O mercado brasileiro de concentrados e isolados proteicos, conhecidos como whey protein, mais que dobrou de tamanho entre 2021 e 2025, passando de US$ 165 milhões para US$ 360 milhões em faturamento. O dado consta em estudo da consultoria Bain & Company, obtido com exclusividade ao Valor, que estima crescimento de 7% ao ano em volume nos próximos cinco anos.
O avanço também aparece no varejo físico. Segundo dados da Scanntech, empresa de tecnologia e inteligência de dados para o varejo, as vendas de whey protein cresceram 117,1% em 2025 ante 2024. No mesmo período, as vendas de iogurtes proteicos avançaram 26,8% e as de barras proteicas, 18,4%.
Dois fatores sustentam o avanço da demanda. O principal é a popularização dos medicamentos para perda de peso da classe GLP-1. “Existe uma expectativa de penetração do GLP-1 na população brasileira, pelo barateamento, que a gente tá estimando que salte para 22% até 2030”, projeta Daniela Carbinato, sócia da prática de bens de consumo da Bain & Company. Segundo ela, se o Brasil seguir a curva de adoção americana, haverá muita pressão para o consumo de proteína. Usuários ativos da medicação já respondem por 10% da demanda nacional de whey e consomem acima da média para evitar a perda de massa muscular, segundo a consultoria.
O segundo fator é a busca por longevidade ativa, que reúne praticantes de atividades físicas, responsáveis por 60% da demanda, e consumidores focados em nutrição geral, que respondem por 30%. “Cada vez mais os consumidores olham pro corpo como um ativo de longo prazo. E, obviamente, o peso é um dos elementos de saúde que está na cabeça do brasileiro”, analisa Carbinato.
Alberto Moretto, sócio-fundador do Grupo Supley, dono de marcas como Max Titanium e Probiótica, confirma a mudança no perfil de consumo. “Com o GLP-1, observamos a entrada de um novo perfil de consumidor, muitas vezes sem histórico de uso de suplementos, focado em preservar a massa muscular”, afirma. O grupo expande para os canais de farmácias e supermercados com embalagens de 450 gramas e prepara um composto completo focado em usuários de GLP-1 para 2027.
O aumento da demanda também provocou um descasamento entre oferta e consumo no mercado global, elevando em mais de 45% em três anos os preços do WPC-80, concentrado de proteína do soro de leite, e do WPI, isolado de proteína do soro de leite, matérias-primas usadas na produção de whey. Carbinato ressalta que a pressão sobre os preços é global. “O crescimento do GLP-1 vai colocar pressão no whey, mas a pressão de verdade mais pesada não vem só do Brasil, vem do mundo inteiro”, diz.
Ela explica a dinâmica de precificação do insumo. “Trata-se de uma commodity mundial, então o fato de produzir no Brasil ou produzir lá fora tem pouca influência no preço. Funciona exatamente como soja, café e cacau.” Segundo Carbinato, “E produzir desenfreadamente não significa que haverá oferta de preços mais baixos para o Brasil. Se estiver custando muito caro lá fora, as empresas vão exportar. É uma dinâmica de mercado global”.
Raphael Traticoski, CEO da plataforma de co-manufatura GrowinCo, detalha o gargalo na oferta da matéria-prima, que era um subproduto de baixo custo da fabricação de queijos. “Hoje não existe tanto subproduto para a demanda que o mercado gerou”, diz. O executivo cita o desenvolvimento de uma barra de proteína para uma grande marca em que o custo “duplicou pela questão da proteína do soro de leite”.
Segundo os entrevistados, como alternativa, as indústrias redesenham formulações com proteínas vegetais, como amendoim, ervilha, e colágeno. “Se as indústrias começarem a ver esse custo subir muito, vão começar a procurar alternativas à proteína nas suas formulações […] uma saída pode ser o colágeno, para minimizar o impacto em margem”, diz Carbinato.
Para reduzir a dependência externa, o país, que importa 58% da demanda, sobretudo da Argentina, players locais e laticínios projetam dobrar a capacidade de produção nacional em cinco anos, de acordo com o estudo da Bain & Company.
Carbinato projeta que a relação de preços deve começar a normalizar após 2030, à medida que a nova capacidade produtiva global entrar em operação. Nos próximos 3 a 5 anos, “a demanda deve reencontrar a oferta e os preços devem começar a convergir para um patamar mais razoável”, finaliza.
Fonte: Valor Econômico