Por Matheus Prado — De São Paulo
02/02/2024 05h02 Atualizado há 2 horas
Para o mercado de ações, não faz tanta diferença em qual das suas próximas reuniões o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vai começar a cortar juros, diz André Lion, sócio e gestor de ações da Ibiuna Investimentos, em entrevista ao Valor. “E, quanto mais postergar, maior será o processo de redução”, o que tende a derrubar taxas globalmente e beneficiar ativos de renda variável.
Não obstante, o gestor acredita que a correlação mais alta entre bolsa e juros vai perdurar por algum tempo porque persiste a dúvida sobre qual é o juro de longo prazo recorrente americano e, consequentemente, do mundo. “Se o rendimento do Treasury de 10 anos voltar para 3,5%, por exemplo, podemos ter outra rodada de reprecificação dos ativos. A discussão é sobre em que patamar o juro americano vai parar.”
A Ibiuna enxerga algum desconto na bolsa local e espera que haja recomposição nos lucros das empresas, mas não acredita em avanço indiscriminado do Ibovespa. As principais apostas são em empresas domésticas de qualidade, como Localiza e Vivara, e em outras teses descontadas, como Eletrobras, Vale e Petrobras.
Valor: O rali de fim de ano foi exagerado?
André Lion: Não há dúvidas de que o mercado subiu rápido demais, o que faz com que este começo de ano meio murcho seja bem bem razoável. É uma consolidação. Mas estamos no meio de um ciclo de corte de juros aqui no Brasil e, normalmente, os cortes começam a bater na economia real após seis, nove meses do início do ciclo. Devemos começar a sentir aquele vento de cauda, que ajuda, no segundo trimestre. Vai ser algo sensacional, maravilhoso? Não, mas vai continuar reduzindo o custo de capital para as empresas brasileiras. Alguns dados até já mostram alguma melhora, apesar de ainda ser prematuro, e é com isso que estamos jogando. Temos uma discussão sobre qual será a Selic ‘terminal’, o que eu considero até menos relevante para a bolsa, mas a tendência é que seja abaixo de 10%, mais próxima de 9%. E isso é uma normalização de ciclo, depois do juro ter ido a 2% e a quase 14%, que já provoca alguma reação nas companhias domésticas. Para ficarmos ainda mais otimistas, precisaríamos ver o crescimento do Brasil acelerando acima das expectativas e/ou uma queda significativa dos riscos fiscais ou das interferências microssetoriais.
A discussão é sobre o patamar em que a taxa de referência [de juros dos EUA] vai parar”
— André Lion
Valor: O início do ciclo de flexibilização do Fed pode ajudar?
Lion: Após a indicação do Fed de que irá cortar juros em 2024, para o mercado de ações, não faz tanta diferença quando vai começar o ciclo e, quanto mais postergar, maior será o processo de redução. Naturalmente, a incerteza gera um nervosismo no mercado, mas, em termos de renda variável, o que se monitora é o Treasury de 10 anos, que já voltou a operar abaixo dos 4% mesmo após o Jerome Powell [presidente do Fed] dizer que é pouco provável que haja um corte já na reunião de março. Quando o Fed suavizou seu discurso no fim do ano passado, o juro de longo prazo cedeu e abriu margem para ganhos em todos os ativos. Minha impressão é que não passa de maio [o início] e acredito que essa correlação um pouco mais alta entre bolsa e juros ainda vai perdurar por algum tempo, porque estamos saindo do ciclo anterior, de juro baixíssimo. Ainda existe uma dúvida sobre qual é o juro de longo prazo recorrente americano e, consequentemente, do mundo. Se o Treasury voltar para 3,5%, por exemplo, teremos outra rodada de reprecificação dos ativos. A discussão é sobre o patamar em que a taxa de referência vai parar.
Valor: Espera impactos da discussão fiscal local nos ativos?
Lion: O mercado vai ficar dependente de dados. Acho que ninguém acredita que o governo vai entregar o déficit zero e economistas projetam saldo negativo de 0,5%, 0,8% do PIB. Se for isso, parece que está mais ou menos precificado. Se nós começarmos a ver que a discussão está migrando para algo como 1%, 1,5% do PIB, o cenário começa a piorar. E o primeiro ponto de atenção é a revisão da meta em março. Não só os números em si, mas como é que vai ser o posicionamento e o discurso do governo.
Valor: Muito se fala do nível de desconto da bolsa em termos de múltiplos e como isso será um gatilho de alta mais à frente. Concorda com essa leitura?
