Por Sérgio Tauhata — De São Paulo
08/03/2023 05h03 Atualizado há 6 horas
O mercado de ações global pode enfrentar uma queda de dois dígitos em 2023, afirma o executivo-chefe de investimentos e chefe de alocação da Principal Asset Management, Todd Jablonski. Em entrevista ao Valor, o CIO do grupo americano, que tem US$ 700 bilhões em ativos sob gestão, aponta que os bancos centrais globais vão levar as condições financeiras para um nível restritivo além do esperado por muitos investidores. “Os BCs globais não vão ser amigos dos investidores neste ano”, diz.
O cenário base da Principal projeta uma recessão nos Estados Unidos no fim do ano. A retração, porém, seria “superficial e nada tão profunda quanto a que ocorreu entre 2008 e 2009”. Uma desaceleração econômica mais forte pode ocorrer diante da necessidade de o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) ter não apenas reduzir a inflação, mas assegurar a estabilidade de preços no longo prazo. Para isso, a autoridade monetária pode manter os juros elevados por um tempo mais longo.
Jablonski afirma que a Principal tem recomendação “underweight” (equivalente a venda) para as ações globais, mas enxerga as bolsas emergentes como atrativas, mesmo no cenário-base da casa. A principal aposta é no mercado chinês. O CIO da gestora americana, porém, também cita o Brasil e a América Latina como um todo como mercados atrativos devido ao “valuation” [avaliação de mercado] de empresas historicamente baixo.
Valor: Quais as perspectivas para os mercados em 2023?
Todd Jablonski: Os bancos centrais não serão amigos dos investidores neste ano. Muitos confiaram que os BCs globais iriam continuar impulsionando os mercados. O Fed, no entanto, deve apertar [a política monetária] até [um juro de] 5,25% nos EUA. Esse grau de restritividade para as condições financeiras representa um obstáculo [ao mercado de ações]. Além do nível de aperto, as autoridades monetárias precisam restabelecer a estabilidade de preços a longo prazo. Portanto, acreditamos que os BCs permanecerão muito restritivos para tentar baixar a inflação e estabilizar os preços em níveis mais baixos. Essa postura vai fornecer desafios ao longo do caminho aos investidores que vão precisar se ajustar a um novo regime.
Valor: Os cenários de recessão e estagflação ficaram para trás?
Jablonski: Já ouvi pessoas prevendo um pouso forçado. Mas também já ouvi gente achar que nem mesmo vai ter pouso. Nossa expectativa é que ocorra uma breve recessão superficial, não particularmente profunda, certamente não no nível visto em 2008 e 2009. Essa perspectiva é sustentada pela falta de desequilíbrios significativos na economia global. A dívida parece geralmente em níveis mais baixos que em crises anteriores. Os bancos foram fortalecidos e os níveis de capital são bastante bons. Portanto, não esperamos recessão tão profunda quanto em 2008 e 2009 [na crise financeira global].
Processo mais lento de desinflação nos Estados Unidos pode levar o Fed a manter os juros altos por mais tempo”
Valor: Mas qual potencial para uma queda adicional das ações?
Jablonski: Acho que certamente existe potencial para perdas de dois dígitos nos mercados globais de ações. Porém, eu não destacaria isso como sendo uma circunstância particularmente fora do comum. Estamos [com recomendação] ‘underweight’ para ações nos EUA. Os fundamentos das empresas começam a desacelerar, com as margens sendo revistas e os lucros caindo. Portanto, há razões para manter avaliação mais cautelosa com o mercado de ações americano. Mas o cenário também traz opções de ganhos em outras regiões e classes. Olhamos positivamente, por exemplo, para as ações de mercados emergentes, como a China, bem como os valuations na América Latina. Acreditamos [no caso dos emergentes] em um potencial de retorno bastante atraente. Ao mesmo tempo, se os investidores pensarem nas possibilidades de queda das ações globais, como mencionei, estando perto de dois dígitos, os encorajamos a considerar a renda fixa básica. Agora, no espaço do dólar, a renda fixa [prefixada] enfrentou desafios no ano passado, na medida em que o risco de taxa e os juros aumentaram, os preços dos títulos diminuíram.
Valor: Como os investidores podem se proteger de um ambiente de juros mais elevados?
