“Dois mil e vinte e três foi ano do Garrincha nos mercados”, disse nesta quinta-feira Luiz Parreiras, sócio e gestor da Verde Asset Management, no evento “Encontro com gestores”, promovido pela Icatu Seguros, no Rio. Segundo ele, havia um cenário traçado para o ano, mas nada acabou se confirmando. “A gente entrou o ano achando que a economia global ia acelerar”, recorda ele. Depois, as quebras de bancos médios nos Estados Unidos em março pareciam levar a uma recessão que permitiria a reversão das altas de juros pelos bancos centrais.
“Mas veio o terceiro trimestre com uma retomada dos indicadores econômicos que ninguém esperava. As economias globais passaram o ano dando olé nas expectativas dos investidores. Isso torna o trabalho de construir portfólio muito mais difícil. Esse foi o desafio que tivemos que navegar ao longo deste ano”, afirmou Parreiras.
Segundo ele, os juros altos no Brasil acabam mascarando o cenário, mas praticamente todos os outros investimentos não tiveram performance excepcional. “Na Verde a gente tem tentado manter desde o ano passado a disciplina de, quando o mercado vai muito para um lado, tentar ir para o outro, para fugir dos consensos, que têm se mostrado muito perigosos.” Para Parreiras, a dúvida é se em 2024 o mercado volta ater uma tendência mais clara.
Tiago Fernandes, sócio e gestor da SPX, fez coro e afirmou que foi “um ano de dribles macroeconômicos”. Ele explica que os gestores de multimercados geralmente não tentam capitalizar dinheiro de curto prazo. “Eles querem ver o dinheiro grande, querem procurar uma tendência. E foi um ano difícil.” Parreiras concordou: “A gente ainda não está num mundo onde veremos grandes tendências. O maior erro foi achar que o ano seria como 2022, que teve tendência clara.”
De acordo com o gestor da Verde, os clientes se mostraram com pouca paciência e os gestores tiveram que se adaptar, encurtando o horizonte para tentar sobreviver e entregar algum resultado. Parreiras explica que as estratégias de previdência da Verde estão rendendo 95% do CDI. “É o desafio de quem olha para nós de fora só como uma cota, sem entender o que está por trás e fala: ‘Não era pra esse cara ganhar todo ano?’. Essa dissonância acontece.” Para Fernandes, foi um ano de aprendizado. “É um momento de inflexão para estudar mais, fazer apostas com convicção e não tomar olé no mercado.”
O gestor da SPX disse que está otimista com o Brasil, que, afirmou, está melhor frente a outros emergentes com as reformas tributária e trabalhista, que “não foram revolucionárias, mas melhoraram”. Ele destacou o aumento no superávit da balança comercial, que melhora os para o real. ”Ou seja, o Brasil contra ele mesmo melhorou um pouco e contra o resto melhorou mais. Então é um Brasil ok.”
Já Parreiras manifestou temores em relação ao quadro fiscal, que, disse, se manterá pressionado nos próximos anos diante da baixa disciplina de gastos do governo. Além disso, ele prevê crescimento em torno de 2% do PIB em 2024, mais baixo do que este ano, explica, por causa de um desempenho mais fraco do agronegócio, desafiado por questões climáticas adversas. “A maior preocupação é com 2025 e 2026, quando o conflito fiscal transborda para virar um conflito eleitoral, com o governo tentando construir um projeto de reeleição, num país polarizado.”
Em relação aos Estados Unidos, o sócio da Verde afirmou que as previsões de início de cortes dos juros já em março podem estar agressivas demais. “A dúvida hoje é se a gente de novo não colocou o carro na frente dos bois. Tenho dúvida da profundidade desse movimento, vamos precisar tatear os dados nos próximos meses.” O gestor, no entanto, vê sanado o problema da inflação, que, afirmou, “saiu de cena”. Para ele, as discussões agora giram em torno do crescimento. “Se for pior vai ter que cortar mais rápido, se for melhor vai levar mais tempo.”
Nas alocações da gestora, essas dúvidas se traduzem em um portfólio mais balanceado, com de 5% a 7% em bolsa, 7% a 8 % em crédito e em moedas e juros no Brasil e no exterior. “Não estou no nível que poderia ter de risco porque é um cenário que parece o dia da marmota. E meu medo é que 2024 seja parecido.”
Já Fernandes, da SPX, afirmou que a gestora acredita que o aperto monetário nas principais economias vai ter efeito relevante. E afirma que a asset aplica em juros globalmente e está otimista com a bolsa. “Não temos mais para 2024 a visão de uma China que vai desacelerar muito. E vemos as economias europeias como fracas. Nossa tendência é esperar uma desaceleração global mas não intensa.”
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Luiz Parreiras, da Verde (ao centro), e Tiago Fernandes, da SPX (à direita), no evento da Icatu — Foto: Divulgação
Fonte: Valor Econômico


