Logo nas primeiras aulas, os alunos dos cursos de finanças aprendem que a principal função do mercado financeiro é fazer a alocação eficiente dos riscos entre os diversos agentes.
Considere, por exemplo, uma empresa que precise de recursos para investir no aumento da produção. Se resolvesse buscar o dinheiro no mercado bancário, poderia tomar um empréstimo para aumentar o capital de giro. Mas se quisesse recursos de outros sócios para a empreitada, poderia emitir novas ações da companhia para serem vendidas no mercado de capitais.
Para o empresário, são riscos diferentes. Se escolher o financiamento bancário, assumirá a responsabilidade de pagar os juros do empréstimo no vencimento do contrato, a despeito do que acontecer com o negócio. Se optar pela operação no mercado de capitais, terá que abrir mão de parte do lucro que conseguiria.
Na prática, as operações financeiras acabam sendo divididas entre os negócios típicos dos bancos comerciais e as transações realizadas por intermédio do mercado de capitais. Durante muitos anos, inclusive, essas atividades foram legalmente segmentadas.
A atividade de um banco comercial é relativamente simples. O banco tem uma base de clientes, capta recursos desses correntistas, empresta para outros clientes e oferece uma série de serviços relacionados aos pagamentos e recebimentos que viabilizam as operações comerciais da clientela.
É uma atividade lucrativa e, teoricamente, sem grandes sobressaltos, desde que não ocorram graves crises econômicas. O crescimento dos negócios é lento e baseado na confiança e no relacionamento com a base de clientes.
Já as operações no mercado de capitais têm características diferentes. O que realmente importa para a instituição ter sucesso é a criatividade dos seus especialistas e a capacidade de executar as transações propostas.
Por exemplo, o diretor financeiro de uma companhia pode estar preocupado em proteger os valores que a empresa tem a receber de uma possível desvalorização cambial. Uma solução “sob medida” pode envolver operações nos mercados derivativos que serão executadas pela instituição financeira, em nome da empresa.
Essa lógica vale também para os investidores. Quem quer investir em operações seguras pode procurar o certificado de depósito bancário (CDB) de um “bancão”. Se quiser uma aplicação mais agressiva, pode escolher um fundo de investimento mais arrojado oferecido por uma plataforma de investimento.
Os bancos têm um tipo de regulamentação coordenada pelo Banco Central (BC). A principal preocupação do BC é evitar o chamado risco sistêmico, que é quando o problema com um banco afeta toda a credibilidade do sistema bancário.
Já as atividades das instituições que atuam no mercado de capitais têm uma outra lógica de supervisão. Liderada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a principal preocupação é que os produtos oferecidos aos investidores sejam ofertados de forma transparente, para que os riscos envolvidos fiquem evidenciados.
Para ilustrar, considere o investimento em um CDB. O BC regulamenta a relação entre o montante total captado pelo banco e o patrimônio da instituição. E oferece ao investidor a proteção adicional do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Já um fundo de investimento pode ter o grau de risco que o gestor quiser, desde que isso seja informado corretamente nos documentos públicos. E, nos materiais de venda, o distribuidor do fundo precisa deixar claro os riscos do investimento, inclusive que a aplicação não tem a proteção do FGC.
Recentemente, com o aumento das taxas de juros, a demanda por títulos de renda fixa disparou. Para suprir o interesse dos investidores, as instituições que atuam no mercado de capitais desenvolveram uma espécie de produto que ficou conhecido como “CDB com garantia do FGC”. O atrativo para o investidor é que a remuneração é significativamente acima do 100% do CDI oferecido pelos “bancões”.
O CDB com garantia do FGC é rentável para o distribuidor, porque as comissões de venda são elevadas. A aplicação é atraente para o investidor porque tem uma excelente remuneração. E é interessante para o banco emissor porque permite acessar uma base de clientes que demoraria muito tempo para atingir, queimando etapas.
Só que essa engrenagem gerou uma enorme distorção na alocação eficiente do risco, porque o FGC assumiu sozinho uma boa parcela do custo de proteção do sistema bancário. E criou uma situação que precisa ser revertida de alguma forma.
Marcelo d’Agosto é economista especializado em administração de investimentos com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro.
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Fonte: Valor Econômico