Jablonski: Para 2023, os investidores podem se beneficiar jogando na defesa de modo inteligente. Potencial de ganho nem sempre é adicionar risco ao portfólio. Portanto, o primeiro passo pode ser reduzir o apetite pelo risco, subponderar ações e aumentar [alocação em] renda fixa e [classes] alternativas para reduzir a volatilidade do portfólio. Nos Estados Unidos, apesar da tendência geral de queda da bolsa, achamos que as ações de média capitalização [‘mid caps’] são uma oportunidade interessante. As ações de grandes companhias [‘large caps’] estão particularmente caras. As mid caps também abrangem setores que têm mais potencial de valorização do que o que vemos no lado das large caps. Também gosto de títulos do tesouro americano, hipotecas com grau de investimento e títulos preferenciais [‘preferred securities’] dentro da renda fixa. Os títulos preferenciais são instrumentos híbridos que ficam no meio do caminho entre ações e dívida, geralmente, emitidos por bancos, seguradoras e fundos imobiliários. Os títulos preferenciais podem trazer rendimento em um nível de risco e uma qualidade de crédito melhores que os títulos ‘high yield’ [alto risco e alto retorno]. Também gostaria de destacar que gostamos de ações de emergentes. A história da reabertura da China ainda tem muito a avançar e impulsionar o crescimento.
Valor: Qual o seu cenário base para os juros nos EUA?
Jablonski: Em nosso cenário base, o Fed chegará a uma faixa de 5% a 5,25% como taxa terminal, e acreditamos que isso seja suficiente para atingir o nível de estabilidade de preços exigido nos EUA. A inflação atingiu 9% no início do ano passado nos Estados Unidos. Esse é um patamar que muitos participantes do mercado e investidores nunca imaginavam ser possível. Acredito que o Fed vai ter de manter o nível [terminal] de restrição para conter o excesso de demanda. Além disso, o mercado de trabalho dos EUA não é tão fácil de ler quanto costumava ser. Os dados de emprego sempre são um indicador atrasado. Antes da pandemia, sete em dez americanos adultos faziam parte da força de trabalho. Após a pandemia, seis em dez americanos fazem parte da força de trabalho. Portanto, houve remoção substancial da oferta de mão de obra. Desse modo, embora a mão de obra pareça apertada, pode ser um conjunto enganoso de estatísticas.
Valor: O senhor já mencionou em artigos o risco de volta de pressão inflacionária. O Fed pode retomar o aperto monetário?
Jablonski: Quando penso em pressões inflacionárias adicionais não vejo como forças aumentando o ritmo da inflação ano após ano. O que vejo é uma desinflação acontecendo mais lentamente. Minha impressão é que levará mais tempo para a desinflação ocorrer. Muitos investidores estão preocupados com a necessidade de aperto adicional [da política monetária pelo Fed]. Até ouvi participantes do mercado declararem que uma taxa de 6% seria necessária. No entanto, isso deveria acontecer? Eu acho que isso daria força adicional ao dólar americano e seria bastante negativo para ativos de risco, como ações e crédito high yield.
Valor: O sr. enxerga as ações baratas no Brasil?
Jablonski: Gosto das histórias de valuations no Brasil e na América Latina. Quando você olha para a história do mercado da América Latina, especialmente o Brasil, trata-se de desbloquear valor de longo prazo. Mas gosto da ideia de uma diversificação que pode incluir um investimento em ações no Brasil. A bolsa local tem sido impulsionada principalmente por uma visão positiva do valuation, já que está historicamente barata em comparação a outros mercados de ações. Os valuations estão atrativos em toda a América Latina. Mas, ao mesmo tempo, como investidor, tenho que ser paciente quando penso nas ações brasileiras. Vai demorar algum tempo para desbloquear valor e serão necessários catalisadores para impulsionar o preço/lucro e outros múltiplos para patamares mais altos.
Valor: Há um debate internacional sobre revisão de metas dos BCs diante de uma mudança estrutural da inflação. O sr. vê também essa possibilidade?
Jablonski: É bem possível a inflação subir mais do que, talvez, as metas do bancos centrais. Assim, começaremos a ver as expectativas de longo prazo mudarem. Até o momento, as expectativas de inflação de longo prazo na maior parte do mundo permanecem baixas. Acho que os bancos centrais precisam ficar de olho nessas expectativas de inflação de longo prazo. Porque se eles flutuarem mais alto que o intervalo atual, não funciona. Os BCs realmente precisam retornar à estabilidade de preços a longo prazo. Se isso estiver entre 2%, 2,5% acima da análise histórica, acredito que seja o nível apropriado daqui para frente. A revisão de metas é assunto de debate. De qualquer modo, se a inflação for muito alta, é negativo para o desenvolvimento econômico.
Fonte: Valor Econômico