Recentemente escrevi um artigo neste espaço sobre risco de crédito, em que abordei as principais características desta classe, ou subclasse, de ativos. Resumidamente, ativos de crédito embutem um risco associado a qualidade do tomador de crédito e costumam oferecer uma rentabilidade tanto maior quanto pior for a percepção sobre a capacidade de pagamento do emissor.
Os pedidos, quase simultâneos, de recuperação judicial de GPA (Pão de Açucar) e Raízen foram os gatilhos para aquele artigo e, agora, volto ao tema motivado pela compressão dos spreads de crédito ocorrida em março em virtude das incertezas provocadas pela guerra EUA e Israel contra Irã. Situação que pode se agravar caso o conflito se prolongue.
Em conversa com um amigo percebi que ele estava bastante confuso sobre o que estava acontecendo com os preços, ou valor, dos seus ativos de renda fixa e já pensava em vender “tudo” e partir para o conforto de um CDB-DI de um grande banco ou uma LFT (Letra Financeira do Tesouro), ou seja, o refúgio do binômio baixo risco e alta rentabilidade.
Comecei a conversa o aconselhando a não tomar qualquer decisão precipitada ou intempestiva. O confronto era até previsível, mas ninguém previa algo de tal dimensão e menos ainda que pudesse se estender tanto. Hoje não é possível dizer quando ele terminará, mas as idas e vindas e a guerra de narrativas criaram tal clima de incerteza que ninguém arrisca um palpite sobre seu término. A estratégia do Irã, de bombardear os países vizinhos e fechar o estreito de Ormuz, deu outra dimensão ao conflito que ultrapassou as fronteiras da geopolítica e alçou a esfera geoeconômica.
Como não é possível saber quando e como terminará, melhor aguardar e tomar uma decisão muito bem pensada.
Contudo, não é possível atribuir todas as frustrações e perdas ao crédito privado. As taxas de juros subiram, as curvas de juros que caminhavam em ritmo controlado e descendente inverteram o sinal e subiram. Neste ambiente de extrema incerteza, amplificada por tantas informações desencontradas, as taxas de juros bailam ao som do ruído, a volatilidade de curto prazo é alta e os preços dos ativos oscilam no mesmo ritmo.
Crédito privado é uma subclasse da classe renda fixa, impossível imaginar que o comportamento das taxas de juros não venha a afetar todos os ativos que a compõem. Sobre o crédito privado, em específico, sua remuneração é composta de um adicional para remunerar o risco do emissor, o denominado spread de crédito.
Havia uma sobre demanda por ativos de crédito privado no período anterior ao início da guerra. Notadamente, os ativos isentos, para pessoas físicas, de imposto de renda como CRI, CRA, debêntures incentivadas, Fundos de Infraestrutura e outros tantos estavam com alta procura em função da isenção. Não é hoje que o brasileiro tem preferência por este tipo de ativo. A situação é tal que é corrente no mercado a brincadeira de que o investidor sequer faz conta para verificar se o benefício faz sentido, ele decide mais pela isenção que pela rentabilidade.
A lei da oferta e demanda é certeira. Muitos investidores dispostos a comprar títulos isentos fazem com que seus preços subam, o que significa que, ao venderem por preços mais elevados, os emissores pagam menores taxas de juros.
No final do ano passado, devido ao projeto que propunha reduzir a isenção para estes produtos, o mercado viu algo similar. Enquanto o projeto estava em discussão, observou-se que um alto fluxo de capital foi direcionado para eles e, portanto, suas taxas foram comprimidas, movimento que foi revertido tão logo o projeto foi rejeitado.
O efeito do sobe e desce das taxas de juros impacta os preços dos títulos e a isto se dá o nome de marcação a mercado. Pode parecer ruim, mas ela protege o investidor ao revelar a cada momento o quanto ele realmente tem investido, e ainda, permite que ele conheça a volatilidade de sua carteira.
Além de esperar, observar e decidir com calma sobre a venda dos títulos de crédito privado, a segunda lição para meu amigo é que, é necessário, sempre, antes de investir em algum ativo, verificar se o preço é condizente com seu histórico de mercado e fundamentos.
Observando a paridade entre títulos públicos corrigidos pelo IPCA e títulos de crédito privado similares, seria possível inferir se estes últimos estavam caros ou não. Talvez o grande erro tenha sido comprar por preço mais elevado do que seria o justo.
Antes de comprar qualquer ativo é importante analisar seus fundamentos e verificar se o preço está alinhado. Caso esteja acima do que pode ser considerado justo, a perda, para o investidor, é questão de tempo.
Hudson Bessa é economista, sócio da HB Escola de Negócios e da Spot Capital Consultoria de Investimentos e professor na Administração da ESPM-SP.
Fonte: Valor Investe