Por Martin Wolf
11/10/2023 05h03 Atualizado há 4 horas
Os últimos quatro anos trouxeram consigo três choques enormes: a covid; a desestabilização pós-covid dos suprimentos; e a invasão da Ucrânia pela Rússia, com as subsequentes disparadas dos preços das commodities. Será que esta série de grandes choques agora acabou? O ataque mortal a Israel e o conflito em Gaza sugerem que a resposta pode ser “não”. As recentes turbulências nos mercados de bônus são outra marca de persistente falta de previsibilidade.
Diante disso, a análise cuidadosamente preparada da mais recente “Perspectiva Econômica Mundial” do Fundo Monetário Internacional (FMI) pode já estar um pouco desatualizada. No entanto, ela é, como sempre, muito proveitosa. O que ela nos diz é ao mesmo tempo estimulante e perturbador. A economia mundial se mostrou resiliente, mas seu desempenho se deteriorou no mais longo prazo, associado a uma divergência de desempenho entre países ricos e pobres com relação às expectativas.
Comecemos pela resiliência. Seguem-se três desdobramentos estimulantes: o FMI não teve necessidade de fazer quaisquer alterações significativas às suas previsões de abril; a turbulência financeira do primeiro trimestre do ano – com o colapso dos bancos regionais americanos e do Credit Suisse – se dissipou; e, o que é mais importante, há crescentes evidências de que a inflação poderá ser reduzida à meta sem recessões. Portanto, a desinflação pode se revelar mais “imaculada” do que eu tinha previsto.
A “Perspectiva Econômica Mundial” (PEM) observa que os mercados de trabalho continuam sólidos em muitos países de alta renda, sem “espirais salários-preços” comprovadas. Há evidências, também, de “compressão salarial”, com a expansão dos salários mais baixos em relação aos mais altos. A PEM sugere que isso talvez se deva ao valor representado pela comodidade do trabalho flexível e remoto para trabalhadores qualificados, que estão preparados para trabalhar em casa por menores salários.
Coletivamente somos ruins em pensar e agir de maneira sensata e, neste exato momento, estamos piorando, com o caos em Washington, a guerra criminosa movida pela Rússia contra a Ucrânia, o fracasso em alcançar qualquer tipo de paz entre Israel e os palestinos
No entanto, persistem significativos riscos de curto prazo. Um deles é o de que a crise imobiliária chinesa se agrave, e muito. Outro é a possibilidade de nova volatilidade nos preços das commodities. Outro ainda é o enfraquecimento do consumo com o esgotamento das poupanças da era da covid, principalmente nos EUA. E mais outro é que a inflação se mostre mais resiliente do que o previsto: o fato de parecer possível baixar a inflação sem uma recessão não é motivo para abandonar esse esforço prematuramente. Finalmente, a política fiscal vai se revelar mais fortemente apertada neste novo mundo. Isso significa, especialmente, que os países em desenvolvimento enfrentam dificuldades com dívidas onerosas. Novos choques financeiros parecem prováveis.
Além disso, e infelizmente, resiliência não implica um bom desempenho. Assim, em 2023, a produção mundial será cerca de 3% mais baixa do que se previu antes da pandemia. E, o que é pior, essas perdas são pequenas nos países de alta renda: nos EUA, chega a haver até um ligeiro ganho. Mas, nos países emergentes e em desenvolvimento o impacto foi mais adverso. Isso reflete a capacidade muito maior dos países de alta renda de lidar com choques, em relação aos mais pobres, que não conseguem criar vacinas ou tomar dinheiro emprestado em condições baratas. Assim, a pandemia, a guerra na Ucrânia e os choques climáticos reverteram décadas de tendências de redução da pobreza: segundo o Banco Mundial, em 2022, viviam em extrema pobreza 95 milhões de pessoas a mais do que em 2019.
Esse desempenho econômico precário e divergente tem de ser colocado em um contexto de mais longo prazo. A PEM observa que houve uma queda de 1,9 ponto percentual nas perspectivas de crescimento global de médio prazo de 2008 a 2023. A queda é geral. Mas é especialmente significativa no caso dos países em desenvolvimento. O número de anos previsto como necessário para que países emergentes e em desenvolvimento fechem metade da diferença de renda per capita que os separa das economias de alta renda aumentou significativamente, e partir dos 80 anos, das projeções do relatório do FMI de abril de 2008, para os cerca de 130 anos, das projeções de abril de 2023. Paralisa-se o curso da história auspiciosa da convergência econômica.
Teremos mais dificuldades de longo prazo pela frente. Uma delas é o clima: o mundo vivenciou seu setembro (verão, no hemisfério Norte) mais quente de todos os tempos no mês passado, após ter ultrapassado o recorde anterior em “extraordinário” 0,5°C. Além disso, se as taxas de juros reais vão subir permanentemente, como acreditam alguns, as condições para os investimentos e para o crescimento de longo prazo também se deteriorarão permanentemente, exatamente num momento em que é necessária uma enorme disparada dos investimentos para enfrentar os desafios do clima e alcançar as metas mais amplas de desenvolvimento. O fraturamento da economia mundial, com o crescente protecionismo e a intensa competição geoestratégica, tende a intensificar tudo isso. No pior dos casos, as cicatrizes dos últimos anos vão se revelar não apenas irreversíveis como também prenúncios de um desempenho permanentemente prejudicado.
Em última análise, estes são todos essencialmente problemas políticos, o que constitui outra maneira de dizer que são quase insolúveis. Temos os recursos e a tecnologia necessários para administrá-los. Não há bons motivos para tantas pessoas viverem em circunstâncias tão terríveis. Também não há motivos para deixarmos de enfrentar o clima e outros desafios ambientais. Mas, para fazer isso temos de reconhecer nossos interesses comuns, a necessidade de ação coletiva e a iminência do que imaginávamos, até recentemente, serem possibilidades remotas.
Coletivamente somos ruins em pensar e agir de maneira sensata e, neste exato momento, estamos piorando, uma vez que vêm a nu o caos em Washington, as más escolhas de política pública na China, a guerra criminosa movida pela Rússia contra a Ucrânia, o fracasso em alcançar qualquer tipo de paz entre Israel e os palestinos e a incapacidade de evitar algumas das consequências dos recentes choques para os países pobres.
Nas reuniões anuais em Marrakesh, os formuladores de políticas públicas precisam pactuar um enorme aumento dos recursos para o FMI e o Banco Mundial. Quase todo mundo sabe disso. Será que vai acontecer? É preciso ter dúvidas quanto a isso. Mas deveria. Chegou a hora de a humanidade crescer um pouco. (Tradução de Rachel Warszawski).
Martin Wolf é editor e principal analista econômico do Financial Times
Fonte: Valor Econômico