O grupo Votorantim segue a rota de crescimento traçada nos últimos cinco anos, focada na busca de novos negócios para compor seu portfólio de ativos. O mais recente movimento da centenária companhia fundada pela família Ermírio de Moraes é a consolidação de seu posicionamento no setor de saúde, com aumento de participação no capital da farmacêutica Hypera Pharma. Em abril o grupo passa a ter dois representantes no conselho de administração e conclui as negociações para integrar um novo acordo de acionistas junto com os atuais controladores.
A entrada na área farmacêutica, com a aquisição dois anos atrás de 5,6% de ações da Hypera, mais que dobrou de tamanho neste ano, mostrando o apetite do grupo para ser um player na área de saúde. No início de março, a Votorantim informou que atingiu fatia de 11% do capital e fez um acordo de voto com os atuais controladores da Hypera para eleger, na assembleia anual de acionistas de 25 de abril, dois membros no colegiado.
“Vamos dar todo apoio necessário para a gestão da Hypera”, disse João Schmidt, presidente da Votorantim S.A., em entrevista ao Estadão. Seu nome é um dos indicados ao conselho da farmacêutica, ao lado de Cláudio Ermírio de Moraes, que é um dos acionistas do grupo e integrante do conselho da Votorantim.
A Hypera, que foi criada pelo empresário João Alves de Queiroz Filho (conhecido por Júnior), é alvo, desde 2024, de uma ofensiva hostil de fusão por parte da rival EMS, pertencente a Carlos Sanchez. A Hypera é dona de marcas de renome, como Atroveran, Adocyl, Benegrip, Biotônico Fontoura e Cepacol, e Sanchez viu na junção das duas empresas a oportunidade de criar uma gigante do setor. Foi rechaçado e conta com apoio da Votorantim.
O balanço da Hypera no ano passado, recentemente divulgado, trouxe recuo de 6% na receita líquida, que ficou em R$ 7,44 bilhões, e decréscimo de 19% na última linha do balanço, com lucro líquido de R$ 1,33 bilhão. O valor de mercado da empresa na última sexta-feira, de R$ 12,5 bilhões, está longe dos R$ 23 bilhões de maio de 2023, quando a Votorantim comprou a fatia na empresa.

A estratégia de diversificação ― setorial, geográfica e de fatores de risco ― ganhou corpo no grupo quando se decidiu por menor exposição, por exemplo, a commodities. Inicialmente, foi vendida, em 2018, a divisão de aços longos no Brasil. Logo depois outra siderúrgica na Colômbia. Em 2019, foi a vez da Fibria: maior produtora de celulose do País, a fabricante foi transferida para a concorrente Suzano.
Nessa trajetória, a Votorantim enveredou por áreas novas ao DNA industrial da companhia que se formou ao longo de mais de um século, desde a fundação em 1918. Viu oportunidade nos setores imobiliário, de saúde, infraestrutura e de empresas de alto crescimento, por exemplo, áreas como educação e serviços financeiros.
O objetivo foi assegurar mais estabilidade aos negócios com o equilíbrio entre ativos antigos e novos e maior exposição em regiões de moedas fortes (dólar e euro). Atualmente, dois terços do Ebitda, sigla em inglês para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, são nas duas moedas, considerando operações no exterior e exportações a partir do Brasil.
Passou a compor o portfólio do grupo a Altre, voltada para investimentos em ativos imobiliários. A empresa, 100% controlada, já investiu em um grande empreendimento corporativo em São Paulo ― um multiuso de 219 metros de altura ainda em construção ―, além de ativos herdados na capital e em outros lugares do País. Nesse projeto, chamado Alto das Nações, o aporte foi de R$ 1 bilhão.

A empresa definiu também como estratégia atuar em mercados com potencial de crescimento no exterior, em especial nos EUA. Inicialmente com parcerias estratégicas. Abriu um escritório em Nova York e fez o primeiro investimento em um edifício multifamily na cidade de Chicago. Novos movimentos estão previstos no futuro, informa Sérgio Malacrida, diretor financeiro da VSA, que esteve à frente da Altre no período de sua organização.
A aquisição de uma fatia superior a 10% da CCR, empresa de infraestrutura rodoviária, mobilidade e aeroportuária que deve mudar o nome para Motiva ao final de abril, foi outro passo. A Votorantim entrou no bloco de controle junto com a Itaúsa. A CCR é uma gigante dessa área que está sempre disputando novas licitações.
