No mais novo embate entre os dois maiores segmentos do varejo do país – supermercados e farmácias -, ontem foi um dia em que o mercado fez contas para calcular os efeitos de uma mudança que pode afetar ambos os negócios.
Na quarta-feira (22), a Abras, associação do varejo alimentar, informou que sugeriu ao governo medidas para baratear preços nas lojas, e uma delas é liberar a venda de medicamentos sem prescrição médica nas varejistas, uma antiga pauta das empresas. Conforme antecipou o Valor ontem, a sugestão foi bem recebida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num encontro em 21 de novembro.
Nas últimas horas, subiu o tom das críticas à posição de cada segmento. Há 11 projetos de lei envolvendo o tema parados na Câmara dos Deputados, apurou o Valor.
Durante a tarde de ontem, representantes da indústria de alimentos, supermercados e farmácias estiveram em ligações ou pelos corredores da Câmara, e trataram de expor suas posições a deputados da casa, onde a proposta deve ser votada, caso o governo avance mesmo com a medida.
O temor das farmácias é que o tema evolua em regime de urgência, por meio de algum dos projetos de lei, caso cresça o apoio político à medida. Pelo lado dos supermercados, o receio é que o governo engavete a proposta, pela pressão política de variadas instâncias do setor de saúde.
O Valor apurou que um vídeo do médico Drauzio Varella deve ser divulgado amanhã, nas redes sociais, com ele se posicionando contra a ideia dos supermercados – o material tem o apoio da Abrafarma.
Na visão das redes de alimentos, a venda de remédio nas lojas teria efeito positivo nos preços desses produtos, por haver mais uma competidora, e ainda poderia gerar novas vendas às empresas e melhorar lucratividade. Esse ganho poderia ser repassado aos preços de alimentos.
A venda de remédios cresce mais que a venda de alimentos no país, mas para efeito de comparação, as margens entre os segmentos não são tão diferentes.
Na Raia DrogasilCotação de Raia Drogasil, líder do setor e a rede que mais cresce entre as drogarias, a margem líquida fechou em 3,4% no terceiro trimestre. No alimentar, o Grupo MateusCotação de Grupo Mateus, também o que mais se expande no setor, alcançou 4,5% no período.
Ontem, a Abras publicou uma nota criticando o último comunicado da Abrafarma. A Abras diz que o posicionamento das farmácias causa estranheza pelo tom agressivo.
A Abrafarma havia dito, na quarta-feira (22), que o efeito da mudança no setor seria desastroso. Afirmou que farmácias não geram inflação (os aumentos de preços são definidos pelo governo) e que essa medida acabaria elevando o preço dos medicamentos com prescrição, para compensar a perda de venda e manutenção dos custos fixos.
A Abras questionou esses pontos das farmácias. “Esquece a Abrafarma que as farmácias vendem remédios on-line e fazem entrega a domicílio. Por que as farmácias podem vender remédios sem receita via on-line e os supermercados não podem vender remédios sem receita de forma presencial?”, diz na nota.
Ainda afirma que se compromete a contratar farmacêuticos em cada loja, e a postura das drogarias mostra preocupação com a reserva de mercado. “Eles [supermercados] estão usando dados de 1994 para dizer que conseguiriam vender medicamentos 35% mais baratos”, responde um interlocutor das farmácias.
Relatório do ItaúCotação de Itaú BBA publicado ontem afirma que a mudança pode ser ineficaz e nociva para a saúde da população. O banco não vê como esse cenário poderia ajudar a reduzir a inflação de alimentos, porque é difícil supor que as redes de supermercados iriam transferir lucro aos preços. “Estimamos que cerca de 15% da receita total da Raia Drogasil está exposta a essa proposta. Para Pague MenosCotação de Pague Menos e PanvelCotação de Panvel, o percentual é similar”, diz o BBA.
Sobre o assunto, a RD disse ontem, ao Valor, que vê riscos às pessoas com a aprovação da medida.
Fonte: Valor Econômico