Lion: Se analisarmos a janela entre 2015 e 2022, estamos absolutamente fora da média, mas se o foco estiver em períodos anteriores, o patamar atual não está tão distorcido assim. Nosso referencial é o IBX desde 2008 com quatro divisões: estatais commodities; estatais não commodities; não estatais commodities; não estatais não commodities. Ao avaliar isso, a resposta para a afirmação de que a bolsa como um todo ainda tem muito para subir é: depende. Podemos dar o exemplo dos grandes bancos, que cresceram e não vão continuar crescendo no mesmo ritmo em que cresciam há cinco, dez anos atrás. Isso demanda ‘valuations’ mais baixos. Esse tipo de coisa é o que afeta um pouco esse raciocínio de que tudo está barato. Dito isso, existem oportunidades e aumentamos um pouco a exposição, especialmente em domésticas. Gostamos muito de Localiza, mas tem outras que nós não gostamos. Não é o momento para comprar qualquer coisa e esquecer.
Valor: Haverá uma recomposição de lucros de dois dígitos no Ibovespa, como o consenso indica?
Lion: Dois fatores devem jogar a favor dessa recomposição. Imagine a Selic média de 2023 e a Selic média de 2024. Só isso já vai acarretar uma diminuição da despesa financeira de todas as empresas. E, quanto mais alavancada, mais benefício. A outra coisa que deve ocorrer é uma reaceleração da atividade, que também ajuda. Mas todo mundo vai crescer? Aí vem, de novo, a seleção de ativos, porque diferentes setores têm diferentes aspectos que influenciam no aproveitamento ou não dessa melhora.
Valor: Mesmo depois das perdas recentes, o varejo pode continuar fora do radar dos investidores?
Lion: Eu não sei qual vai ser o impacto, especialmente da subvenção do ICMS, nas empresas que têm essa exposição. Então, é possível que haja melhora da atividade, do juro e até o crédito acelerando e as ações continuarem performando mal, porque os lucros estão sendo afetados pelo mecanismo. As companhias não estão falando muito sobre isso, mas, pelas nossas contas, algumas podem perder 10%, 15%, 20%, 30% dos lucros. É muita coisa. Como não temos visibilidade, temos zero exposição.
Valor: Ainda gosta de Petrobras?
Lion: Carregamos há anos, porque vimos lá atrás que a empresa tinha passado por um processo de reestruturação financeira que a colocava em uma posição muito especial. A empresa apreciou por causa disso e a quantidade de dividendo gerado e devolvido ao acionista foi impressionante. Pensando em 2024 e 2025, e apesar do desconto ter diminuído, o papel ainda nos parece atrativo. A nova gestão está fazendo alterações, mas que, por enquanto, são pontuais na sua maioria. Estamos à espera para ver como fica a política de dividendos, mas é bastante possível que haja um pagamento complementar relevante. Mesma coisa é a política de preços. A paridade está lá, apesar de ser um pouco mais lenta. A empresa está andando, mas tem que monitorar.
Valor: E a Vale?
Lion: O preço do minério está no patamar dos US$ 130 e a empresa está operando nesse nível, gerando muito caixa. E tem um detalhe geopolítico. Recentemente, a China parece ter percebido que foi muito agressiva contra o mercado financeiro em alguns ajustes, então existe uma expectativa de normalização, o que também é positivo. Mas eu não tenho a expectativa de projetar China. Tem muitas dimensões, muitas variáveis que impactam. Nos veículos em que podemos, montamos proteção.
Valor: O investidor local foi vendedor de bolsa no ano passado, enquanto o estrangeiro aportou R$ 40 bilhões. Essa dinâmica pode mudar em 2024?
Lion: Seria razoável imaginar o investidor local começando a migrar um pouco de volta. Agora, a intensidade desse fluxo eu não sei dizer, e deve ser mais relevante no segundo semestre. É relativamente fácil construir um cenário em que tudo vai dar certo este ano, especialmente para o estrangeiro. Das alternativas emergentes, Rússia não existe mais; China não é investível; Índia está caro; México é pequeno. Se o Fed começar a cortar juros e não tivermos nenhum susto de inflação, nem aqui nem lá, é um cenário benigno. Mas não dá para ter isso como cenário-base.
Valor: O que espera da janela de ofertas de ações que já começa a abrir em 2024?
Lion: Sempre nos perguntam se há espaço, se dá para lançar oferta de ações. Para empresas boas, sempre tem. Se a empresa é boa e o preço é razoável, sempre temos interesse. O problema está nas empresas que não estão maduras o suficiente para ir à bolsa ou a preços que são desproporcionais. Na última janela, tivemos vários casos que se encaixam nas duas categorias, e vimos o resultado disso. Acredito que a janela de 2024 vai ser um pouco mais razoável, porque estamos há quase dois anos com as empresas maturando e num ambiente que não é pujante, o que evita aquele cenário de “todo mundo querendo comprar qualquer coisa a qualquer preço”. Deve esquentar no pós-Carnaval, com um pouco mais de clareza sobre os cenários de atividade e juros.
Fonte: Valor Econômico