Formada no final dos anos de 1990, a CCR anunciou recentemente plano de ajuste em seu portfólio de ativos, com saída de alguns e busca de sócios para outros. Isso não significa deixar de avaliar e disputar novas concessões no País, observa Schmidt, que é presidente do conselho da empresa, sem informar mais detalhes da estratégia da companhia.
A CCR confirmou a contratação de quatro bancos para ajudar na venda de 20 aeroportos na América Latina e cinco ativos de mobilidade urbana no Brasil, como metrôs, ferrovias e balsas. A meta é levantar até R$ 10 bilhões nos próximos anos como parte de uma ampla reorganização de seu portfólio, para aumentar investimentos em negócios estratégicos.
Noutra vertente, a criação da gestora 23S Capital, em parceria com o fundo global Temasek (de Cingapura), foi outro movimento dessa estratégia da Votorantim. O foco da 23S são investimentos em empresas de alto crescimento em vários segmentos da economia. Em 2023 foi feito o primeiro investimento na maior administradora independente de consórcio do País, a Ademicon. A seguir, a gestora adquiriu participação de 10% da Vitru Educação (instituição privada de ensino à distância).
O desembolso da 23S nos dois ativos somou R$ 625 milhões e marcou sua entrada nos setores de educação e serviços financeiros. O total de recursos alocados por Votorantim e Temasek na gestora foi de R$ 3,8 bilhões, sinalizando que há muita bala na agulha para adquirir novas oportunidades de investimentos em outros negócios.
O peso dos novos investimentos
Os novos negócios do grupo Votorantim, destaca Schmidt, já representam cerca de 20% do portfólio de ativos, em valor. E, seguindo o caminho visto até aqui, vão ter maior presença, embora o CEO diga que a companhia “gosta dos seus ativos mais maduros” com peso em commodities.
O cerne do grupo permanece nas áreas tradicionais, que acompanham a história de formação e crescimento da Votorantim em seus 107 anos. É o caso de cimento e mineração e metalurgia de alumínio, zinco e cobre. O grupo mantém ainda na Argentina uma usina de aços para construção. Essas operações renderam, em 2024, receita consolidada de quase R$ 52 bilhões e geraram ganho líquido de R$ 830 milhões.
Em investimentos de gestão compartilhada está a produção de suco de laranja feita pela Citrosuco, a área financeira, com o Banco BV, e a geração e comercialização de energia, que era voltada para consumo próprio das atividades industriais do grupo, mas que se tornou um grande negócio.
A criação da Auren Energia se deu em 2015, com a reunião numa única empresa de várias operações espalhadas dentro do grupo, com destaque para a área de comercialização de energia. Em um primeiro momento, ainda sem uma marca, a companhia passou a investir em energias renováveis (eólica e solar).
O grande salto foi dado com a aquisição em 2028 da Cesp (estatal paulista) em uma parceria com o fundo canadense CPP Investments. No início de 2023, listou-se no Novo Mercado da B3, se apresentando como Auren, e em meados do ano passado adquiriu a AES Energia, formando a terceira maior geradora brasileira, com capacidade instalada de quase 9 mil MW. A receita líquida pró-forma da empresa combinada, em 2024, foi de R$ 11,2 bilhões.
Os resultados do Banco BV, da Citrosuco, de Auren Energia, CCR, 23S e Hypera são registrados no balanço da Votorantim (holding) por equivalência patrimonial. No ano passado, o valor registrado pela companhia foi de R$ 1,08 bilhão, com destaque para a contribuição do banco, de R$ 562,63 milhões.
Impacto do câmbio no balanço
Controladora e investidora em 11 negócios, a Votorantim S.A. sentiu o peso da desvalorização do real frente ao dólar em seu balanço de 2024. O resultado financeiro da última linha, de R$ 830 milhões, poderia teria sido diferente se a moeda americana não tivesse disparado no último trimestre do ano e afetado os dados financeiros da holding, afirma Sérgio Malacrida, diretor financeiro (CFO) da companhia.
“Fechamos o exercício de 2024 com o dólar valendo R$ 6,19. Isso significou uma pancada de mais de R$ 2 bilhões no balanço”, afirmou o executivo. Além disso, informou Malacrida, também pesou o acordo da Votorantim Cimentos, com pagamento de R$ 1,1 bilhão, para encerrar o processo aberto pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) contra o setor cimenteiro por prática de cartel. A questão estava em discussão no órgão antitruste havia quase duas décadas, envolvendo também outras fabricantes.

