A recepção dos agentes locais à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central foi mista. Enquanto parcela do mercado apostava e preferiria ver um tom mais duro na comunicação da autoridade monetária diante da recente depreciação do câmbio e da desancoragem das expectativas de inflação, outra parte dos investidores avaliou a decis
O mercado local também foi pressionado pelos temores de recessão na economia dos Estados Unidos, o que acabou afetando em cheio o real e as moedas de países emergentes.
No fim da sessão, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2026 cedeu de 11,625% para 11,565%, enquanto a do DI para janeiro de 2029 subiu de 11,99% para 12,025%. O dólar avançou 1,43%, cotado a R$ 5,7349.
Na visão do gestor de renda fixa da Kinea Investimentos, Denis Ferrari, o comunicado do Copom foi bom e a autoridade fez um diagnóstico correto do cenário. A reação do mercado, assim, era bastante coerente até o cenário externo exibir uma piora forte e acabar contaminando os ativos locais.
“O comunicado mostrou preocupação, mas sem um certo exagero que parte do mercado gostaria. Acho o diagnóstico do BC bem justo. Mostra que eles podem, em algum momento, ter que discutir alta de juros e, se for necessário, isso vai ser discutido. Talvez até subam, mas não é iminente”, afirma.
Ferrari também avalia que não é recomendável que a política monetária tente endereçar um problema de desvalorização cambial. “O câmbio responde muito mais a fatores externos e não deveria se fazer política monetária pensando em segurar o câmbio”, afirma.
O gestor diz manter posições que ganham com a queda dos juros curtos no mercado local. “Acho que a barra para subir em setembro ainda é alta. Pode acontecer, mas o Focus precisaria seguir piorando e o real ultrapassar os R$ 5,80. Ainda assim, nesse cenário, acho que ele [o BC] poderia dizer que o balanço de riscos passou a ser assimétrico e subir em novembro”.
Por outro lado, o sócio e cogestor macro da Tenax Capital, Sergio Silva, aponta que houve uma deterioração rápida nos ativos locais recentemente, o que acabou consumindo uma certa “gordura” que o Copom tinha para manter sua estratégia de levar a inflação para a meta com a Selic parada em 10,5%.
Nesse contexto, na avaliação do gestor, o Copom poderia ter emitido um alerta um pouco mais duro e, assim, a leitura da ata será bastante importante para entender as discussões dentro do colegiado. “Estamos vendo a moeda a R$ 5,70, é um patamar muito mais alto do que vimos há seis meses. Ainda existe a necessidade de implementação do fiscal e o compromisso com as metas para o médio prazo, o que poderia levar a uma diminuição do prêmio de risco que o mercado cobra. Não há nada que indique, por ora, o cenário melhorando e as coisas convergindo para um patamar mais baixo. Se esse é o caso, quanto mais rápido você agir, menos teria que reagir”, diz Silva.
Mesmo após o Copom ter evitado sinalizar que pretende subir os juros no curto prazo, o cenário ganhou força entre participantes do mercado. Embora mantenha a expectativa de que a Selic deve voltar a cair em dezembro em seu cenário base, o UBS BB avalia que há “riscos crescentes” de elevações nos juros ainda este ano e trabalha com 30% de chance de chance de o BC ser forçado a aumentar a taxa básica em setembro.
“A resposta esperada da política monetária e uma política fiscal subsequente mais branda nos deixam com um cenário alternativo de três aumentos de 0,5 ponto percentual em setembro, novembro e dezembro”, o que levaria a Selic para 12% no fim deste ano, com uma retomada na flexibilização monetária no início de 2025.
No contexto atual de incertezas elevadas, a Tenax, segundo Silva, mantém neste momento apenas posições táticas na curva de juros e tem montado apostas pensando em um horizonte mais curto de investimento. “Parece que temos um futuro desafiador em relação ao compromisso fiscal. Isso tem explicado, em parte, o desempenho inferior dos ativos do Brasil que temos acompanhado”.
Já o estrategista-chefe da BGC Liquidez, Daniel Cunha, também avalia que a recepção do mercado ao comunicado do BC acabou contaminada pelo exterior. “Vimos uma sessão de aversão ao risco, em particular, de forte movimentação no mercado de moedas, que tem dificultado isolar o ‘fator pós-Copom’ nos ativos. De todo modo, arrisco dizer que a decisão foi bem recebida, dentro do possível, ao julgar pela modesta inclinação da curva, mesmo em meio à forte deterioração cambial”, afirma.
Na visão dele, a narrativa de uma recessão nos EUA ainda não parece ser corroborada pelos dados. “Não vejo a sessão de hoje [ontem] como alguma inflexão de narrativa ou iniciação de um novo regime, de recessão americana. Entendo mais como um ajuste pontual, com agentes querendo ficar mais leves para atravessar essa janela menos líquida que ocorre durante o período de férias no Hemisfério Norte”, conclui.
Fonte: Valor Econômico
