos anos tornou os FIDCs particularmente atrativos, pois eles oferecem retornos acima dos instrumentos tradicionais de renda fixa ao assumir risco de crédito com mecanismos de proteção como a subordinação de cotas, atraindo tanto investidores institucionais quanto qualificados”, conta.
Mas além da ponta compradora, do lado emissor, a necessidade de empresas por fontes alternativas de financiamento diante de restrições ou custos elevados no crédito bancário também torna a antecipação de recebíveis e outras estratégias de securitização via FIDC promissora. De um lado, há um crédito pressionado e empresas buscando financiamento de maneira mais estratégica, e do outro lado, há investidor a procura de um retorno mais competitivo, sem renunciar a um desenho de risco muito bem construído.
Segundo levantamento da Uqbar com dados da indústria de janeiro a novembro de 2025, entre as teses com maior PL no período, estão recebíveis comerciais, cotas de FIDC, e multiclasse. Apesar desse destaque, segmentos como prestação de serviço público, financiamento de veículos, FIDCs sem classe determinada e os multiclasse tiveram variação anual significativas, que vão de 88% a mais de 40%.

“Essas estratégias ganharam tração porque responderam melhor a um ambiente macroeconômico marcado por incerteza, volatilidade e assimetria de informações”, aponta Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. “Os FIDCs sem classe determinada oferecem maior flexibilidade de alocação e permitem ao gestor ajustar o portfólio conforme a qualidade do crédito disponível ao longo do ciclo, o que se mostrou especialmente relevante em 2025. Já os voltados a títulos mobiliários atendem a uma demanda crescente por estruturas mais padronizadas, com maior liquidez relativa e integração com instrumentos tradicionais do mercado de capitais.”
Para Padula, da Everblue, mais do que a segmentação de tese, o crescimento é com foco em qualidade. “Não é só a cara do recebível, é a pulverização, o açúcar, o agro, o corporativo, são fintechs, são outros. Cada um com uma tese própria de risco, mas que com a estrutura do FIDC, que ela possa ser gerida com a qualidade da originação. A primeira tendência, eu diria, é governança, histórico, disciplina na originação por meio de uma engenharia de risco controlado”, diz o executivo.
Além da confiança na estrutura dos FIDCs, dentro desse crescimento mais amplo, estratégias de FIDCs sem classe determinada e aqueles voltados a títulos mobiliários ganharam tração no último ano por razões ligadas à demanda por maior flexibilidade e diversificação de risco. Eyng, da Multiplike, esclarece que FIDCs sem classe definida ou não padronizados permitem que gestores pensem de maneira mais ampla sobre os tipos de crédito e direitos creditórios que podem adquirir, incluindo créditos com características menos tradicionais ou mais complexos. “Esse tipo de veículo atrai investidores que buscam exposições diferenciadas de risco-retorno e que veem oportunidades fora de estruturas convencionais, especialmente em um contexto em que a regulamentação tem avançado para acomodar mais tipos de ativos e permitir maior diversidade na composição das carteiras”, pontua.
Na Multiplike, as teses são centradas em crédito privado estruturado, com foco em fomento mercantil multicedente/multissacado, “garantindo elevada pulverização entre setores, regiões e tomadores, reduzindo concentração e fortalecendo a resiliência das carteiras”. Já a Everblue tem uma tese ligada ao dia a dia da indústria brasileira com crédito de curto, médio e longo prazo. Na Ouro Preto, o foco são teses de crédito que combinam previsibilidade de fluxo, alinhamento de interesses e estruturas robustas de proteção ao investidor.
“Hoje, nós olhamos a indústria. Por quê? Porque 24% do PIB do Brasil é indústria. Imaginamos que a economia real se beneficie de volume, e entendemos que a indústria tem grandes volumes de oportunidade no crédito brasileiro”, explica Padula, acrescentando que o foco da casa está no financiamento da cadeia produtiva de clientes com operações de antecipações recebíveis, antecipações de contrato capital de giro com colateral em investimento ou colateral em duplicata.
Ainda que não apostem em teses que tomaram os holofotes do mercado, como o consignado privado, Everblue e Multiplike veem potencial na tese e reconhecem que a última mudança nas regras trouxeram mais modernidade e oportunidade de originação com mais tecnologia para os FIDCs que atuam com esse produto. Já a Ouro Preto, entusiasta do consignado privado, vai além da tese em si e menciona que o diferencial está na forma como a casa estrutura e acompanha essas operações, que reúnem características muito relevantes em um ciclo mais desafiador, como baixa inadimplência, desconto direto na fonte de pagamento e elevada visibilidade de caixa.
Para 2026, os gestores mantêm uma visão positiva para o segmento de FIDCs, ainda que deva ser marcado por volatilidade e pelo início do ciclo de corte dos juros, que podem afetar o mercado. Na análise dos executivos, esse é o momento de essa indústria “crescer com qualidade”. “Mesmo com tendência de queda da Selic, talvez os FIDCs se tornem mais atrativos do que agora, porque vão poder entregar um produto mais coerente para o dia a dia da indústria. Hoje eles entregam um produto, mas a indústria tem margem muito apertada, um aperto de caixa muito forte pelo custo do capital. E o FIDC tem que alavancar”, opina Padula, complementando que, com essa visão, independentemente do momento do ano, cuja perspectiva é de volatilidade, o Brasil cresce mesmo com adversidades.
Para Eyng, as perspectivas para os FIDCs permanecem favoráveis, mesmo em um ambiente de queda da taxa básica de juros, visto que a redução dos juros tende a comprimir os retornos absolutos dos instrumentos tradicionais de renda fixa, o que aumenta a atratividade relativa dos FIDCs, especialmente aqueles com estrutura robusta, originação qualificada e mecanismos de proteção bem desenhados. “Além disso, um ciclo de juros mais baixos beneficia diretamente as empresas, que passam a encontrar condições de financiamento mais acessíveis”, lembra.
Lima também está otimista e acredita na atratividade de teses que combinam previsibilidade, proteção estrutural e gestão ativa de risco. “Estruturas de crédito consignado privado e operações com pagamento na fonte tendem a continuar atraindo investidores pela resiliência e estabilidade dos fluxos. FIDCs com garantias reais e níveis adequados de subordinação também devem ganhar destaque em um cenário de crescimento econômico moderado”, aponta.
Fonte: Capital Aberto