Ao mesmo tempo que impactou o resultado líquido da companhia, a valorização do dólar beneficiou a receita de produtos cotados na moeda americana e também pelo que é gerado em moeda forte. Caso de cimento, na América do Norte e Europa (Espanha). A empresa também foi favorecida pela alta dos preços das commodities, como alumínio, zinco e cobre e suco de laranja.
A receita e a geração operacional de caixa (Ebitda) foram na contramão do lucro líquido, que ficou abaixo da metade do desempenho de 2023, quando registrou R$ 1,8 bilhão. O grupo registrou alta de 7% para a receita líquida, indo a R$ 51,8 bilhões, e aumento de 23% no Ebitda, que encerrou o ano em R$ 11,9 bilhões. “Foi um ano bom, melhor que o anterior”, disse o CFO.
O balanço da VSA consolida os números de Votorantim Cimentos, CBA (alumínio), Nexa (zinco, cobre, chumbo e prata), Acerbrag (aço longo) e Altre (mercado imobiliário), empresas controladas. O grande destaque foi a cimenteira, que respondeu por mais da metade da receita da Votorantim com receita líquida de R$ 26,6 bilhões e Ebitda de R$ 6,5 bilhões. O consumo de cimento cresceu 4,7% no Brasil no ano passado.
Globalmente, além do Brasil, que é a maior operação, a empresa está nos EUA, Canadá, Europa, Turquia e alguns países da América Latina. Como parte de uma estratégia também de reciclagem de ativos e foco em mercados mais estáveis e maduros, a VC se desfez, no ano passado, de suas operações em Marrocos e na Tunísia. Neste último país, a conclusão do negócio ocorreu nesta segunda-feira, 31, informou a empresa.
“Na Votorantim Cimentos são três clusters principais de produção. No Brasil, onde estaremos sempre e onde estamos investindo um pacote de R$ 5 bilhões desde o início de 2024, América do Norte e Europa”, destaca o CEO. No mercado brasileiro estima-se que a cimenteira detenha em torno de 32% a 33% de participação nas vendas, mantendo a liderança de longa data. Segundo a empresa, isso visa “equilibrar o posicionamento geográfico entre mercados maduros e emergentes, otimizando a gestão de riscos do portfólio”.

Foto: Votorantim Cimentos/Divulgação
“Nosso resultado em 2024 foi uma combinação de desempenhos recordes na Cimentos, no banco e na Citrosuco com a recuperação dos negócios da CBA e da Nexa”, afirmou Schmidt, CEO da holding. O executivo, oriundo do mercado financeiro, está no cargo há cinco anos, período em que o grupo imprimiu sua estratégia de diversificação geográfica, setorial e de fatores de risco para os atuais e os novos negócios. Essa estratégia ressaltou o presidente da VSA, segue firme.
Cautela no cenário de incertezas de 2025
O grupo está com o perfil financeiro saudável, diz Malacrida, com alavancagem baixa: 1,29% vez na relação de dívida líquida sobre o Ebitda. E conta com caixa de R$ 6,7 bilhões, sem dívidas na holding. “A nossa situação é muito confortável. Somos a única empresa brasileira não listada com grau de investimento das três principais agências de rating do mundo – Fitch, Moody’s e S&P”, afirma o CFO.
Para o CEO, diante dos indicadores da economia brasileira – taxa básica de juros (Selic) tendendo a ficar em 15% no ano e inflação na faixa de 5% -, a avaliação para 2025 é de cautela. “Não muda a nossa alocação de capital, mas a barra para novos investimentos sobe”, diz Schmidt. Ele informa que a companhia vai observar, antes de tudo, a dinâmica dos EUA e seus efeitos, com as medidas tomadas por Donald Trump, e a situação e o custo de capital no Brasil antes de tomar decisões. Nos EUA, o grupo tem investimentos nos setores de cimento e imobiliário e avaliava crescer mais por lá.
O montante consolidado de investimentos planejado pelas empresas do grupo para este ano é de R$ 20 bilhões, informa a VSA. Esse valor representa alta de mais de 30% ante os R$ 15,2 bilhões do ano passado.
Fonte: Estadão